Jornalistas publicam livro sobre jovens preocupados com a transformação social

Colorido, acessível e com histórias envolventes. Assim é o livro Galera em Movimento ? Uma turma que agita a transformação do Brasil, de Daniele Próspero e Laura Giannecchini. Em 2005, quando o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completou 15 anos, as jornalistas tiveram a ideia de reunir histórias de crianças, adolescentes e jovens que conheceram durante o desenvolvimento de reportagens. São 11 personagens paulistas atuantes no movimento para a transformação social.

Laura e Daniele trabalharam no Setor3 de 2002 a 2006, além de contribuírem para outros veículos jornalísticos da área social. Há mais de dois anos, pesquisaram personagens em movimentos, organizações e outras instituições para debaterem diversas temáticas, como a questão agrária, a participação política, a proteção ao meio ambiente, questões de gênero, dentre outros.

Além das histórias de vida, a publicação oferece explicações sobre políticas públicas relacionadas a este público, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), histórias de vários movimentos sociais (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Hip Hop, movimento estudantil, por exemplo), organizações sociais e outros. O leitor recebe dicas de sites e outras informações sobre os temas abordados.

O Galera em Movimento foi patrocinado pela Comgás, através da Lei Rouanet, e teve suas ilustrações e fotos produzidas por voluntários. A edição ficou a cargo de Paulo Lima, jornalista e idealizador do Projeto/Revista Viração. “O livro está dentro da área de atuação do PAC (Programa Aprendiz Comgás). Tem tudo a ver. Em nossas oficinas, falamos ao jovem sobre políticas públicas voltadas para ele, quebrando o paradigma de que ele não tem interesse no debate sobre melhorias para toda a sociedade. Além disso, nos preocupamos com esse público e oferecemos capacitação não apenas para seu ingresso no mercado de trabalho, mas para seu desenvolvimento”, afirma Maria Gisela Gertto, coordenadora geral do PAC.

Confira a entrevista com as autoras e entenda o processo de elaboração da obra.

Setor3 – Quando surgiu a idéia do livro? Por que jovens, adolescentes e crianças como protagonistas?

Daniele e Laura – Em nossas andanças pela cidade de São Paulo e também fora dela, em busca de personagens para nossas matérias no Setor3 e em outros veículos da área social, nos deparávamos diariamente com histórias marcantes de pessoas em suas comunidades, mas eles eram anônimos. No entanto, achávamos que eles mereciam ter suas histórias contadas.

Em 2005, em função da comemoração aos 15 anos do ECA, pensamos então: por que não mostrar a todos a história dessas crianças e adolescentes que têm uma atuação ativa e marcante nos movimentos sociais e que, dificilmente, acabam sendo ouvidas? Decidimos, então, começar a produzir o livro, mas não como mais uma publicação voltada aos profissionais que atuam com esse público, e sim para e com esse público tão especial e que merece ser ouvido.

Setor3 – Quais os critérios utilizados para mapear os entrevistados?

Daniele e Laura – A partir do momento em que a idéia do livro foi realmente desenhada, passamos a fazer um grande trabalho de pesquisa. Fizemos inicialmente um mapeamento das organizações que trabalhavam com esse público ou que tinham uma atuação junto a algum movimento social que pretendíamos abordar no livro.

O caminho para chegar a esses personagens finais não foi fácil. Pedimos para representantes das organizações que indicassem crianças e adolescentes que tivessem uma atuação ativa dentro do movimento, que se destacassem frente aos demais por suas idéias e atitudes, que tivessem uma história marcante, recheada de determinação e que realmente conhecessem os ideais e lutas do movimento do qual ele/ela fizesse parte. Foram centenas de telefonemas, novas listagens de pessoas e organizações até chegarmos aos 11 personagens.

Setor3 – Quanto tempo demorou no desenvolvimento de todo o projeto? E quais foram as principais dificuldades?

Daniele e Laura – O trabalho teve início no mês de abril de 2005 e foi finalizado em novembro de 2007. Iniciamos o mapeamento e já demos início às entrevistas. No meio do processo, contatamos o jornalista amigo da criança, Paulo Lima, também editor do Projeto/Revista Viração. Ele nos ajudou a definir os 11 personagens e a encontrar ilustradores e fotógrafos, que colaboraram voluntariamente com o projeto. Para tornar o livro visualmente agradável, contamos com a colaboração de Paulo Assis Barbosa, que diagramou a publicação como se fosse um conjunto de diários dos personagens. Além das dificuldades de conciliar as atividades de trabalho e estudo cotidianas com o tempo escasso de dedicação ao livro, um dos principais desafios foi conseguir o patrocínio para que a idéia, de fato, saísse do papel. Entre o pedido de aprovação pela Lei Rouanet e a impressão, bancada pela Comgás, passou um ano.

Setor3 – De que forma a participação esses jovens influencia no movimento de transformação social e luta pelos direitos dos jovens? A sociedade considera o jovem como um agente de cidadania?

Daniele e Laura- Essa visão carregada de estereótipos que associam a juventude à rebeldia e à contestação passa a dar lugar a uma sociedade que começa a ver o jovem como agente responsável por transformações sociais. Muitos especialistas e estudiosos já apontam que o poder do jovem está justamente na capacidade de potencializar sua condição transitória. Acreditamos que eles começaram a marcar sua presença nos movimentos sociais populares, com a proposta de utilizar sua capacidade de mobilização para fazer sua voz ser ouvida e exercer a sua cidadania. Com isso, conseguem, sim, influenciar e trazer novas propostas de discussão e de atuação para dentro dos movimentos. A sociedade, aos poucos, passa a entender esse público como sujeito, não como ser passivo.

Os próprios jovens já apontam a vontade de fazer isso ativamente. A pesquisa “O Perfil da Juventude Brasileira”, lançada em 2004, apontou que eles vêem a solidariedade como valor, a preferência pela ação direta como modo de ação e um desejo de mudança, com uma aposta na capacidade de mobilização da sociedade civil. Segundo a pesquisa, 57% dos jovens dizem acreditar que podem mudar muito o mundo e 24% que podem mudá-lo um pouco. Entre as mudanças priorizadas por eles estão: acabar com a violência (40%), abolir com a miséria, pobreza e fome (30%), mudar as condições de trabalho ou emprego (30%) e reduzir a desigualdade social (9%). Ou seja, mudanças sociais são prioritárias.

Setor3 – Como vocês avaliam as políticas públicas para esse público?

Daniele e Laura – Podemos pensar em crianças e jovens como públicos com demandas e especificidades diferentes. Se pensarmos nas crianças e adolescentes, o ECA é um avanço enorme. Isso pode ser observado, por exemplo, na questão da educação, em que a responsabilidade compartilhada (entre poder público, sociedade civil e família) em relação à garantia dos direitos, prevista no Estatuto, está sendo posta em prática. Em 2007, o governo federal, pressionado pela sociedade civil organizada, aprovou o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), que pode trazer benefícios significativos para a Educação Infantil. Os empresários também têm direcionado cada vez mais investimentos sociais para essa área. No entanto, em áreas como a aplicação das medidas socioeducativas, o ECA está longe de conseguir produzir melhorias.

Com relação à juventude, não se pode negar que ações vêm sendo desenvolvidas: o Conselho Nacional de Juventude, que está em fase de votação e de escolha de novos representantes, e a preparação para a Conferência Nacional de Juventude, que ocorrerá em abril de 2008, devem ser destacados. O processo de construção de conferências livres preparatórias para esse evento permite que os jovens discutam sobre temas importantes para a garantia de seus direitos. Há, portanto, um movimento interessante da sociedade voltado para esse público, mas é preciso ainda uma mobilização maior, inclusive dos próprios movimentos que atuam junto aos jovens, para que de fato as coisas aconteçam.

Setor3 – Como foi a escolha de temas?

Daniele e Laura – Procuramos movimentos sociais representativos e que conseguiam mobilizar o maior número de pessoas no país. Tentamos levantar personagens de todas essas áreas, mas infelizmente, não conseguimos localizar crianças e adolescentes paulistas, que fossem ativos em alguns movimentos como o indígena, o quilombola ou o de defesa dos direitos da pessoa com deficiência. Por isso, importantes instâncias de mobilização ficaram de fora.

Setor3 – Além das escolas, em que outros locais a publicação será distribuída?

Daniele e Laura – O livro será distribuído também para organizações não-governamentais que trabalham com a temática infanto-juvenil e os movimentos sociais. Também estará disponível para download na internet.

Serviço:

O Galera em Movimento ? Uma turma que agita a transformação do Brasil está sendo distribuído para escolas estaduais paulistas. Confira a publicação na íntegra: www.revistaviracao.com.br/galeraemmovimento

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