Liderança quilombola compartilha êxodo dos jovens

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“Hoje eu circulo entre os dois mundos: o do quilombo na zona rural, e na cidade para trabalhar e defender os direitos quilombolas por meio da associação”, afirmou Maurício, liderança da comunidade quilombola André Lopes no pátio do Patrimônio Integrado do quilombo André Lopes. Ele conversou e esclareceu dúvidas dos estudantes do curso de Agente Cultural do Senac Registro na tarde de sexta-feira dia 19 de maio.

Aos 46 anos, ele comentou que mora há muitos anos na região e explicou a origem desse povo, com ano de criação em 1830 e atualmente possui 71 famílias residentes. Um dos principais pontos turísticos é o Poço da Paca, bem conhecido pela produção de milho e das atividades de trilha. Com profundidade de aproximadamente três metros de profundidade, é uma das atrações de passeio na região. As visitas são agendadas e também são oferecidos junto com alimentação local e trilha.

Um dos principais problemas sociais é a saída dos jovens para as cidades, o êxodo rural. A produção das comunidades quilombolas da região é ainda muito destinada para trabalhos na roça. Ele defendeu muito a importância de educar os jovens para ficarem em suas cidades e até ajudar na criação de oportunidades para não precisarem saírem. “Trabalhar com turismo não é fácil, tem época que temos dinheiro, outro momento não. Por isso estamos mais próximos da escola para levar nossa realidade a essas crianças e jovens, queremos muito levar o sistema agrícola quilombola”, compartilhou.

Maurício dividiu momentos da infância com os estudantes. “Não tínhamos mochila, era um saco de arroz que usávamos para colocar os cadernos e os livros. O lápis gastava tudo. Nosso chinelo só vestíamos na porta da escola”, contou. Nos dias nublados, a liderança compartilhou que sua vó o convidava para preparar farinha de mandioca, mais conhecida como biju de gome, massa para preparar tapioca.

Sobre sua participação política em defesa dos direitos quilombolas, ele comentou que sua participação na associação se tornou mais ativa, após um episódio com um grande empresário da região que levantou informações dos territórios: “Passava e perguntava o nome dos moradores do bairro e anotava em seu caderno”, afirmou. Após 30 dias, sua família recebeu ordem de despejo. Uma advogada voluntária da igreja católica ajudou nesse processo e conseguiu defender o caso em 1997. A partir daí a atuação da associação trabalhou para defender os direitos quilombolas.

“Em 2001, eram 38 lideranças quilombolas que foram para São Paulo na época governada por Mário Covas. Neste ano ele reconheceu que são quilombolas e ajudou no processo de titularização. Esses povos locais receberam ajuda para conseguirem ir para a Secretaria da Justiça em São Paulo”.

Maurício ressaltou a importância de conscientizar as lideranças de outros povos quilombolas. “Por que para saíramos daqui vamos para onde?”, questionou o quilombola sobre a importância de ter grupos que defendam seus interesses.

Outro ponto polêmico foi a tentativa da construção de uma barragem grande da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA). Articulados nas associações e com apoio de outros grupos, foi barrada a construção dessa obra, por colocar muito em risco a vida de muitas pessoas que vivem nessa região.

Sabores do campo

Com o título Quilombo na Cozinha – Receitas Tradicionais Quilombolas, feito pela comunidade André Lopes do Vale Ribeira em São Paulo. Essa iniciativa foi criada em julho de 2014 com o contato com os moradores da comunidade André Lopes, no município de Eldorado, para registrar e publicar as receitas. O nome desse projeto foi Gastronomia Quilombola, em que possibilitou o compartilhamento, registro e difusão de práticas gastronômicas quilombolas tradicionais, financiado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria Estadual de Cultura em 2015.

Bolo de cará de espinho, bolinho de farinha de milho preto, café de milho, farinha de amendoim, sobremesa de mandioca, caponata de umbigo de banana, mexido de banana, carne de jaca verde e mexidinho de taioba são algumas das receitas que foram coletadas nos encontros de troca de saberes e prática culinária, realizados na comunidade de André Lopes, com a participação de cozinheiras e cozinheiros de outras comunidades quilombolas. O valor da publicação é de 25 reais.

 


Crédito do texto e fotos: Susana Sarmiento