Muhammad Yunus, economista ganhador do Nobel da Paz de 2006, inicia parceria com iniciativa privada e pública no Brasil

“Hoje a distância entre o possível e o impossível está diminuindo de tamanho, mas ainda há bastantes coisas para fazer”, animou Muhammad Yunus, economista ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2006 por seu trabalho de microcrédito em Bangladesh com a criação do Grameen Bank, aos participantes do encontro Negócios Sociais e o Investimento Social Corporativo – Uma conversa com Muhammad Yunus, promovido pelo o Instituto BRF em parceria com o GIFE, em São Paulo, na última terça-feira (28/05).

A conversa contou com Saskia Bruysten, CEO da Yunus Social Business, uma incubadora e um fundo de investimento para negócios sociais fundada pelo economista, para explicar a proposta da instituição e as ações em diferentes países. O evento foi voltado prioritariamente a CEOs e executivos de institutos e fundações familiares, comunitárias e empresariais. Para o próprio público também perguntar ao economista, o debate seguiu uma metodologia conhecida como aquário, em que dois participantes do debate cederam seus lugares ao público.

Primeiro Yunus comentou como se deu a proximidade com a empresa: “A BRF estava interessada em negócios sociais. E logo disse que não tinha lucro”. Segundo o palestrante, a ideia dessa parceria é criar possibilidades de negócios sociais no Haiti. Em sua visita nesse país, o que mais impressionou foi notar a quantidade de produtos importados. “Quando nós começamos a criar frangos em Bangladesh e isso veio da própria experiência. Foi uma escolha das mulheres, que já criavam galinhas e começaram a vender os ovos. Isso é um investimento que eles podem fazer. Essa renda pode pagar nossos empréstimos, que são pagos a cada semana. É um ótimo exercício para comprar um negócio familiar, tradicional. Isso cria autoconfiança que posso fazer alguma coisa na minha família”.

O idealizado do Grameen Bank contou ainda sobre a importância de pequenas ações para melhorar a situação da população pobre de Bangladesh, que possuía altas dívidas com agiotas locais. Ele é conhecido por criar um banco que empresta dinheiro a pobres, viabilizando amplo serviço de microcrédito para a população de baixa renda, considerando os costumes e os hábitos dos habitantes dessa região. “A pessoa se torna escrava, me sentia muito mal. E me perguntava: Por que eu não empresto esse dinheiro? Comecei a dar empréstimo do meu bolso… Fui ao banco e recebi um não e até me ofereci como fiador. E perguntavam: Por que você se arrisca? E respondia que eu não tinha medo. Hoje temos oito milhões e 500 mil de devedores, sem garantias, e 97% dos empréstimos são para mulheres”.

O economista ainda comentou que a situação de pobreza, em geral, está relacionada com má saúde, com baixos hábitos alimentares e moradia em lugares precários em saneamento básico. “Você tem que endereçar cada um desses problemas”, afirmou. Ele ainda comentou que essas questões podem ser resolvidas com um negócio social. Por exemplo, em Bangladesh, cerca de 70% das residências não tinha eletricidade. “Questionamos: Por que não criamos uma empresa de energia renovável? É uma boa chance para não usar o carvão… Dessa forma criamos o Grameen Shakti – Solar Energy para vendermos sistemas solares. Recebemos críticas por sermos caros e muitos não acreditaram que iria funcionar. Hoje já vendemos mil sistemas solares por ano. Levou 16 anos para isso”, contou Yunus, mostrando que os negócios sociais são para resolver problemas, não para trazer lucros aos indivíduos.

Outro exemplo citado foi a parceria com a empresa Danone. Ele explicou que foi necessário que os diretores entendessem o conceito de negócio sociais, para criarem uma solução ao problema da má nutrição da população em Bangladesh. Para isso, foi criado um iogurte com as vitaminas necessárias por um preço baixo.

Yunus ainda ficou surpreso no Haiti com a grande quantidade de universitários que saem do país, em torno de 80%, em busca de melhores empregos em outros países. “Em Bangladesh, reparava a quantidade de pessoas desempregadas e achava um desperdício de energia tantas pessoas paradas. O desemprego é uma punição, o sistema pune o individuo. Não deixa expressar sua criatividade. Esses são os desafios. Hoje o dinheiro é quem manda, mas ele é apenas um meio. E a vida é o quê? Muitos pensam que é apenas estudar, conseguir um bom emprego e ter dinheiro e isso não é apenas viver”, pontuou o Nobel da Paz.

Já Saskia explicou como funciona a Yunus Social Business, uma instituição que ajuda a disseminar o conceito e a prática de negócios sociais a outros locais de duas formas: treinamento e investimento. Para capacitar, oferecem um fundo de incubadores com uma equipe que identifica e forma empresários. Por outro lado, há um fundo de investimento. Atualmente, atuam na Colômbia, Haiti e Albânia, e em três países africanos. “Vamos começar a trabalhar aqui no Brasil para levar idéias de negócios sociais, que se mostrarem viáveis em qualquer lugar que acredita no conceito”. Ela se espera desenvolver ações animadoras aqui no Brasil e até ter um fundo de investimento até o final do ano para ajudar a identificar muitos projetos. Por isso, convidou empresários para contribuírem com 5 a 10% de seus lucros para esse fundo destinado a negócios sociais. Nós vamos transformar suas doações para construir o movimento de negócios sociais aqui”.

Parceria privada

A BRF, por meio do Instituto BRF, e a Yunus Social Business, possuem uma parceria em andamento para a realização de um estudo para verificar a viabilidade de um negócio social no setor de avicultura do Haiti. A iniciativa pretende criar empregos e oferecer seus produtos nessa região.

Rodada de debate

Luciana Lanzoni, diretora executiva do Instituto BRF, iniciou questionando Yunus sobre como os negócios sociais poderiam contribuir com a gestão de sustentabilidade. O economista respondeu que acredita que todos os seres humanos têm muita capacidade. “Como desconhecemos não fomentamos”, afirmou. Ressaltou ainda que as empresas têm alto poder e o desempenho delas podem ajudar na resolução de problemas e os negócios sociais ajudariam nesse processo. “É usar o poder a outros propósitos”.

Já André Degenszajn, secretário-geral do Gife, perguntou quais seriam os principais obstáculos dos negócios sociais e como as organizações privadas poderiam colaborar. O economista respondeu que é importante ter muito bem definido o negócio para não voltar-se ao lucro. Comentou ainda que se cada um destinasse 5% para um fundo a negócios sociais já seria de um grande ajuda para novas idéias.

Para exemplificar, o economista citou o exemplo da escassez de enfermeiras em Bangladesh. “Lá 21% da população é jovem com 21 anos de idade, ou menos, e sem acesso à educação. Perguntei: por que não pegamos essa turma e treinamos como enfermeiros? Desenvolvemos um negócio social a enfermeiros. O banco paga o custo da educação para essa jovem, que depois de formada paga o empréstimo. Daqui três anos, em 2016, vamos chegar ao ponto de equilíbrio”.

Quando uma jovem do público questionou sobre seu interesse pelo tema e sua dúvida sobre como começar a empreender, Yunus falou que o primeiro passo poderia ser criar um fundo, mas ao mesmo tempo reforçou a importância da ideia ser o principal fator para criação desse tipo de negócio. “O dinheiro não será limite, seremos parceiros”. Também chamou atenção para o jovem pela agilidade com recursos tecnológicos e ideias inovadoras. Citou o caso de jovens franceses que estão percorrendo diferentes países para descobrirem negócios sociais e depois criarem uma rede de empreendedores. Confira aqui a notícia: http://bit.ly/14eVVXP

Parceria com governo do PA

Na última quarta-feira (29/5), o governo do Pará assinou parceria com o Yunus Social Business Centre Brasil, na sede da Escola Superior de Propaganda Marketing (ESPM), em São Paulo. Segundo notícia da Agência Pará de Notícias, participaram da reunião para assinatura do memorando de entendimento a chefe da Casa Civil da Governadoria, Sofia Feio e o secretário especial de Desenvolvimento Econômico e Incentivo à Produção, Sidney Rosa. O objetivo é gerar empregos a partir de empreendimentos focados na resolução de problemas sociais e não do lucro. Essa aproximação do governo com a entidade começou na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (Rio +20), em junho de 2012, período em que Yunus conheceu o governo Simão Jatene, para a redução da pobreza e desigualdade social no Estado. A partir daí, O idealizador do Grameen Bank convidou o governador para participar do Global Social Business Summit (Cúpula Global de Negócios Sociais), evento que ocorreu em novembro do ano passado, em Viena, Áustria, e discutiu assuntos relacionados aos negócios sociais.

Já na academia…

No início da semana, o economista também lançou o Yunus ESPM Social Business Centre, um centro de pesquisa em parceria com a Escola Superior de Propaganda e Marketing. Será o primeiro da América Latina destinado a negócios sociais, que visa estimular a produção científica sobre esse segmento. Confira na notícia feita pelo site Porvir.

Serviço:

Yunus Social Business: www.yunussb.com

Informações obre Muhammad Yunus: www.muhammadyunus.org

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http://bit.ly/10qMyml

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http://bit.ly/18z9bgI