Lideranças femininas defendem empoderamento para defenderem a preservação das águas

Mulheres brasileiras, da Nova Zelândia, de Myanmar, da Turquia, do Quênia e da Holanda defendem a questão de gênero na gestão de recursos hídricos.

Lideranças femininas defendem empoderamento para defenderem a preservação das águas
Crédito da imagem: Susana Sarmiento

Na manhã do quarto dia do 8º Fórum Mundial de Água lideranças femininas que atuam na gestão e defesa das águas em seus países se reuniram na sala 35 no Centro de Convenções Ulysses Guimarães em Brasília (DF). O objetivo central do encontro foi refletir sobre a questão das águas e gênero.

A professora e pesquisadora Rosana Garjuli, socióloga, comentou que houveram avanços e atualmente há 230 comitês de bacias hidrográficas de conselhos estaduais e nacional de recurso hídrico. Atua em regiões rurais no Estado do Ceará e observa os problemas de abastecimento. “Eu nunca vi um homem carregar lata na cabeça. Esse é uma tarefa de mulheres e crianças. O homem sempre está no jumento ou na carroça. Essa é uma situação presente. A presença das mulheres é bem significativa. Isso já não ocorre nos conselhos, porque tem um processo eleitoral. Em geral, os homens assumem os papeis”.

Outra situação complicada, segundo a pesquisadora, é dentro dos colegiados e instituições. Ela já atuou dentro de órgãos de recursos hídricos do Ceará e hoje é consultora. “Nós temos muitas técnicas nos Estados, principalmente em concursos públicos. Muitas mulheres entram no sistema, mas não para assumir cargos de decisões com técnicas e competências assumidas e com baixo nível de hierarquia. Em geral, elas passam por desafios internos e estão em várias funções bem significativas operacionais, porém pouca instância deliberativa. Essa perspectiva precisa ser melhor trabalhada”.

Lideranças femininas defendem empoderamento para defenderem a preservação das águas
Crédito da imagem: Susana Sarmiento

A professora doutora Khin Ni Ni Then, de Myanmar, fundadora da organização Water Mothers, listou os desafios um único slide e resumiu a atuação da organização em que atua: trabalham em bacias hidrográficas do país, contribuem nas consultas públicas e acompanham as ações do governo. “As mães da água são pontes e bem honestas. Nós não queremos nossos rios cortados. Quem faz parte da nossa rede são pessoas bem simples, com atuação comunitária, como vendedores de mercado, faxineiras e outros profissionais. Buscamos e tentamos ganhar a confiança, sendo críticos e honestos para ganhar a confiança do governo. Também não somos persuadidos facilmente. Somos antigoverno nem antibarragens. Mantemos o equilíbrio. Nossa democracia é bem nova e defendemos ela. Mantemos nosso engajamento regional”, esclareceu e ainda disse que as mulheres estão em maioria no país.

A doutora Christiane Dias, presidente da Agência Nacional das Águas (ANA) do Brasil, compartilhou uma experiência pessoa. É professora de Direito e um colega da universidade comentou certa vez que ela inspira algumas jovens. “Eu não me enxergava assim. Depois disso tenho observado. Quando cheguei na ANA, eu me deparei com um projeto que tive oportunidade de consertar um pouco e tem uma proposta normativa em que inclui na leia das águas a mulher como principal gestora delas”, contou. Desde esse episódio, ela comentou que está tentando entender seu papel como mulher na gestão de recursos hídricos. “Minha cabeça mudou e estou defendendo essa bandeira. Como presidenta da ANA, tenho essa responsabilidade”.

Lideranças femininas defendem empoderamento para defenderem a preservação das águas
Crédito da imagem: Susana Sarmiento

A representante da Nova Zelândia de uma organização de pesquisas indígenas TE Matahiapo Indigenous Research Organization, Inaaha Te Urutahi Wakerepuru, iniciou sua fala com uma música e em sua fala mística defendeu a água, a terra, a montanha e outros elementos da natureza. Ressaltou que as mulheres podem assumir o papel central cuidando da água como mães e avós para trazer sustentabilidade ao planeta. “Eu acredito que ao caminhar nos passos de nossos anciões, ando como um vaso de energia divina do reinado tangível e das partes mais elevadas. Estou escutando, cheirando, sentindo a conversar contigo em todos os níveis de trazer o bem estar da áagua para a humanidade e o planeta”. Ela ainda compartilhou que é mãe de cinco filhos e avó de 25 netos e está numa evolução consciente nesses anos. “Com água, eu sou um ser vivo”.

Debate

E como reconciliar os valores da água e atender a demanda do tempo? A representante da Nova Zelândia comentou que é fundamental estabelecer o equilíbrio para encontrar a paz e o amor dentro de nós e as conexões com a água. “Somos a água. Resgatar nosso conhecimento tradicional que veio por meio de nossos anciões dos antigos. Se ficamos quietos e silenciosos, vamos ouvir. Nossos corpos são feitos de água, temos que conectar com esse lado espiritual”, defendeu.

Asha Abdulrahm, representante do Soroptmist Internacional do Quênia, ressaltou a importância da educação para empoderar as jovens e mulheres. “Uma vez que você é educada, você faz o escalonamento e replica em outros locais. As mulheres precisam ser empoderadas e atingir as metas. Cada mulher é líder”.

Lideranças femininas defendem empoderamento para defenderem a preservação das águas
Crédito da imagem: Susana Sarmiento

Já a representante de Myanmar falou que o papel das mulhres na gestão das águas são como salvaguardas para participar e garantir a abordagem holística. “Quando juntamos os dados, conseguimos ver a questão de gênero. Myanmar e seu povo querem ser bem sucedido para cumprir sua promessa para a Agenda 2030, liderado por mulheres na sua base. Para isso, nós temos que sair de nossas tradições”.

Arzu Ozyol da Turquia e representante da BPWI, observou que algo mudou, mas não de grande porte dentro do ambiente de água. Sua pesquisa está bem focada nesse assunto, em que o governo deve promover ações de inclusão de gênero e meio ambiente. Ela sugeriu que as empresas públicas e privadas podem dar apoio nesse empoderamento das mulheres adotando os princípios delas e contribuindo com institutos de pesquisas na coleta de dados com a realidade de gênero e indicadores. Os governos também podem promover programas de capacitação e seminários informativos de forma democrática. “Isso é bem importante para democracia, primeiro caminho para mudar”.

A pesquisadora Rosana pontuou que os homens ainda decidem e fazem as intervenções nas bacias, cobrança do uso de água, por exemplo. Eles ainda estão em cargos altos em organismos deliberativos com responsabilidade. Segundo ela, seria importante reforçar esse olhar feminino dentro das estruturas de governo para possibilitar e ampliar o acesso e ver quais condições são necessárias para participar. As mulheres necessitam de suporte para garantir esses espaços. “Quando não tem rede de abastecimento, a mulher cuida disso. Não é cuidado isso dentro do ambiente institucional e privado”.

Acesse o site do evento: http://www.worldwaterforum8.org/

 

 

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