Livro O que é uma cidade criativa?, de Elsa Vivant, contextualiza o surgimento desses espaços e as tendências mundiais

9063“(…) A cidade cultural se tornou um indicador da qualidade de vida de uma cidade, em particular na classificação das “cidades em que é bom viver” efetuada regularmente por revistas. Melhorar o ambiente no qual se vive (e divulga-lo) torna-se uma condição necessária para atrair empresas, em particular aquelas de alto valor agregado, cujos executivos necessitam de serviços culturais”, diz trecho do livro O que é uma cidade criativa?, de Elsa Vivant, pela Editora Senac São Paulo.

O livro procura debater a teoria sobre as cidades criativas, que vem ganhando cada vez mais espaços em discussões urbanísticas de todo mundo. A autora indica paradoxos e as limitações que permeiam as teorias sobre esse tema, questionando até a reversão da decadência econômica das cidades tradicionais, que depende somente da capacidade delas para atraírem e ampliarem mais a presença de cidadãos e espaços criativos, oferecendo, em contrapartida, ambientes sociais, culturais mais estimulantes, dinâmicos e abertas para diversidade.

A publicação possui seis partes, divididas em: Introdução – a cidade criativa, uma alternativa à cidade industrial?; cenas da criatividade artística; retrato do artista em gentrificar; a cidade, um território da economia criativa; projetar a cidade para todos e a conclusão – o paradoxo da cidade criativa.

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Segundo a autora, diversos fatores influenciaram para o surgimento de cidades criativas, como descentralização e a transição pós-industrial, aumento do desemprego, fuga da capital e da construção de vastos espaços vazios, nas antigas propriedades industriais, entre outros. Ela cita muito o pesquisador Richard Florida, que acredita que essas cidades apareceram com fatores vinculados ao desenvolvimento econômico. “Com efeito, ao escolher sua localização residencial, os trabalhadores “criativos” (executivos, engenheiros, designers, pesquisadores) privilegiam as qualidades de um espaço urbano que valorizem e favoreçam a criatividade, quais sejam: uma grande tolerância e uma atmosfera cool, descontraída e boêmia”, diz trecho do primeiro capítulo do livro.

Seguindo ainda a concepção de Richard Florida, os profissionais que compõem a classe criativa são formados por pessoas voltadas para resolver problemas complexos, inventar soluções novas, fora de uma lógica de uma produção rotineira e repetitiva. O especialista ainda indica dois grupos: um é composto por profissionais envolvidos no processo de criação, pagos para serem criativos, para criarem novas tecnologias, ou novas ideias, como cientistas, pesquisadores, engenheiros, artistas, arquitetos, entre outros. O outro grupo é voltado para aqueles que em geral são classificados nos serviços de alto nível e que merecem ser associados a essa classe criativa, por resolverem problemas complexos graças a um alto nível de qualificação e a uma importante capacidade de inovação, como juristas e advogados de negócios, financistas e investidores de fundos de cobertura de risco, médicos, maquiadores, técnicos de palco e outros. “Todos exercem uma atividade cujo principal valor agregado reside na criatividade.”

Para isso, também inclui indicadores em que mostra uma qualidade específica da cidade criativa: o talento (número de pessoas com ensino superior e mestrado completos); a tecnologia (número de diplomas técnicos); e a tolerância. Nesse item, a autora reforça que o pesquisadora Florida sugere ainda avaliar segundo três índices: o primeiro mede a diversidade, o segundo, o peso da comunidade homossexual dentro da população; o terceiro se refere à boêmia artística.

No terceiro capítulo, há um comentário sobre o trabalhador criativo, que é bem relacionada com um artista, inventivo, flexível, motivado, com salários incertos, concorrentes de seus pares, com uma trajetória profissional instável. Os trabalhos, nesses casos, em geral, acontecem por projeto, acarretando um recrutamento por contrato e temporário.

No último capítulo, Projetar as cidades para os criativos, aborda o exemplo da cidade de Bilbao, da Espanha, que lançou no começo dos anos 1990 um grande projeto urbano que visava recuperar vazios industriais e portuários para transformá-los em bairros urbanos, om a finalidade de atrair novas atividades econômicas. Desde o começo, os vereadores articularam uma reconquista urbana com um investimento importante na vida cultural, por meio de uma obra excepcional. A fundação Guggenheim foi procurada pela seguinte proposta: “em troca do pagamento de uma franquia (da ordem de 20 milhões de euros), a fundação se comprometeria a organizar exposições a partir de sua coleção e a fornecer expertise artística e de manutenção, com vista a explorar um museu cuja arquitetura seria escolhida pela fundação (o arquiteto foi Frank Gehry), e os custos de construção seriam assumidos pelas autoridades locais (cerca de 160 milhões de euros)”. Dessa forma, a cidade se tornou mais um destino turístico e recebe cerca de 700 mil visitantes por ano.

Na conclusão, o autor ressalta que a cidade criativa estimula para o processo de redescoberta das qualidades de cidade cosmopolita. “Ela convida o urbanista à modéstia e à humildade, pois a criatividade não se planeja nem se programa. Ela surge do imprevisto e do inesperado; ela nasce ali onde não se espera. Seja ela artística, tecnológica, científica ou urbana, a criatividade nasce do atrito entre alteridade e encontros imprevistos. A fábrica da cidade criativa se realiza na capacidade dos atores de aceitar e tornar possíveis iniciativas que os ultrapassem”, conclui a obra.

Serviço:

Título: O que é uma cidade criativa?
Autor: Elsa Vivant
Editora: Editora Senac São Paulo
Número de páginas: 96
Preço: R$ 39,90