Juca Kfouri debate corrupção no futebol com outros convidados na Conferência Ethos 360º

 

“Antes do 7 a 1, eu perguntava para os empresários se não tinham receio de patrocinar CBF. Eles me respondiam que patrocinavam a Seleção Brasileira, pentacampeã. Mas depois da derrota, isso soa desagradável”. A provocação, que faz referência à vitória da Alemanha contra o Brasil na última Copa do Mundo, é do jornalista Juca Kfouri, um dos integrantes da mesa Integridade e Transparência no Futebol Brasileiro da Conferência Ethos 360º, realizada nos dias 22 e 23 de setembro. Junto a ele estavam William Machado, ex-jogador e atual comentarista esportivo, e Ricardo Borges Martins, diretor executivo do movimento Bom Senso Futebol Clube.

Para Ricardo, o futebol no país é mais que um esporte, “é um dado cadastral”, uma vez faz parte da identidade de muitos brasileiros. Ele considera que aumentar essa percepção é necessário até mesmo para reconhecê-lo como um setor relevante para o PIB (Produto Interno Bruto). No entanto, todos os convidados concordam que existem diversas barreiras para isso acontecer – dentre elas, a corrupção. “Mentir é costume de quem trabalha perto da bancada CBF”, diz Juca.

Juca Kfouri debate corrupção no futebol com outros convidados na Conferência Ethos 360º

Ele cita uma alteração durante tramitação da Medida Provisória 671 (conhecida como MP do Futebol) que retirou o artigo responsável por transformar a seleção brasileira em patrimônio cultural. Segundo o jornalista, tal mudança teria sido realizada no Congresso Nacional pela chamada “bancada da bola” para evitar que a CBF fosse fiscalizada pelo Ministério Público.

O movimento Bom Senso foi um dos articuladores dessa MP, que foi sancionada em 5 de agosto pela presidenta Dilma Rousseff e deu origem ao Programa de Modernização do Futebol Brasileiro (Profut). Os clubes que aderirem a ele poderão ter suas dívidas refinanciadas em troca de gestões mais transparentes e restrições no planejamento financeiro.

“Eu, como ex-esportista ainda envolvido, vejo evoluções, mas com ressalvas”, diz William Machado, referindo-se aos problemas enfrentados pelas federações. Ele pontua a omissão muitas vezes por parte dos próprios atletas e cita a falta de apoio que o esporte tem de maneira geral no país, apesar de influenciar vidas. “Sempre ouvi que os jogadores não sabem a força que têm porque não se unem”, afirma.

Como consequência dos escândalos de corrupção e da falta de confiança que eles geram, Juca fala sobre a escolha de grandes empresas de não patrocinar equipes olímpicas: “Em vez disso, abrem seus próprios times”. Ricardo também considera o amadorismo e a falta de democratização na gestão dos times e da CBF como fator de peso que contribuem para esse cenário.

Surge da plateia uma pergunta a respeito da mídia ser conivente com a situação atual – uma questão especialmente provocativa, uma vez que Juca e William fazem parte de grandes veículos. Kfouri aceita o questionamento e concorda que “há cumplicidade entre meios de comunicação de massa que, quando compram um evento, tratam a organização como sócia e não como vendedora”, isto é, deixam de apontar defeitos da mesma. Para ele, também existe uma tendência da mídia nos últimos anos de tratar futebol somente como lazer, evitando falar de seus aspectos políticos.

Já William pontua que seu papel – e de outras pessoas interessadas em um futebol mais limpo – dentro dos meios hegemônicos é de manter seus valores: “as pessoas não deveriam perder seus princípios por causa de um CNPJ”. Além disso, acrescenta que a concorrência televisiva já estimulou melhor organização dos clubes no passado.

“Hoje o futebol no Brasil é business”, diz o ex-jogador. Segundo ele, de cada três mil crianças interessadas em seguir carreira na área, apenas uma assina contrato profissional e é preciso criar regras de governança para que elas e outros jovens já inseridos tenham mais perspectivas de futuro. “Pais tiram seus filhos da escola para se dedicarem somente ao esporte, mas as chances são muito pequenas”. Um agravante seria a falta de cuidado que os clubes têm com os atletas. Apesar de pagarem salários exorbitantes para alguns (originando dívidas às próprias administrações), pecam na contratação de psicólogos e de especialistas que auxiliem com orientação financeira, por exemplo.

“Vemos os torcedores invadirem centros de treinamento quando há derrotas, mas eles não se organizam para cutucar a estrutura”, comenta Juca. Para William, isso também passa pelas altas remunerações dos jogadores, pois geram indignação. “Dentro dos clubes a situação e a oposição manipulam essas pessoas por ingressos e acesso”, diz, lamentando a impunidade dos responsáveis e a dificuldade de interferir em associações.

Perto do fim do debate, Juca pontua: “a estrutura de poder do futebol é reacionária, corruptiva e corrupta, avessa às mudanças. Se roubassem e ainda fossem competentes eu ouviria que pelo menos ganham. Não é possível deixar que isso aconteça com uma coisa tão apaixonante”. Alinhado a esse pensamento também está Ricardo. Uma das ações que o Bom Senso apoia é a criação do Plano Nacional de Desenvolvimento do Futebol, projeto sem grandes detalhes divulgados ainda. “Queremos traçar metas no mesmo estilo dos Objetivos do Milênio, da ONU. Vamos precisar de ajuda da sociedade civil e de empresas”, diz ele.

O evento

Nos dias 22 e 23 de setembro, a Conferência Ethos 360° reuniu diferentes especialistas da área de responsabilidade social, de empreendedorismo e de negócios inovadores e sustentáveis. Com um formato diferenciado, todos os debates dividiram um amplo espaço sem paredes. Os participantes tinham que usar fone de ouvido e sintonizar na palestra de seu interesse. Os temas abordados nos debates foram: integridade, combate à corrupção, progresso social, desenvolvimento, diversidade, liderança, conservação do meio ambiente, juventudade, gênero, ações colaborativas, big data, inovação, captação de recursos, resíduos sólidos, entre outros. Confira aqui: http://www.ce2015.org


Texto: Natália Freitas

Data original de publicação: 29/09/2015