Livro relaciona novas tecnologias, políticas sociais e idosos

Que lugar as novas tecnologias ocupam ou podem ocupar na vida das pessoas com mais de 60 anos? Como essa faixa etária se relaciona com os avanços tecnológicos? São algumas das questões abordadas em Envelhecimento, Políticas Sociais e Novas Tecnologias, de Clarice Ehlers Peixoto, doutora em antropologia social e visual pela École des Hautes Études em Sciences Sociales (Paris) e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e Françoise Clarairolle, doutora em antropologia social e etnologia pela mesma instituição e professora na Universidade François Rabelais (Tours, França).

A publicação faz parte da série Família, Geração e Cultura, elaborada pela editora FGV (Fundação Getúlio Vargas), que já publicou quatro obras para promover debates e pesquisas, enriquecendo a reflexão sobre as relações familiares no Brasil.

“Os três campos impulsionaram a análise do livro: as políticas e serviços sociais para os idosos ligadas às novas tecnologias, os usos e representações das pessoas de idade sobre os objetos técnicos e o lugar do idoso na oferta técnica, ou seja, se as pessoas que concebem esses aparelhos levam em consideração a idade dos usuários”, esclarece Clarice.

O livro é um estudo de caso do município de Verrières-Les-Buisson, próximo de Paris (França), sobre o uso e as representações de novos equipamentos tecnológicos por idosos dessa comunidade e questiona a idéia de que este não assimila os avanços da indústria moderna. Apresenta a nova imagem da Terceira Idade: sênior, aposentado, com renda própria e tempo livre para consumir serviços e objetos tecnológicos.

O estudo também aborda as políticas sociais voltados aos idosos na França no decorrer do século XX nos dois primeiros capítulos. Para eliminar o asilamento dessas pessoas ou evitar que acabem na pobreza, houve ações de integração social e melhoria de suas condições de vida. Já no capítulo Envelhecimento e Novas Tecnologias, comenta o acesso dos idosos aos produtos tecnológicos e critica o imaginário social sobre a ligação da juventude à modernidade. Para isso, as autoras não procuraram listar os objetos considerados da nova tecnologia, mas deixou os entrevistados espontaneamente dizerem os objetos que classificam como tal para não ocorrer nenhum tipo de interferência. Resultado: uma lista bem heterogênea.

Um dos exemplos citados foi uma senhora que incluiu entre seus pertences tecnológicos a lixeira de pedal que acabara de adquirir e provava para seu filho um pouco de sua “modernidade”. Outro caso foi uma senhora que defende que o forno microondas não é uma nova tecnologia e sim um aperfeiçoamento, pois o princípio é o mesmo: “serve pra esquentar”. Muitas pessoas associam o termo novas tecnologias apenas ao computador, instituído como o objeto emblemático da modernidade.

De acordo com a professora e autora da obra, a abordagem das primeiras leis de políticas sociais voltadas aos idosos até recentes reformas do sistema geral de aposentadorias implantadas pelo novo governo liberal é um ganho notável à compreensão do mundo atual. Isso demonstra ao Brasil o caminho para um sistema de proteção social semelhante ao caso francês. “Este livro não aborda o processo de envelhecimento da população brasileira e tampouco suas (inter) relações com as novas tecnologias, ele fornece pistas de reflexão aos pesquisadores, planejadores e mediadores sociais tanto sobre a interface dos campos do envelhecimento da população e dos modos de vida das pessoas envelhecidas quanto sobre a “modernidade” e a difusão de tecnologias na vida cotidiana, inclusive no domínio dos serviços propostos para as pessoas de 60 anos e mais: campos de estudo bastante desenvolvidos na França e promissores no Brasil”, ressalta Clarice.

Para conhecer um pouco mais do livro, confira a entrevista com uma das autoras, Clarice Ehlers Peixoto, que explicará a escolha do local de estudo, como a tecnologia auxilia um idoso, a diferença entre idosos de um pequeno município francês e esta mesma geração brasileira, e a atuação das entidades do Terceiro Setor na França, especificamente no município estudado.

Setor 3 – Por que realizar a pesquisa no município de Verrières-Le-Buisson?
Clarice Peixoto – Vários fatores contribuíram para a escolha de um campo pertinente dessa pesquisa antropológica sobre envelhecimento e novas tecnologias no município de Verrières-Le-Buisson. Como iríamos analisar as interações, as coordenações e os ajustamentos no âmbito da rede sócio-técnica compostas pelas pessoas com mais idade, pelas novas tecnologias, pelos organismos mediadores e pelos profissionais e intermediários, era necessário encontrar um município que apresentasse essa configuração singular, embora complexa. Verrières fica a 13 km do centro de Paris e, segundo o censo de 1999, 15, 4% da população residente era constituída por pessoas de mais de 60 anos (proporção equivalente à média nacional, sendo que Paris apresenta taxa superior: 20% da sua população têm mais de 60 anos). Nesse sentido, este município apresentava uma unidade territorial e social, cujas características geopolíticas, demográficas e organização social permitiam um estudo de caso, evidenciando as configurações singulares dos contextos estrutural e funcional. Além disso, a população de mais de 60 anos representava uma importante unidade de integração espacial e territorial.

Setor 3- Após observação das pessoas mais velhas do município de Verrières-Le-Buisson, como a tecnologia ajuda um idoso?
Clarice – Quando a utilização de um objeto se generaliza para toda a sociedade ou para um determinado grupo social, torna-se impossível rejeitá-lo completamente pois ele se transforma em um produtor de hábitos e de valores se inscrevendo na cultura do grupo e, portanto, imprescindível. O discurso técnico não é de fato somente enunciativo, mas igualmente formado de referências as quais o indivíduo acaba cedendo para permanecer no interior do grupo a que pertence. Assim, a difusão de uma técnica não é inerente a uma necessidade natural e sim vinculada a uma exigência social. O uso de um objeto técnico depende, de fato, tanto da possibilidade de integração no modo de vida de cada um quanto da sua capacidade para o adotar. Isto nos leva a não mais pensar a relação das pessoas de mais idade com as novas tecnologias em termos de resistência ao objeto, mas de como elas adaptam os objetos às suas necessidades cotidianas.

Setor3- Qual a diferença que a senhora notou entre os idosos do município francês e idosos brasileiros?
Clarice – As diferenças não estão entre os dois povos, mas entre as políticas sociais voltadas para, neste caso específico, as pessoas de mais idade. Estes indivíduos não são nem mais nem menos resistentes às novas tecnologias; o que fazem é lançar mão somente daqueles objetos técnicos que têm utilidade no seu dia a dia.

Setor3 – Além do Estatuto do Idoso, como a senhora vê as políticas sociais voltadas para a terceira idade brasileira?
Clarice – O Estatuto do Idoso é uma das políticas sociais mais interessantes criadas no Brasil. O que falta é vontade política para implementar todas as suas propostas e mudar a qualidade de vida dos brasileiros de mais de 60 anos.

Setor3- Em Verrières-Le-Buisson, como atuam as entidades voltadas para pessoas da terceira idade?
Clarice – A grande participação das pessoas de mais de 60 anos no mundo associativo é indicador do próprio crescimento das associações (Ongs) na França. A partir dos anos 1980, o setor associativo cresceu muito e se estendeu para vários outros setores sócio-culturais, hoje são 700 000 das quais 2000 reconhecidas como de “utilidade pública”, sendo 800 fundações. Elas desempenham um papel importante nos campos em que o Estado e a Seguridade Social se mostram deficitários ou incapazes e são fundamentais no domínio das políticas sociais. São insubstituíveis na dinâmica social e na satisfação das necessidades, mas não podem substituir o sistema de proteção social implantado há décadas, na França. Assim, a política gerontológica do município de Verrières procura valorizar as relações entre gerações e os grupos sociais diferenciados e considera que a inserção das pessoas de mais idade na sociedade deve ser realizada, também, através da participação ativa na vida associativa.

Seguindo as diretrizes das políticas sociais nacionais para a velhice, a municipalidade procura manter as pessoas de idade o maior tempo possível em seus domicílios (evitando o asilamento) e, por isso, apóia as propostas associativas que promovam o vínculo social entre as gerações, os grupos sociais, ativos e inativos como forma de evitar o isolamento social e, conseqüentemente a decadência física e mental. Rapidamente, multiplicaram as associações com focos de intervenção diversos, permitindo aos jovens aposentados uma nova possibilidade de inserção social, através de atividades socialmente reconhecidas.

Serviço:
Envelhecimento, Políticas Sociais e Novas Tecnologias
Autores: Clarice Ehlers e Françoise Claravolle
Editora FGV
Preço sugerido pela Editora: R$21,00
140 páginas
www.editora.fgv.br


Crédito do texto: Susana Sarmiento
Data de publicação: 17/05/2015