Lugar de mulher é na tecnologia também

 

Camila em workshop do Technovation

Imagine uma pessoa que estuda ciência da computação, sentada em frente ao computador, programando algo difícil. Por acaso a imagem que veio à sua mente é de um menino? É provável que sim. Essa associação rápida tem conexão com a realidade: de acordo com o Censo do IBGE de 2010, apenas 22% dos estudantes desse curso são do sexo feminino.

 

Meninas aprendem a construir aplicativos

Foi nesse mesmo ano que Camila Achutti, de 23 anos, iniciou sua graduação na área. Ao entrar na sala de aula, o choque: em uma turma de 50 alunos, havia apenas ela de mulher. Sentindo-se intimidada, chegou a pensar que aquela escolha poderia não ser a ideal. Foi quando criou o blog Mulheres na Computação para discutir o tema e dizer que sim, mulher e tecnologia combinam.

“Elas entram meninas e saem mulheres de negócios”, diz Camila, sobre as participantes do projeto

Atualmente formada, Camila já faz seu mestrado e milita pela inserção das meninas na área. Ela foi uma das responsáveis por trazer o Technovation Challenge para o Brasil, iniciativa de uma ONG estadounidense. Trata-se de uma competição de aplicativos realizada com meninas entre 10 a 18 anos que, ao longo do processo, aprendem a desenvolver os apps, cuja finalidade precisa gerar impacto social.

Em conversa com o Portal Setor3, ela falou sobre sua carreira, a questão de gênero na tecnologia e o quanto as gerações mais novas têm a contribuir no cenário atual.

Portal Setor3 – Conte um pouco da sua história. Como você decidiu que queria entrar no mundo da programação?

Camila Achutti – Eu entrei pelo meu pai, ele trabalhava com tecnologia. Eu pensava bastante em medicina, sempre fui boa aluna, não sabia muito bem, mas ao mesmo tempo queria trabalhar com tecnologia. Lembro que fiz uma disciplina eletiva de mecatrônica no ensino médio e foi lá que eu bati o martelo. Eu já tinha essa inclinação pelo meu pai, achava programação o máximo e quando eu comecei mecatrônica, mexi com solda, essas coisas, decidi que queria fazer uma coisa mais técnica. Fui estudar ciência da computação na USP (Universidade de São Paulo). Sabia que queria aquilo, mas como não era muito comum menina fazer técnico, entrei sem saber quase nada.

Portal Setor3 – O seu blog começou exatamente porque você chegou na sala de aula, só encontrou homens e se sentiu intimidada. Hoje, pouco tempo depois de formada, percebe alguma mudança nesse cenário?

CA – Antes tinha mais mulheres na tecnologia, até 1984. Desse ano para trás eram muitas mesmo…

Portal Setor3 – Existe uma explicação para isso?

CA – Os homens estavam em guerra. Alguém tinha que fazer os cálculos matemáticos, manter a ciência rodando e as mulheres foram para essa área. Em 1984, mais ou menos, foi quando o computador chegou na casa das pessoas e acabou virando o brinquedo do menino. Sendo o brinquedo do menino, as meninas acabaram ficando de lado nesse processo e pararam de se interessar pela área. Hoje a gente não vê uma melhora significativa. Existem vários programas de incentivo agora, o assunto está bem em voga, mas ainda não tem uma grande mudança.

Portal Setor3 – Você acha que o fato de os homens estarem mais nessa área vem também do processo de educação que as pessoas recebem em casa, na família?

CA – Total! Às vezes é uma coisa que você nem percebe. Eu sempre dou esse exemplo: fui criada com primos homens, tinha bastante menino na minha família. E o que acontecia não é algo que só acontece na minha família, é em geral. Quem dirigia o carro, quem arrumava o carro com meu pai, quem achava o máximo aquilo eram os meninos. Toda vez que eu pedia para fazer alguma coisa, meu pai dizia “vai sujar a roupa”, “vai estragar”, “sua mãe vai me matar”. Então a gente tem muito essa diferença de criação. A menina brinca de casinha e o menino brinca de carro. E na hora de ele decidir o futuro, ele vai obviamente para uma coisa que remeta a isso. Tem tudo a ver com criação.

Portal Setor3 – Dentro da área de tecnologia, você já sofreu algum tipo de discriminação por ser mulher?

CA – Eu não gosto muito de comentar episódios pontuais, mas acho que a maioria das meninas que diz que não sofreu é porque não ligou o radar, porque não prestou atenção. O preconceito velado existe também. Quando você está na balada e fala “eu faço computação” e outra pessoa fala “nossa, não parece”, isso já é algum tipo de preconceito. Cara, por que você acha que não? Só porque eu sou uma menina? Todo mundo sofre isso todo dia e talvez a gente não esteja alerta. Isso já é preconceito para mim.

Portal Setor3 – E você percebe isso desde o momento que entrou na faculdade ou depois que começou a ir mais atrás do assunto?

CA – Desde que eu entrei na faculdade isso é bem claro. Se você falar que estuda matemática, computação, engenharia, vai escutar na balada que não parece. Então você já encara um preconceito logo no início do curso. Independentemente de ser no mercado de trabalho ou não, já dá para ver que existe uma diferença. Até mesmo se olhar para o lado né, você não vê ninguém parecido com você ali, só vê meninos que fizeram técnico, que já sabiam muita coisa quando entraram na faculdade. Você começa a pensar “cara, de fato talvez eu não pertença a esse lugar”.

Portal Setor3 – Conta um pouco da sua carreira. Você foi até o Google e resolveu voltar. Isso tem alguma coisa a ver com o que você decidiu trabalhar hoje?

CA – Quando acabei a faculdade eu queria fazer mestrado, queria trabalhar na NASA, talvez dar aula, mas eu não sabia direito. Sempre trabalhei com educação, aula, projeto educacional durante a graduação inteira, mas nunca vi isso como carreira de verdade. Não tinha pensado se dava para viver disso. Quando me formei, fui fazer estágio no Google, lá na Califórnia, e caí na repartição de educação de engenheiros, em um projeto educacional. Foi quando eu pensei que dava para trabalhar com isso e pensei que precisava trazer isso para o Brasil. Queria que as pessoas vissem que aquilo era legal. Eu voltei doida, tentando entender o que eu ia fazer. Tinha um emprego remoto em uma plataforma de educação a distância que ensinava o movimento maker para crianças e minorias nos Estados Unidos. Era ótimo, porque eu conseguia fazer as minhas coisas aqui e programava de madrugada. Depois fui trabalhar na FIAP como influenciadora digital e estou lá até hoje fazendo projetos educacionais, como a Maratona de Aplicativos e a Semana da Mulher na Tecnologia. Mais recentemente, há uns seis meses, fundei a Ponte 21, que é uma empresa de tecnologia focada em educação e distribuição de renda por meio da tecnologia. A ideia é educar jovens do país inteiro, chegar no Brasil remoto para que essas pessoas possam produzir inovação, exportar, testar essa tecnologia e conseguir distribuir renda ao mesmo tempo.

Portal Setor3 – É isso que você faz hoje?

CA – Sim. A Ponte, a FIAP, o blog e o mestrado.

Portal Setor3 – Você faz mestrado em quê?

CA – Eu faço pela USP no Departamento de Ciência da Computação, no tema de educação científica e técnica. Estamos entendendo como construir um currículo de 20 horas para ensinar literacia digital no Brasil. É um termo técnico, como se fosse uma alfabetização digital. Lá acreditamos bastante que, assim como o inglês é mega importante e saber falar não é mais que sua obrigação, achamos que programar vai virar isso. Conseguir entender como os computadores e as máquinas funcionam vai ser essencial.

Portal Setor3 – E você trouxe o Technovation para o Brasil. Como foi isso?

CA – Em 2013 o Technovation abriu participação para pessoas de fora dos Estados Unidos e a Mariana Rutigliano, que já trabalhava na ONG e é brasileira, adotou um time aqui no Brasil e fez o projeto com as meninas todo em inglês. Elas tinham que se virar e foi incrível, ficaram em terceiro lugar. A Mari me falou que precisava de alguém para ajudar a levar isso para o Brasil e foi quando eu apareci na história. Em 2013 a gente organizou a edição de 2014, traduzimos tudo, foi o maior perrengue. Não tínhamos dinheiro nenhum, foi tudo no trabalho voluntário. Conseguimos apoio da Fundação Lemann para a edição de 2015 e crescemos pra caramba. Eu fico super orgulhosa, porque no começo mesmo não tendo dinheiro a gente conseguiu chegar em quase 400 meninas em 6 cidade diferentes, criamos uma comunidade em torno disso, saímos bastante na mídia, foi bem legal. Conseguimos o apoio da Fundação Lemann e com isso alcançamos 1600 meninas em 21 estados do Brasil em 2015.

Portal Setor3 – Já têm inscrições abertas para a edição de 2016 do Technovation?

CA – Sim, é só acessar o site www.technovationchallenge.org/brasil.

Portal Setor3 – E até quando vão as inscrições?

CA – Até fevereiro do ano que vem, daí começa o programa, mas já estamos pegando os e-mails de quem se inscreve e entrando em contato.

Portal Setor3 – O que foi possível observar nas meninas que participaram edições que já aconteceram? Que tipo de transformação aconteceram com elas?

CA – Elas entram meninas e saem mulheres de negócios. Saem se sentindo capazes de trabalhar com tecnologia, de gerar impacto na comunidade delas. Não tem uma pressão para estudarem ciência da computação, engenharia, tecnologia. Mostramos muito a tecnologia como ferramenta, independente da área que elas forem seguir, vão usar esse conhecimento. Então elas literalmente sentem que podem ser quem quiserem. É muito massa, é uma transformação absurda. Elas criam, por exemplo, a certeza de que precisam estudar inglês, principalmente as meninas que vão para os Estados Unidos depois. Eu achei uma frase de uma menina que foi para lá no primeiro ano do Technovation que era de Santarém, do Pará, e ela falava assim: “Antes meu maior objetivo era trabalhar em Santarém, hoje eu sei que posso trabalhar em qualquer lugar do mundo”. E é exatamente essa abertura de visão que a gente quer. Você pode ser quem você quiser! Não é porque alguém está em Santarém, no Pará, no Brasil, que não pode querer trabalhar no Google, na Califórnia, ou na Intel, em Amsterdã.

Portal Setor3 – E você, que é empreendedora, mulher, vê uma mudança de pensamento no público pré-adolescente e adolescente? Acha que eles estão mais ligados nessas questões de gênero e tecnologia?

CA – Eu acho que isso está começando, mas eu já fico muito feliz. Não sei se você viu a história da Catharina, que fez um app contra o assédio com o dinheiro que era para a viagem de formatura dela. Eu vejo o jovem muito mais aberto à diversidade. Agora queremos levar as meninas para a tecnologia, mas o jovem de hoje é muito mais aberto a conversar sobre gênero, sexualidade, minorias. Ainda estamos engatinhando, temos muito o que evoluir, mas eu confio no futuro.

Portal Setor3 – E a tecnologia contribui diretamente para as questões de gênero?

CA – Totalmente. Você consegue ter voz. Independentemente de quem seja, você na rede pode ser quem quiser. Isso é bom e ruim. Mas você pode, do seu quarto, atingir milhões de pessoas, então eu acho que contribui sim. A gente tem dado voz para mulheres. Um exemplo é o Think Olga, que fez a #meuprimeiroassédio. A tecnologia tem muita coisa a contribuir sim, pela velocidade e pelo poder de escala.

Portal Setor3 – A família, o governo, a escola e a sociedade de modo geral estão incentivando esse jovem que está mais aberto?

CA – Acho que essa é a parte mais difícil. A gente vive um momento muito peculiar da história porque a juventude hoje é nativa digital, já nasceu com isso. E quem está educando essa galera, tanto em casa como na escola, é imigrante digital. Então eles não nasceram com tecnologia, eles acham rede social estranha. É um momento de transição. Hoje é muito difícil ver um grande incentivo. Já começou, mas não é realidade. Eu vejo muito pai que escuta na TV que programação é a língua do futuro e coloca o filho em uma escola de programação. Às vezes ele fica desesperado tentando entender como vai ajudar o filho, mas já existe uma ideia de que isso é importante. Por eles serem imigrantes digitais, esses professores, esses pais, ainda é complicado.

Portal Setor3 – E qual ator social está contribuindo mais na educação de gênero?

CA – A escola não, né? Nem foi aprovada a discussão de gênero dentro da escola. Eu acho que o governo também não. O Technovation não é financiado pelo governo e eu não vejo grandes projetos de discussão de gênero. Está começando, mas ainda não é uma realidade. A nova geração tem se ajudado muito. Vários amigos e eu somos mega preocupados com educação – uma preocupação que eu não via em outras gerações. Acho que a geração Millenium é muito preocupada com ter impacto social, propósito, educar. Não sei se somos um ator social, mas acho que os milleniuns vão conseguir talvez resolver esse problema.

Portal Setor3 – Quais são os espaços que estão mais adaptados para receber esse jovem? Eles existem?

CA – É difícil, ainda tem muito problema para os jovens se encaixarem. Vejo o governo se abrindo um pouco, vejo a iniciativa privada se abrindo um pouco, mas ainda não está claro. Nenhum deles entendeu muito bem como vai ser isso. Várias empresas ficam desesperadas tentando entender como vão receber essa nova geração, como vão retê-la. Então eu não sei quem é que está mais preparado, sinceramente, acho que todos eles tão tentando entender como fazer isso.

Portal Setor3 – Tem um caminho definido?

CA – Eu acho que o caminho é dar um propósito. Várias pessoas vêm me perguntar “Como eu vou reter uma pessoa como você na minha empresa? Como eu vou conseguir contratar pessoas assim? ”. Na verdade, não vejo outro jeito a não ser dar propósito para o jovem. Dar um desafio novo, um desafio que realmente mexa com essa pessoa, porque senão ela vai fazer o dela. Ela vai sair e vai para outra empresa que dê propósito para vida dela. Eu acho que essa é a grande diferença inclusive entre a geração X, que é dos nossos pais, e a nossa. A gente está muito mais preocupada em ter uma jornada que de fato mude a vida de alguém do que a geração anterior, que queria um salário para depois dos 50 anos começar a viver, a viajar. A gente quer mais aproveitar o caminho. É mais o processo que conta do que chegar com 40, 50 anos e ser milionário.


Acesse o blog Mulheres na Computação: http://mulheresnacomputacao.com/

Texto: Natália Freitas

Data original de publicação: 26/11/2015