Ministro da Cultura defende o engajamento do cidadão para ocupação das cidades em São Paulo

Diferentes coletivos culturais se reúnem e apresentam suas ações na Vila Itororó

Diferentes coletivos culturais se reúnem e apresentam suas ações na Vila Itororó

“A primeira provocação que eu faço é tentar pensar a cultura como um campo de batalha onde se disputa, de forma central, as possibilidades de mudança social ou a simples reprodução ampliada das formas dominantes de exploração, de opressão, de discriminação, das várias violências”. A fala é de Carlos Vainer, arquiteto e urbanista e presidente do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Com papel de instigar reflexões, ele esteve presente no debate Cultura e Cidades: a construção de outro imaginário urbano, realizado no dia 4 de novembro, no Centro Cultural São Paulo.

O encontro contou com a presença importantes lideranças políticas, como Juca Ferreira, Ministro da Cultura, Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, e Nabil Bonduki, secretário municipal de cultura de São Paulo. O evento integrou um seminário do programa Cultura e Pensamento, promovido pelo Ministério da Cultura. “A temática convida a repensar os espaços urbanos”, afirmou Juca. “Não temos como definí-los sem que todos os participantes da urbe façam parte disso”.

Segundo Vainer, a cidade pode também ser vista como campo de disputa – que, nesse caso, deixa de ser uma metáfora quando se pensa nas manifestações e movimentos que eclodiram em todo o mundo nos últimos anos e que tiveram sua expressão mais marcante no Brasil em junho de 2013.

“De que direitos e de que cidade estamos falando? Disputa-se a mesma noção por todos os lados?”, questionou, explicando que as respostas para essas perguntas podem ser muito variadas. A partir disso, colocou como um dos principais conflitos a relação entre uma dominação urbana, que se baseia na financeirização da cidade, e as novas formas de resistência a esse movimento. “A cidade é também uma arma que vem sendo utilizada por uma série de grupos que fazem da construção de novos espaços, novas práticas e relações urbanas e culturais”.

Sua fala parece convergir com a de Guilherme Varella, secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, realizada na abertura do evento: “A gente entende que as cidades são os grandes espaços em que estão acontecendo os grandes problemas e as grandes soluções contemporâneas e, se há um papel que é o papel importante da cultura, é o de discutir os valores que permeiam hoje a vivência, a convivência e as ocupações”. Para ele, as disputas estão no campo da mentalidade e do comportamento.

Afinal, o que é e para que serve a cidade? O fato de haver interesses divergentes dos variados atores sociais a respeito desses significados demonstra a necessidade dos momentos de reflexão. Em participação especial no início do debate, a presidente do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Jurema Machado, comparou as legislações urbanísticas com as políticas de patrimônio, também comentando a influência que o capital imobiliário exerceu sobre a primeira. No entanto, ela acredita que agora o momento é de reunificação em torno de objetivos comuns. “Não é uma ideia de apenas se ter acesso a condições mínimas de moradia, infraestrutura e mobilidade, mas de representar valores de identidade, memória, relações de vizinhança e condições do ambiente”, disse.

De acordo com Varella, o programa responsável pelo encontro é justamente uma tentativa do poder público de participar ativamente desse processo de ressignificação. Para ele, políticas urbanas só serão efetivas se houver de fato uma mudança de mentalidade. E, para concretizar isso, é necessário estimular iniciativas artísticas também. Jurema concorda: “existe uma associação inevitável entre política urbana e cultural”, citando como exemplo o fato de que os modernistas tombaram cidades inteiras com o intuito de protegê-las.

Para Juca Ferreira, já houve muitos avanços na área, como o Estatuto da Cidade e o Plano Nacional de Saneamento Básico. No entanto, ele acredita que a mudança passa também pela transformação das ruas para que deixem de ser meros canais de tráfego. “Uma praça vazia é espaço morto para a vida coletiva”, disse. E foi além: “A cidade não pode ser vista como um lugar hostil”. Segundo ele, é necessário que os modelos urbanos sejam mais participativos e generosos. Nesse sentido, a participação dos movimentos sociais que reivindicam o direito à cidade é fundamental: “Esse engajamento cidadão é muito bom. É o genuíno desejo de influir no destino do lugar onde se vive”.

Outra convidada presente na mesa foi psicanalista e escritora Maria Rita Kehl. Em seu depoimento, ela se identificou mais como cidadã do que como pesquisadora e destacou: “reclamamos da cidade, mas não nos damos conta de que ela dá certo”. São Paulo, por exemplo, apesar de possuir mais de 20 milhões de habitantes e de ser organizada de maneira extremamente complexa, funciona, à sua maneira, todos os dias. “Sociedades modernas são lugares de convívio com estranhos”, disse, frisando que isso demonstra até mesmo os sinais da fragilidade e do desamparo humano, uma vez que necessitamos de laços com estranhos.

Já o prefeito Fernando Haddad, o último a falar, acredita que vivemos um momento rico para promover quebras de paradigmas e que o debate tem a ver com a visão em transformação do que é viver na cidade. Nesse sentido, destacou: “a cultura é uma variável importante para evitar retrocessos”. Também ligado a isso, comentou que os problemas urbanos muitas vezes são culturais, isto é, estão ligados aos costumes cotidianos dos indivíduos. No entanto, transformar as maneiras de pensar coletivamente pode ser trabalhoso. “Se uma pessoa não quer mudar de vida, não é um problema tão grande quanto querer impedir quem quer”, declarou.

Quando questionado pelo público se a linha demarcatória entre direita e esquerda estavam se rompendo na política urbana, Haddad respondeu que esses conceitos ideológicos ainda fazem sentido na prática e que a democracia é a construção de entendimento entre as partes. Ressaltou que, em geral, prefeitos mais e menos progressistas costumam se entender bem quando o tema é sustentabilidade socioambiental. No entanto, comentou em tom de desabafo que algumas ações, consideradas por ele como óbvias, costumar gerar desgaste desnecessário em decorrência da reação da população. “As pessoas problematizam o que deveria ser impulsionado, é difícil entrar em consenso”, desabafou. E finalizou: “Nem toda política pública precisa ser demarcada. Há coisas boas que têm que ser feitas e podem ser objeto de desenvolvimento mútuo”.

Este debate está disponível neste link: https://goo.gl/qPrnPA


Texto: Natália Freitas
Data original de publicação: 16/11/2015