Jovens quilombolas trocam experiências com alunos do Senac Registro

0
278

Olhos curiosos, timidez e vontade de conhecer uma das culturas da região do Vale do Ribeira. O encontro foi no espaço central da Escola Estadual Maria Antonia Chules Princesa, localizada na comunidade André Lopes, na zona rural da cidade de Eldorado (SP), criada em 2005. Os estudantes da manhã, a partir do sexto ano, até terceiro ano do ensino médio sentaram para conversar com os convidados do dia: alunos do curso Agente Cultural oferecido pelo Senac Registro. O espaço é a primeira escola estadual construída em um quilombo no Estado de São Paulo, inaugurada em 2005. Após 10 anos, ficou como finalista em processo afirmativo em educação escolar quilombola do Prêmio CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) na categoria professor, com Luiz Marcos de França Dias, e também no segmento escola.

No início Maria Rozeane dos Santos Silva, docente da área de desenvolvimento social do Senac Registro, e Ana Léa Martins Lobo, assistente social e professora da turma do Senac Registro explicaram o que é um curso livre, podem participar pessoas interessadas pelo tema a partir de 16 anos não precisam ter concluído o ensino médio, aprendem a entender melhor a área de cultura, principais conceitos envolvidos e elaboração de projetos. Esta atividade de ida para as comunidades quilombolas fazia parte do cronograma de atividades dele, já que ninguém dessa turma conhecia nem tinham visitado quilombos.

Crédito da imagem: Gabriela Lira Bertolo

A proposta do encontro era apresentar as crianças e adolescentes da escola aos alunos do Agente Cultural e esclarecerem dúvidas sobre essa formação, que pode ser uma oportunidade de mercado para a região. “A comunidade que vocês moram é uma fonte de trabalho”, ressaltou a diretoria Josemira Solposto, conhecida como Jô. Os alunos do Senac Registro junto com os funcionários sentaram na mesa da frente, se apresentaram cada um e falaram o motivo de sua escolha.

Ivo Santos Rosa, monitor ambiental e guia do grupo de alunos do Senac Registro, é do quilombo Sapatu e comentou a importância deste encontro: “Essa troca para nós é muito importante, ainda falta o incentivo que as pessoas conheçam mais a nossa cultura. Os livros de história aprendem apenas da escravidão até os quilombos, depois não se fala mais sobre esses povos. Não falam sobre a situação precária que vivem as comunidades remanescentes de quilombos”, alertou.

A diretora comentou que esse encontro pretende valorizar a cultura do quilombo na região. “A nossa ideia é formar vocês aqui na escola para se empoderarem, darem palestras amanhã e se tornarem pessoas ativas na sociedade. Atualmente a escola atende sete comunidades quilombolas” – São Pedro, Galvão, Ivaporunduva, André Lopes, Sapatú, Ostra e Nhunguara. Ela ainda compartilhou que sua equipe se reúne para construção de um currículo escolar que valorize a cultura quilombola.

Crédito da arte: Gabriela Lira Bertolo

Jovelino de França Marinho, 16 anos, estudante do terceiro ano, e Gislene Forquini da Motta, 17 anos, estudante do segundo ano do ensino médio, compartilharam suas experiências como agentes ambientais comunitários, que levam grupos de turistas (seja estudantes de colégio privado, quanto universitários) para conhecer a alimentação típica, com oficina de cozinha, mostrar como são produzidos os alimentos, como são retirados para preparar nas refeições. Todos os alimentos são orgânicos. Também fazem trilhas com os visitantes na Ilha do Ouro, caminho conhecido por ter sido percorrido pelos escravo quando retiravam o ouro do local. Além disso, incluem oficina de artesanato quilombola. “Em uma comunidade, apresentamos vários produtos, como bolsas, tapetes, descanso de panelas e até porta-jóias confeccionados com a fibra da banana. Também fazem com a casca de árvore velha. Tem época certa para fazer o corte – março, abril e maio – depois é época de procriação, de maio até fevereiro. Também são apresentadas as casas de pau a pique.

Um dos alunos do Senac Registro esclareceu dúvida onde estava hospital mais próximo e como era o atendimento da área da saúde a eles. Jovelino respondeu que o hospital mais próximo está a 45 km dali e de 15 em 15 dias as famílias quilombolas recebem visita de um médico comunitário.

Os estudantes da escola possuem um grupo de dança, eles ensaiam os ritmos: pérola negra, capoeira, maculêlê e raça negra (uma mistura de vários movimentos afros). No próximo dia 03 de junho, farão uma apresentação na cidade de Sete Barras. A dança é uma das ações do grêmio da escola.

Há ainda alunos que participam de um projeto que alfabetiza pessoas da terceira idade que não sabem ler nem escrever. Essa iniciativa ocorre em parceria com SENAI, com duração de oito meses.

O monitor ambiental Ivo ressaltou que a escola é uma conquista dos movimentos quilombolas. “Foi uma luta dos povos quilombolas da região para termos uma escola aqui, mais próxima das nossas casas e que valorize nossa cultura quilombola”, ressaltou.

Um dos jovens do Senac Registro perguntou a situação das mulheres quilombolas, se são donas de casa ou exercem outros tipos de atividade remuneradas. A estudante Yasmin, do terceiro ano do ensino médio, respondeu que não é bem assim: “As mulheres das nossas comunidades são bem batalhadoras e muitas vão para o Eldorado para irem estudar e trabalhar. São ainda desvalorizadas, fortes e bonitas. Uma das mulheres que nos inspira é Marilda (uma das lideranças das comunidades da região do Vale do Ribeira). Também vemos que as meninas estudam mais, correm mais atrás de oportunidades. Este ano aqui na escola estamos desenvolvendo um projeto de cabelereiro afro para valorizar nossa cultura”, contou.

Crédito da arte: Gabriela Lira Bertolo

A estudante Vaniely, do segundo ano do ensino médio, do quilombo São Pedro, falou sobre a atividade de capoeira, jongo, poesia, samba de roda, dança de coco e teatro. Contou ainda que estão num processo de formação desse grupo de participação ativa lá no quilombo. A comunidade organiza uma festa que atrai milhares de pessoas, neste ano está programada para ser 1º de julho.

O professor de inglês e português é uma liderança quilombola e comentou que uma das principais problemáticas das comunidades é a relação com os órgãos ambientais. “Se pegarmos um mapa de localização de comunidades tradicionais e sobrepusermos num mapa da Mata Atlântica remanescente constataremos que as áreas preservadas estão dentro dessas comunidades”. Essa localização com rica diversidade de fauna e flora atrai especulação imobiliária, conflitos rurais e uma política ambiental que impacta as comunidades. “Nosso modo de plantar e colher é secular e não agride o maio ambiente. Por isso, temos ainda toda essa mata preservada”. E ele ainda comentou que é necessário para a comunidade o reconhecimento do território por parte do governo para terem políticas públicas. ” O título da posse, assim como o próprio território, é coletivo e expedido em nome da associação de cada comunidade. Ela é responsável pela gestão. Em geral, os quilombolas são autônomos. Eles vendem o que conseguem produzir, plantar e confeccionar. No entanto, falta incentivos para diversas áreas. Nos últimos anos, por exemplo, apenas 10% dos nossos alunos egressos do ensino médio conseguiram ingressar na universidade”.

Os irmãos gêmeos Augusto e Gustavo Dimg e Guilherme Souza, do curso do Senac Registro, perguntaram sobre atividades culturais da escola. Adrielly, da comunidade de Sapatú e estudante da escola, falou sobre o sarau que ocorreu sempre para comemorar o dia 20 de novembro – Dia da Consciência Negra. Sempre ocorre saraus, com danças poesias e outros tipos de manifestações culturais.

Crédito da arte: Gabriela Lira Bertolo

Mediadora quilombola

Alexandra Marinho da Silva é pedagoga e coordena o grêmio da escola. Também auxilia em todos os projetos da escola e media conflitos entre os alunos. Desde pequena valorizou os estudos e hoje vê que existem muitas facilidades para as crianças e adolescentes frequentarem a escola. “O conhecimento ninguém tira da gente”, defendeu e ainda se recordou antes nas escolas muitos professores eram substitutos, às vezes ficavam uma semana sem aula, agora não. Os estudantes têm professor, apoio. A professora ainda comentou que os que vivem mais longe demoram uma hora mais chegar na escola de transporte público.

A mediadora defendeu que é muito importante ter uma escola que valorize a cultura quilombola. “Quando meus pais eram novos, eles estudavam até quinta série e desistiam. Era muito preconceito”. Lembrou que quando era pequena saia da escola cinco da tarde e às vezes chegava umas 23 horas ou até meia noite. “Agora tem todo o conforto, o ônibus passa na frente de casa. Temos até merenda com alimentos da região”.

Alexandra falou ainda que há muitos benefícios por terem um currículo valorizando a cultura quilombola para conhecerem ainda muitos itens do dia a dia, da comida e outros aspectos. “É bom eles se sentirem valorizados para terem liberdade para falar da cultura deles. O que percebemos é que os professores estão mais atuantes. Também temos uma lei que defende essa prática, porque antes existiam professores que se negavam a abordar temas da cultura afro”, pontuou.

Crédito da arte: Gabriela Lira Bertolo

Crédito da reportagem e das fotos: Susana Sarmiento
Crédito das artes: Gabriela Lira Bertolo
Data de última alteração: 19/06/2017