Investimento Social Privado: um caminho de coparticipação

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Sóstenes Brasileiro, diretor geral da Fundação Gol de Letra

Frente aos desafios econômicos e sociais que o Brasil tem que enfrentar, engajar a sociedade e estimular as empresas a atuar de forma responsável tornam-se cada vez mais necessários para a identidade de uma organização social que tem como bandeiras a educação integral e a justiça social. A reversão do quadro da educação no país é assunto sério e urgente, necessita de esforços do poder público, das empresas e das organizações da sociedade civil.

Considerando que o terceiro setor no Brasil ainda é muito fragmentado, compartilhar práticas e metodologias testadas e aprovadas pode contribuir para que o investimento social privado seja mais assertivo, especialmente em cenários de política e economia instáveis. A Fundação Gol de Letra, prevendo que a necessidade de cultura colaborativa seria cada vez mais forte no enfrentamento desses desafios, criou em 2009 a área de disseminação de tecnologias sociais, com a missão de desenvolver projetos com empresas interessadas em construir iniciativas pensadas dentro de sua área de responsabilidade social.

Essa forma de atuação permite transferir nossa experiência para outras instituições (organizações locais parceiras interessadas em colocar o projeto em prática) e comunidades no Brasil e até mesmo fora do país, difundindo projetos em que o esporte é utilizado como ferramenta de inserção e desenvolvimento social, e estruturando programas em lugares com alto índice de vulnerabilidade. São locais pra quem podemos oferecer um trabalho voltado para o fortalecimento e mobilização comunitária, desenvolvimento de habilidades comportamentais, respeito, diversidade e equidade de gênero, cultura e letramento, utilizando o Esporte Educacional e de Participação como propulsor.

Todo projeto é idealizado junto às empresas ou parceiros do poder público e tem como ponto de partida os princípios educacionais da metodologia Gol de Letra: aprender, conviver e multiplicar. As iniciativas também pressupõem o envolvimento da família dos participantes e da comunidade. O grau de engajamento da organização que executa o projeto é essencial para se alcançar os melhores resultados.

Um exemplo emblemático de como funciona esse trabalho é o projeto Ginga Social, que desenvolvemos com a adidas desde 2012. O projeto oferece modalidades coletivas e individuais de esporte e lazer para crianças e adolescentes de 7 a 17 anos, atingiu cinco capitais brasileiras – São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Brasília – e segue até 2017, contribuindo inclusive na melhoria e revitalização de espaços e equipamentos sociais das comunidades impactadas, com a finalidade de incentivar a prática esportiva nessas regiões.

Gol de Letra e adidas atuaram conjuntamente no desenvolvimento de todos os projetos implementados, desde a escolha das organizações locais, até a formação e capacitação da equipe de educadores e coordenação, tutoria e monitoramento das atividades. Os relatórios de avaliação mostram o impacto real dos projetos realizados, não somente em números, mas principalmente nos depoimentos dos participantes sobre as transformações em suas vidas e nas comunidades.

Esta é uma experiência que desejamos ver replicada com empresas de outros setores e regiões. A Gol de Letra defende a necessidade de cocriação e compartilhamento de práticas sociais que ajudem a mitigar os efeitos duradouros a que estão submetidas as periferias das grandes e médias cidades brasileiras. A transferência de tecnologia social para o investimento social privado prepara e fortalece o campo para que a sociedade brasileira se movimente em direção a soluções que independam do investimento público, tão aguardado quanto raro. O recém lançado livro “Esporte em Comunidades”* descreve nossa trajetória na busca por esse caminho de parcerias, a fim de compartilhá-lo e multiplicá-lo em projetos que contribuam decisivamente para a transformação da sociedade desigual em que vivemos.

Hoje, comemoramos a capacitação de mais de 340 profissionais e atendimentos de mais de 10 mil crianças e jovens em programas de disseminação.

Sóstenes Brasileiro, diretor geral da Fundação Gol de Letra


Texto: Sóstenes Brasileiro, diretor geral da Fundação Gol de Letra
Imagem: Divulgação
Data original da publicação: 26/08/2016