Integrante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura fala sobre acordo climático da COP 21, em Paris

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Miriam participou dos eventos paralelos da COP 21

No mês passado, representantes de 195 países se reuniram para firmarem um acordo climático e debaterem temas relacionados com essa área na 21ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), em Paris (França). O documento ficou conhecido como o Acordo de Paris que entrará em vigor em 2020 e prevê limitar o crescimento de emissão de gases de efeito estufa a 1,5º C e criação de um fundo global de U$S 100 bilhões, financiada por países ricos para contribuir com ações destinadas a limitar o aquecimento global.

Miriam Prochnow, secretária executiva do Diálogo Florestal e conselheira da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), conversou com o Setor3 sobre sua participação nos eventos paralelos a COP21, o acordo final, desafios atuais ambientais e investimentos nessa área. A especialista em meio ambiente possui 30 anos experiência em coordenação de organizações da sociedade civil, execução de projetos de conservação e uso sustentável dos recursos naturais, campanhas, desenvolvimento institucionais e produção de materiais e publicações.

Portal Setor3 – Como foi sua participação na COP 21? Em quais debates conseguiu participar? Quando e como foi sua entrada na Coalizão? E de que forma se dá sua atuação neste grupo?

Miriam Prochnow – Fui convidada a participar da Coalizão por conta do trabalho que desenvolvo junto ao Diálogo Florestal, uma iniciativa que já conta com 10 anos de atuação e que reúne empresas do setor florestal e organizações ambientalistas, com o objetivo de discutir temas em comum. É uma iniciativa inédita porque junta setores que historicamente tinham conflito e que resolveram dar uma oportunidade para o encaminhamento de soluções conjuntas para problemas. Temos como critérios para nosso diálogo: transparência, não-exclusão, responsabilidade, compromisso, confiança, entre outros. O Diálogo mostrou, que com boa vontade e interesse em caminhar para frente, é possível conseguirmos vários acordos. A Coalizão é uma espécie de diálogo ampliado, uma vez que a diversidade de atores é muito maior. Na COP 21, eu fiquei uma semana e participei de eventos paralelos organizados por órgãos internacionais e organizações da sociedade civil. Não participei das negociações. Participei de eventos relacionados à preservação e restauração florestal, porque são temas que lido no dia-a-dia, junto à Apremavi, que trabalha com conservação e preservação da Mata Atlântica. Plantamos árvores para contribuir com restauração de ambientes, como nascentes e beira de rios. Isso tem um link direto com a questão do clima, porque é uma das ações mais importantes para compensar a emissão de gás carbônico.

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A pedagoga andou na bicicleta que carrega celulares

Portal Setor3 – Qual tema ficou bem pertinente nos debates?

MP – Três assuntos ficaram bem claros: a necessidade do controle do desmatamento, seja de áreas com florestas ou outro tipo de vegetação; a restauração de florestas e de paisagens – este último é pouco diferente, porque envolve restauração de ambientes para agricultura de baixo carbono e recarga de aquíferos (recuperação de ambientes, abastecimento de cidades, por exemplo); e, finalmente, a urgência na implantação de energias alternativas e limpas. A necessidade de abandonar o uso de combustíveis fósseis, para combater as mudanças climáticas e o aquecimento global, foi muito discutida.

Portal Setor3 – E quais temas ficaram de fora e precisavam ter tido mais atenção?

MP – Acredito que houve uma pincelada sobre como fazer tudo isso. De forma geral, todos concordaram com uma plataforma mínima do que fazer, mas o como ainda é um gargalo. A COP deu um passo fundamental que todos assinassem o acordo, como colocar o acordo de pé em cada país e articular os vários setores, como conseguir recursos internamente e os governos terem políticas públicas para conseguirem relacionar com as mudanças climáticas.

Portal Setor3 – Como você avalia o acordo aprovado com fundo de U$S 100 bilhões para limitar aquecimento global a 1,5º C?

MP – É fundamental. O fundo é um bom começo, mas também precisamos de soluções locais e, por isso, buscar recursos nos Estados, municípios e fundos nacionais. Não depender apenas dos internacionais. Aqui no Brasil isso precisa ocorrer mais seriamente. A Coalizão é um bom exemplo e queremos que ações concretas sejam efetivadas. A sociedade também precisa estar envolvida e assumir isso com responsabilidade. O Fundo Amazônia, por exemplo, foi um dos que recebeu aporte novo durante as negociações da COP, temos ainda o Fundo Nacional da Biodiversidade, iniciativas de editais do BNDES, da Petrobras e de outras fundações como a do Boticário. Há ainda um fundo que não foi implementado, que é o Fundo da Mata Atlântica. Ele está previsto na Lei da Mata Atlântica, promulgada em 2006, e ainda não foi implementado. Os fundos são fundamentais para financiar ações de proteção de florestas e para estimular o pagamento de serviços ambientais, que atua como uma ferramenta importante para incentivar as atividades de produtores rurais nesse conjunto necessário para o combate às mudanças climáticas.

Portal Setor3- Como você observou a discussão dos indicadores dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) no acordo climático geral?

MP – Trabalhar pela mitigação ao combate das mudanças climáticas tem relação direta com as ODS, combate à fome, desigualdades sociais, produção de alimentos e outros temas. Muitos ainda não conseguem fazer esse link. Há regiões que tinham um clima propício para a produção de alimentos e não possuem mais. Então, outra questão é de adaptação e como manter as condições ambientais para a produção de alimentos e isso envolve restauração de áreas de preservação permanentes, conservação de águas e alimentos. Existe um ditado que diz: “o alimento cresce onde a brota a água”, ou seja, você não tem produção de alimentos, se não tiver água e para ter água, precisa ter floresta. Os indicadores e metas dos ODS tem relação com outros temas climáticos como acesso à energia limpa, estímulo a fontes alternativas, consumo responsável, entre outros. Talvez seja interessante um guia para relacionar todos esses temas. O objetivo 17 é sobre parcerias em prol das metas e é o que a Coalizão tem feito. Creio que vamos precisar de várias coalizões, uma só não vai dar conta para fazer tudo isso.

Portal Setor3 – Como você avalia que esse acordo comece a tramitar a partir de 2020? Você acredita que os países estão e irão aumentar seus investimentos em tecnologias limpas e reduzir o desmatamento? E o Brasil como você observa?

MP – Não dá para esperar 2020. Felizmente tem muita coisa acontecendo e precisa ter esperança. Essa onda positiva de bons exemplos pode realmente fazer esse grande tsunami de projetos climáticos que precisam acontecer, independente do acordo assinado. É preciso acreditar e fazer com que isso ocorra. O acordo de país é como se fosse uma legislação. O fato dela (legislação) existir é fundamental porque ela fortalece as ações que precisam ser realizadas. A Coalizão tinha uma agenda forte vinculada à COP21, mas tem também uma agenda detalhada com propostas internas. Há um documento com 17 propostas a serem implementadas a partir de agora, que envolvem diversos temas. Temos grupos de trabalho que se dedicarão no detalhamento dessas propostas e em ações de como conversar com outros setores e como influenciar políticas públicas.


Serviço:

Site do Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura: http://www.coalizaobr.com.br/
Site da COP 21: http://www.cop21paris.org/


Imagem: Arquivo Pessoal

Data original da publicação: 07/01/2016