Instituto resgata a experiência da cultura popular brasileira e promove a formação de brincantes

11267     Sem o glamour das grandes produções teatrais, com figurinos simples e cenários reaproveitáveis, em 1992 os artistas Antonio Nóbrega e Rosane Almeida estreavam o espetáculo Brincante, durante o 1º Festival de Teatro de Curitiba. A narrativa, baseada nos romanceiros populares nordestinos, contava a saga do personagem Tonheta, um tipo clássico de herói picaresco do Brasil. Após estrear na capital paranaense, a história do artista ambulante não teve a mesma receptividade em São Paulo. Sem teatro para receber a apresentação, a solução encontrada pelo casal foi montar o seu próprio palco. Assim nascia o Instituto Brincante, um espaço voltado para a cultura popular brasileira.

Durante algumas andanças e passagens pelas ruas da Vila Madalena, tradicional bairro da zona oeste, a placa de “Aluga-se”, pendurada na fachada de uma antiga fábrica de lustres, saltou aos olhos da dupla. O espaço abandonado e o cenário de ruínas era a combinação perfeita para a história do espetáculo.

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Rosane Almeida se formou em arte circense, dança, teatro e música

Sem dinheiro para arcar com as despesas de um aluguel e uma reforma, Nóbrega e Rosane fizeram uma proposta ousada ao proprietário do imóvel. “Seu César, queremos transformar isso aqui em um teatro, só que precisamos de um tempo sem pagar o aluguel”, relembrou a atriz e bailarina Rosane Almeida. “Ele concordou. A única coisa que não falamos para ele é que a equipe que tínhamos para construir o teatro era eu, o Nóbrega, meu menino de cinco anos e minha filha de três”.

Com três meses de trabalho e uma bela limpeza, o espaço abria as portas para o sua primeira apresentação. E não demorou muito para que, ainda em 1992, o espetáculo Brincante caísse nas graças da crítica especializada. “Este Brincante- um pouco prejudicado, aliás, pela falta de eco da plateia semi-vazia-, é engraçado e comovente como a melhor literatura de cordel”, destacava a reportagem de Alvaro Machado, publicada no Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo. “Não tem os apelos das grandes produções. Talvez por essa razão a maioria do público ainda não descobriu o espetáculo- uma das melhores atrações teatrais do momento”, indicava o texto de Ana Francisca Ponzio, no Caderno 2 do Estado de São Paulo.

Uma escola diferente

“Durante muito tempo, esse espaço era quase uma extensão doméstica da nossa casa”, pontuou Rosane Almeida. Além de abrir as portas para apresentações artísticas, a antiga fábrica de lustres da Vila Madalena começou a promover o ensino e a formação de brincantes- nome dado aos artistas populares nordestinos, dedicados aos folguedos tradicionais.

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O Instituto Brincante é um espaço voltado para a cultura popular brasileira

Nas paredes do local, porta-retratos com fotografias e recortes antigos de jornais ilustram quase duas décadas de histórias do Instituto. “Sempre conseguimos fazer tudo o que a gente quis aqui dentro. Nunca foi pior. Cada ano foi melhor que o anterior e cheio de desafios”, relembrou.

O primeiro curso desenvolvido por eles chamava A arte do Brincante. Na atividade, o casal de bailarinos dava aulas de música, exercícios de máscaras, práticas de circo, malabares, construções poéticas e mitologia voltada para cultura africana. E foi a partir de uma conversa com a educadora Maria Amélia Pereira (Peo), da Casa Redonda Centro de Estudos, que eles tiveram a ideia de transportar essa formação para um curso com educadores. “A Peo falou que essa atividade seria muito bacana, porque todo educador deveria saber cantar as músicas brasileiras em uma dinâmica da palavra poética”, contou. Desde então, o curso nunca mais parou.

“Eu escolhi ter uma escola de gente boa, onde o ser humano é prioridade”, definiu Rosane. Segundo ela, as oficinas oferecidas pelo instituto tentam transmitir a busca do indivíduo por um encontro com ele mesmo. “Eu acho que a gente pode ir em lugares muito mais prazerosos quando estamos conectados. Todas as brincadeiras e desafios existentes na cultura popular brasileira levam a isso”, explicou.

Atualmente, o Instituto Brincante oferece aulas voltadas para crianças, educadores, jovens e adultos. Entre as atividades desenvolvidas, estão os cursos de contação de histórias, percussão, frevo, capoeira, dança, teatro musical brasileiro e brincadeiras cantadas em danças de rodas. Todas as aulas realizadas no local apontam para o descobrimento do brincar por meio da arte.

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Atualmente eles oferecem aulas voltadas para crianças, educadores, jovens e adultos

Uma nova forma de se relacionar com o lúdico

Natural de Curitiba, Rosane Almeida se formou em arte circense, dança, teatro e música. Entre 1983 e 1993, estudou arte circense na Escola de Circo Picadeiro em São Paulo, na Escola Superior das Artes do Cirso em Charlos-sur-Mane (França) e na Scuola de Teatro Dimitri em Verso (Suíça). “Sempre estive ligada a um estado criativo das coisas. Alguma coisa dentro de mim não se contenta em fazer o que já está feito”.

Foi aos 16 anos, quando casou com Nóbrega, que ela teve contato com os primeiros artistas brincantes. “Havia muita brincadeira entre eles e uma presença muito forte do físico. O que me chamou atenção foram as qualidades que eles apresentavam de serem pessoas muito generosas e lúcidas”.

“As pessoas que brincam têm essa capacidade de sintetizar as coisas muito mais facilmente. Todos os artistas que eu convivi vieram de cenários muito difíceis, violentos e de muita injustiça social. Mesmo assim, eles conseguiram produzir coisas de muita beleza. Eu atribuo isso a uma relação lúdica e descompromissada de não se levar muito a sério e saber que tudo pode ser viável”, apontou a artista.

Além da capacidade de assimilar e reorganizar o mundo, o trânsito lúdico na cultura dos artistas populares brasileiros se destacou na forma de um novo tipo de humor. “Não é o humor de deboche, que precisa diminuir o outro para um terceiro dar risada. É o humor fruto de um olhar sobre si”.

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As oficinas tentam transmitir a busca do indivíduo por um encontro com ele mesmo

Com ojeriza a competições, a atriz e bailarina sempre procurou se mover por desafios próprios. “Eu sou de circo e experimentei na pele a diferença entre vencer porque o outro perdeu, ou vencer porque você conquistou alguma coisa”, contou.

Longe de uma história de vencedores, em que a lógica do jogo exige o domínio sobre o espaço e o outro, a dinâmica das manifestações populares brinca com os elementos que estão disponíveis em um determinado espaço. “Essa dinâmica da cultura popular é fantástica. Ela vai te dar um chão e, sobre ele, você consegue fazer tudo o que a sua criatividade e a sua inteligência permitir”.

No universo adulto e infantil

Segundo Rosane, a amarelinha é um exemplo em que o sujeito demarca e se apropria do espaço físico. A tradicional brincadeira infantil consiste em riscar o chão com giz e reorganizar o espaço, de forma em que se estabeleçam regras para percorrer um circuito de retângulos numerados de 1 a 10. “Em uma certa idade, isso é muito importante e necessário. No entanto, na medida em que você vai crescendo, o espaço aumenta e a sua relação com o outro se torna mais completa”.

Com as complexidades do universo adulto, passam a surgir novas dinâmicas de apropriação do físico e relacionamento com o lúdico. “Se você pegar uma roda de coco (tradicional ritmo nordestino), vai perceber que os itens da amarelinha estão presentes nessa dança de uma forma mais complexa”, explicou Rosane.

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Entre as atividades desenvolvidas, estão os cursos de contação de histórias, percussão, frevo, capoeira, dança, teatro musical brasileiro e brincadeiras cantadas em danças de rodas

Entre as cantorias e sons do coco, o ritmo de influência africana e indígena pode ser recriado e transformado por cada grupo de participantes. “Se você pegar um passo de coco, quando achar que aquilo é o fim, ali é onde começa a brincadeira”, explica a bailarina sobre as possibilidades ilimitadas do movimento dentro de uma dança.

Crianças e adultos se apropriam do espaço físico de forma distintas. Porém o adulto tem a necessidade de teorizar suas atividades, enquanto a criança está na prática, na ação do brincar, apontou Rosane. “Enquanto a criança já vive o sentido de uma brincadeira, o adulto necessita de significado e explicações sobre qual lucro aquela atividade irá trazer para ele”.

Serviço:

Instituto Brincante: www.institutobrincante.org.br

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