Iniciativa de empreendedorismo contribui para indústria têxtil

 

Ter uma cadeia têxtil responsável e sustentável ainda não é uma tarefa simples e fácil. Envolve diferentes atores e fluxos. Para contribuir com esse debate, a palestra Inovações por uma indústria da moda mais sustentável abordou ações que investem em um ciclo de produção mais comprometido e responsável na manhã do segundo dia da Conferência Ethos 360°, na quarta-feira 23 de setembro.

 Nesse painel, participaram: Carolina de Andrade, diretora executiva do Social Good Brasil; Cynthia Drayton, senior change manager da Ashoka; Giuliana Ortega, diretora do Instituto C&A; e Monyse Almeida, fundadora da Alinha.

 

 Segundo Giuliana, toda a cadeia produtiva envolve condições de vida no campo, as confecções e o produto acabado, além da economia circular. Ainda chamou atenção por reunir setores e entidades governamentais e não governamentais. Explicou sobre a parceria com a Ashoka para valorizar ações de empreendedores com o desafio Tecendo a Mudança, que busca iniciativas inovadoras em prol de uma indústria têxtil mais justa e equilibrada, em respeito às pessoas e ao planeta. Os prêmios totalizam mais de €100.000 para desenvolverem as suas soluções.

O público recebeu um sumário executivo intitulado Mapa de Inovação Social – Inovações para uma indústria têxtil sustentável, em que contextualiza a parceria da Ashoka com o Instituto C&A. A ideia dessa publicação é mostrar a compreensão das barreiras à sustentabilidade nesse segmento, com foco em soluções tangíveis e em um grupo de estratégias diferenciadas para a transformação da cadeia de valor. Indica dois padrões: barreiras – componentes de um problema complexo em que os empreendedores têm de combater para alcançar o máximo impacto, definidos com base em anos ou mesmo décadas de pesquisas de campo – e os fundamentos, em que contém abordagens inovadoras e eficazes. O documento ainda oferece sugestões e ideias para contribuir com essa situação tão desigual.

De acordo com essa publicação, os empreendedores sociais entrevistados contribuem por meio do estabelecimento de novas normas para a indústria e a melhoria da qualidade de vida de distintos grupos da cadeia produtiva. “Eles empoderam comunidades, donos de fábricas e trabalhadores migrantes que trabalham nos processos de fabricação, além de varejistas, marcas e consumidores comuns, responsáveis pela demanda desse mercado de moda”.

Esse relatório ainda traz três seções: mapeamento de padrões, descrevendo oito ideias principais que surgiram durante a elaboração desse mapeamento (as barreiras encontradas e os fundamentos para enfrentar); empreendedores sociais líderes, com 20 modelos de Fellows da Ashoka que já estão atuando nas regras dessa cadeia; e pensando adiante, com traz reflexões coletivas sobre os caminhos para a aceleração da mudança sistêmica.

Carolina, da Social Good, falou sobre a atuação desse movimento de apoio com tecnologia a empreendedores de várias partes do Brasil e ressaltou a importância dessa parceria para contribuir com esse cenário problemático e complexo.

Cynthia iniciou sua fala sobre empreendedorismo social, explicando quem são essas pessoas, como atuam, o formato de seus projetos e como impactam na sociedade. “Eles transformam o mundo. No caso da moda, envolve do início das plantações até o consumidor consciente. Estamos impressionados com o que está sendo aplicando. Eles encontram soluções inovadoras, que podem transformar a indústria da moda”, explicou.

Para ilustrar a atuação dos empreendedores sociais, a senior change manager da Ashoka trouxe o exemplo de alguns deles, como: Nicole Ry Craft, uma ambientalista fundadora do Canopy Style. Ela conseguiu atingir cerca de 500 CEOs sobre a importância da origem dos produtos que são usados na produção de suas roupas.

Outro desafio apontado por Cinthia é o processo. Uma das ideias está em identificar novos inovadores e mapeá-las dentro dessa indústria, e precisam ser estruturadas para construírem mais parcerias. “Nem sempre as ações dos fellows possuem porte escalonável”, atentou. Para isso, ela ressaltou a importância de buscarem novas estratégias. Ela listou alguns desafios: primeiro não possuem capacidade de visualização de quem está sendo ocultado/escondido, nem sabem a origem daquela matéria-prima; segundo é um trabalho não suficiente; e em terceiro, os consumidores não estão motivados em cuidar, porque não receberam essa habilidade. E, finalmente, o quarto desafio consiste na falta de sustentabilidade do DNA, já que os integrantes dessa cadeira costumam valorizar a lucratividade a curto prazo

A representante da Ashoka ainda falou sobre o caso de Suraya Haque, de Bangladesh, que desenvolveu um método diferenciado de cuidar de crianças, engajando seus pais em questões de direitos humanos, trabalhistas, saúde da mulher, entre outros assuntos. Outra empreendedora foi Neusa Nespolo, idealizadora do Justa Trama, em que inclui e considera o trabalhador do início ao fim da produção e valoriza o seu know how local para gerar soluções sustentáveis cada vez melhores. É uma cadeia produtiva, em que seu processo inicia no plantio do algodão agroecológico até comercialização de peças de confecção produzidas com este insumo.

O mexicano Ben Cokelet também foi outro empreendedor apresentado. Sua organização se chama Projeto de Organização, Desenvolvimento, Educação e Investigação (Poder), que treina organizações da sociedade civil da América Latina para se tornar fiadores da comunidade de transparência e responsabilidade corporativa. A principal ferramenta é a capacitação local, que promove a responsabilidade corporativa em uma região.

Kendi Paris foi outra empreendedora citada durante a sua apresentação. Atua na área de direitos humanos e é responsável pelo movimento Truckers Against Trafficking (Caminhoneiros contra o Tráfico, em tradução livre). Dos Estados Unidos, sua atuação é bem voltada para educação ao trânsito, mas suas orientações esbarram com temas da área de direitos humanos, com uma abordagem inovadora e conseguem evitar tráfego humano.

Após as apresentações desses empreendedores, Cynthia defendeu que o trabalho deles contribui na criação de um ecossistema que gere mudanças e engajamento de outros envolvidos. Todo esse movimento contribui com consumidores mais conscientes e até mudanças políticas. “70% dos empreendedores da Ashoka estão envolvidos na criação de políticas públicas”, enfatizou e citou como exemplo o jornalista e responsável pela Repórter Brasil, Leonardo Sakamoto.

Por boas costuras

A partir de uma inquietação durante seu estágio no Ministério Público, a jovem advogada Monyse Almeida observava as limitações desse órgão sobre os casos de trabalho degradante em diferentes espaços. Sua amiga formada em relações internacionais compartilhava do mesmo sentimento e vontade em fazer algo por essas pessoas. As duas jovens decidiram participar do Lab do Social Good, um concurso voltado a propostas para resolver algum tipo de problema social, e tiveram oportunidade em quatro meses de desenvolverem melhor seu projeto e até compartilharem conhecimento com outros participantes.

“Os costureiros estão na invisibilidade”, compartilhou a jovem com o público. Também ressaltou que o ambiente do concurso é colaborativo, apesar de terem apenas três ganhadores com capital semente para desenvolverem mais suas ideias. “De 12 a 15 mil oficinas se misturam com moradia”, afirmou. Monyse contou que fizeram parcerias com organizações que atendem imigrantes, uma delas foi com o Centro de Apoio ao Migrante (CAMI), que visita as oficinas de costura. “Eles rompem a barreira com o local de trabalho, desde as condições ambientais gerais até as principais demandas. Eles sentam junto e conversam com os imigrantes a partir daí conseguem retirar indicadores”, explicou sobre a atuação do CAMI.

Com dados e parcerias, a advogada mostrou e navegou na plataforma que criaram chamada Alinha, destinada para a aceleração de oficinas de costura e no aumento de sua visibilidade ao mercado. Sua proposta principal é colaborar para a melhoria das condições de trabalho na cadeia da moda com foco no apoio ao empreendedorismo. Depois dos responsáveis pelas oficinas preencheram o cadastro inicial, eles recebem visita de um agente do Alinha que fará um plano de ação para oficina, identificando suas dificuldades e fortalezas, como: auxílio para formalização, a cursos de empreendedorismno, ao acesso ao microcrédito, indicações técnicas de enquadramento da infraestrutura.

Monyse ainda explicou que eles atuam na divulgação desses negócios. Quem tiver interesse em contratar uma oficina de costura, como confecções, fornecedores, marcas independentes, estilistas e interessados em geral podem contatá-los. Elas poderão ser avaliadas pelos compradores sobre a qualidade da entrega e o cumprimento dos prazos, sua capacidade de operação, estrutura física e outros critérios. A ideia é aproximar o comprador das oficinas que promovem as melhores condições de trabalho para seus funcionários. “Queremos dar oportunidades ao consumidor para escolher mais. O que mais me orgulha é contribuir para construir um ambiente de trabalho melhor para essas pessoas. Não mudamos só esse aspecto, indiretamente impactamos na melhoria da qualidade de vida desses costureiros”.

Já Cynthia defendeu que há inúmeras soluções. “Se todos fossem realmente agentes de mudança, a indústria da moda se tornaria sustentáveis mais rápido”, pontuou ao público.

O evento

Nos dias 22 e 23 de setembro, a Conferência Ethos 360° reuniu diferentes especialistas da área de responsabilidade social, de empreendedorismo e de negócios inovadores e sustentáveis. Com um formato diferenciado, todos os debates dividiram um amplo espaço sem paredes. Os participantes tinham que usar fone de ouvido e sintonizar na palestra de seu interesse. Os temas abordados nos debates foram: integridade, combate à corrupção, progresso social, desenvolvimento, diversidade, liderança, conservação do meio ambiente, juventudade, gênero, ações colaborativas, big data, inovação, captação de recursos, resíduos sólidos, entre outros. Confira aqui: http://www.ce2015.org/


Site da Conferência Ethos 360°: http://www.ce2015.org/

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Data original de publicação:  29/09/2015