Infrações na adolescência: os desafios do recomeço

A adolescência é tipicamente caracterizada como um período de mudanças intensas no corpo e na visão de mundo que influencia o comportamento e gera experiências determinantes para o desenvolvimento dos indivíduos. Com frequência, quem já passou por essa fase consegue recordar bem da velocidade de tais transformações. Assim é para a maioria das pessoas. Mas uma parcela menor da sociedade acaba registrando o período na memória de um jeito bem diferente.

Como seria se, durante sua juventude, você fosse retirado do convívio com sua família e amigos para ter uma vivência restrita a um determinado espaço durante meses? É o caso dos menores de idade que cometem atos infracionais no Brasil. Ao contrário do que se pensa, os adolescentes que entram em conflito com a lei têm de lidar com as consequências. A medida socioeducativa mais rígida existente é a internação na Fundação CASA, que priva o jovem de liberdade e pode durar até três anos.

O trabalho de ressocialização, no entanto, vai além do período que passam internados. São muitos os desafios que encontram após deixarem os centros, todos eles pertinentes à reconstrução de seus modelos de vida, ainda que tão novos para passarem por recomeços. A Associação Horizontes é uma das organizações não governamentais que trabalha nesse sentido em uma de suas frentes de ação. Com o projeto Trilhas, eles atendem meninos e meninas que foram internados e oferecem treinamentos e orientações para que consigam inserção no mercado de trabalho.

Alternativas

No projeto Trilhas, os jovens recebem acompanhamento individual

“Com atendimentos individuais a gente trata de alguns temas, como valores pessoais, perspectivas, projeto de vida, habilidades e competências. Mostramos a possibilidade de terem uma renda e, ao mesmo tempo, poderem concretizar algo que tenham interesse”, explica Heloisa Dantas, de 43 anos, psicóloga e diretora técnica de projetos da entidade. Com o apoio de outra psicóloga voluntária, ajuda os adolescentes a montar currículos, pro
curar vagas e buscar qualificação.

Para ela, não basta simplesmente colocá-los em qualquer tipo de emprego, pois, devido a experiências anteriores, percebeu que eles rapidamente saem dos postos. Entre os motivos possíveis, ela cita variáveis como adaptação à rotina, má remuneração e desinteresse por funções que não estão alinhadas com seus propósitos de vida. “Essa é uma questão da juventude, não só deles. No caso desses meninos, tem a particularidade de eles já terem cometido pelo menos um ato infracional. E na comunidade o tráfico é presente. Existe uma relação de poder e status quando eles estão envolvidos com atividades ilegais, muito diferente dos locais em que se sentem explorados e rebaixados”, afirma.

Sobre o perfil das famílias, ela comenta: “em muitos casos, eles não têm pai e nem mãe. A figura paterna costuma ser mais ausente”. São comuns as histórias de pessoas que vieram do Nordeste para São Paulo no passado para buscar melhores condições de vida, conseguiram subempregos e, com dificuldades, tiveram que criar seus filhos, de acordo com Heloisa. E, nesse processo, muitas mães solteiras de destacam por terem que prover tudo sozinhas: “Elas não dão conta de criar um filho adolescente, não porque sejam incapazes, mas porque de fato é uma enorme exigência. Ainda mais sem políticas públicas eficientes nas áreas de saúde e educação”.

“Mostramos a possibilidade de terem uma renda e, ao mesmo tempo, poderem concretizar algo que tenham interesse”, explica Heloisa Dantas, diretora técnica de projetos da Associação Horizontes

A Associação Horizontes também atua dentro dos centros de internação na capital e na região metropolitana de São Paulo desde 2008. Por meio de um convênio com a Fundação CASA, oferece cursos de qualificação profissional. São aulas em áreas como manicure, cabeleireiro, turismo e hotelaria, alimentação, artesanato, construção civil, entre outras, que visam oferecer conceitos básicos e estabelecer um primeiro contato com algumas carreiras. O programa é montado de forma que os garotos e garotas escolham os temas de seus interesses e participem de, no mínimo, uma capacitação.

Para atingir os objetivos educativos dessa ação, é necessário existir uma relação de confiança entre educadores e adolescentes. “Dependendo do curso, tem enxada, tem faca. Se pensar no estereótipo do infrator, até assusta. Mas não tem nada a ver, aquilo é o material que eles vão usar no mundo lá fora”, elabora Heloisa. Para Tânia de Fátima, nutricionista, bióloga e pedagoga que ensina sobre diversos assuntos dentro da Fundação, como manicure, artesanato e cozinha, há uma troca intensa com eles: “Essa idade é igual em todos os lugares. Eles são agitados, não gostam de muita falação e querem coisas mais manuais. Aqui eles até respeitam mais a gente do que alunos do ensino médio lá fora. Tento mostrar que os conhecimentos mais simples podem ser úteis no futuro”.

Quem passou por lá

É dessa maneira que muitos deles têm o primeiro contato com a ONG e, por conta própria, acabam procurando-a quando voltam para suas casas. Foi o que aconteceu com Paulo Anthony, de 18 anos, que teve a primeira das duas internações aos 14. Apesar de cedo, seu contato com criminalidade começou quando era ainda mais novo: não conheceu seu pai, que foi assassinado em um conflito entre favelas, e cresceu visitando a mãe, que passou 18 anos presa. Aos 11, encontrou seu irmão de 10 anos morto após cometer suicídio. Como tentativa de fugir da realidade, começou a usar drogas e, quando menos percebeu, estava envolvido com tráfico. “Dentro da Fundação eu ficava revoltado porque tentava buscar uma lembrança boa com minha mãe e meu irmão e eu não tinha. A única era a gente assistindo um filme lá dentro da cela dela. Tentei tirar minha vida três vezes”.

Figura 3
Paulo Anthony participa de dinâmica com dicas de comportamento em entrevistas de emprego

Paulo agora busca emprego e participa do projeto Trilhas com outros jovens, como Hebert Douglas, de 20 anos. Depois de ser expulso de casa pela mãe por usar drogas e admirar armas, foi morar com o pai e sua esposa mais nova. Mais uma vez rejeitado, mudou-se sozinho de São Paulo para Araraquara com 16 anos, onde mergulhou de vez nos delitos para conseguir dinheiro após receber um convite para entrar no tráfico. Não levou muito tempo para ser denunciado. Acabou passando um ano internado em um centro no interior, longe de sua família, e depois foi transferido para a capital, por onde passou mais um ano e meio privado de sua liberdade.

Segundo Heloisa, a maioria dos adolescentes vai para a internação por motivos pequenos e não por estarem envolvidos com profundidade com o crime organizado. “A partir daí, em vez de a sociedade reverter, ela começa a afastar, porque é punitiva”, explica. Ela ainda afirma que o tratamento dado a jovens vindos de classes sociais distantes é diferente, ainda que façam as mesmas coisas. “O menino que tem mais dinheiro e comete o erro de vender um pouco de maconha não é considerado traficante, e sim usuário”.

Paulo e Hebert se queixam do tratamento que recebiam dentro da Fundação CASA por parte dos funcionários com quem conviviam diariamente: “A gente já sabe que errou e ter que ficar escutando isso toda hora não é legal. Ficar escutando que a gente é um bandidinho de meia tigela, que a gente não vai pra frente na vida e vai morrer nessa”, reclama Paulo. A relação com os educadores, por outro lado, é bem diferente.

Voluntário passa tarefa para Hebert Douglas em treinamento no Projeto Trilhas

Hebert, em um primeiro momento, foi atrás dos cursos por saber que somavam pontos positivos ao seu processo, mas se surpreendeu. “Já entrei na sala com aquela cara de malvado que não quer saber de nada, mas vi que era um pessoal da comunidade, próximo de onde a gente morava, gente humilde e trabalhadora, e aí que eu fui me abrindo”, conta. O bom andamento das aulas passou a ser sua preocupação e, por conta disso, cobrava a colaboração dos colegas: “se a pessoa atrapalhasse, eu dava uns murros nela”.

Giovana*, de 16 anos, Marina* e Fernanda*, de 17, estão internadas na CASA Chiquinha Gonzaga, na cidade de São Paulo, há cerca de um ano. As três foram parar lá por roubo e também conheceram os cursos de qualificação, dos quais afirmam gostar. “A gente aprende como se comportar, como atender um cliente, deixar as coisas bem organizadas”, diz Fernanda. Por demonstrarem interesse e estarem próximas do período de retornar ao convívio familiar, já foram encaminhadas para o Trilhas, a pedido delas mesmas. “É uma forma de mudança”, afirma Marina.

Ezeilton Rodrigues, advogado e diretor do centro em que as meninas estão, conta que há casos em que adolescentes começam a trabalhar ainda internados – ou seja, vão para a jornada de trabalho e retornam todos os dias – um bom sinal de que estão preparados para voltar para a sociedade. “Percebemos que, depois de passarem por esses cursos aqui dentro, acabam conseguindo empregos pela formação oferecida”, afirma. Segundo ele, há conhecimento de jovens que são contratados em pequenos negócios em suas comunidades ou até mesmo em empresas maiores. No entanto, não há nenhum registro oficial que meça esses dados.

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Manicure é um dos cursos de qualificação profissional oferecidos na Fundação CASA

A busca pela mudança

“Lá dentro você pensa: tudo que eu preciso é sair daqui e isso vai resolver meus problemas. Mas na verdade é aí que começam os problemas. A gente tem que estudar, trabalhar, se manter, se vestir. E de onde tirar dinheiro pra fazer tudo isso? ”, afirma Paulo, que está no primeiro ano do ensino médio e pretende voltar a estudar. Hebert está na mesma situação, mas já trabalha na própria Associação Horizontes fazendo pesquisas na sede da ONG e, eventualmente, faz visitas às CASAS para aplicar atividades educativas.

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Meninas da CASA Chiquinha Gonzaga têm aulas em turmas formadas por poucas alunas

Eles acreditam que esse contato com quem já passou por lá e agora conseguiu se restabelecer é muito importante para os meninos. “Os caras falaram que eu não ia ser nada e hoje eu volto lá, trabalho com o que gosto e ainda to salvando as pessoas. Tenho contato direto com os meninos, sei o que eles estão precisando, eles estão vestindo a mesma roupa que eu já vesti um dia, estão sentados no mesmo banco que eu já sentei”, conta Hebert. Paulo completa: “Ali dentro a gente é visto como um número. Quem já teve um número igual àquele adolescente e diz ‘eu consegui, você também pode’ começa a mudar a história”. Ele mesmo conta que se inspirou em um livro escrito por Cleonder Evangelista, que passou pela Febem e depois se tornou referência de reinserção, até ser preso novamente e falecer no sistema penitenciário por pneumonia.
O discurso que se repetiu em todos os jovens contatados por esta reportagem foi o do aprendizado. Fernanda afirma que o que mais a impactou em seus meses de internação foi a falta da família, uma vez que sua casa é no interior, onde mora a única irmã, pois os pais já faleceram. “Eu me arrependo. Foi bom vir para cá, porque se não tivesse vindo eu não tinha me arrependido. Aqui aprendi bastante coisa, tem professores que ajudam a gente, a escola é boa”. As outras meninas concordam. “Eu amadureci bastante”, diz Marina. “Vou levar como uma lição de vida para mim”, conta Giovana. “Uma coisa que eu aprendi na marra na Fundação é que… eu sou capaz de ter um futuro melhor. Não é porque minha mãe nasceu no crime, que meu pai nasceu no crime, que eu vou ter que ficar nessa a vida toda”, declara Paulo.

Heloisa acredita que a sociedade enxerga o adolescente em conflito com a lei como um bode expiatório, pois eles são a linha de frente do crime organizado, rapidamente angariados e facilmente substituíveis. Com problemas como a desigualdade social, a violência é reproduzida ao mesmo tempo em que as pessoas tentam isolar aqueles que consideram culpados. “A grande ironia é que quanto mais você tentar esconder e punir, mais você gera ódio. Você pode até não ter ternura e não entender por que ele fez aquilo. Mas ele sai de lá com raiva, vai procurar trabalho e não vai conseguir. O que ele vai fazer? ”, pergunta.

Sonhos

Paulo descobriu a poesia e está prestes a publicar algumas delas. No entanto, sua maior vontade é escrever sobre sua história de vida. “Eu não pretendo ganhar nada com isso. Nem sei se existe, mas eu queria encontrar uma editora beneficente e distribuir na Fundação de graça. A única coisa que eu quero é que os meninos me vejam como exemplo”, conta. Hebert também é rapper e, mais do que isso, percebeu que tem o talento de compor em qualquer ritmo. Hoje corre atrás de mostrar seu trabalho e já teve a chance de se apresentar com artistas como Dexter. “Ele me perguntou no palco: ‘em São Paulo, quem não sofre? ’. Eu peguei no microfone, olhei no fundo do olho dele e falei: ‘em São Paulo quem não sofre são os poetas’”.

As meninas, ainda internadas, já fazem planos para o futuro. Giovana quer fazer curso advocacia ou de cabeleireira. Marina diz que, se essa opção não der certo, vai procurar um curso de administração. Ambas pretendem estudar inglês. Já Fernanda afirma que quer ser psicóloga: “Eu gosto de conversar, de ajudar as pessoas, tenho paciência”. Quando questionada sobre seu sonho, responde de prontidão: “Meu sonho é dar orgulho para a minha família”. As outras duas ficam mais relutantes. “Não sei… acho que não tenho sonho”, fala Marina. Giovana completa: “Eu também, ainda não tenho”.

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Mensagem escrita por Hebert durante dinâmica de inserção profissional

* Nomes fictícios utilizados para preservação da identidade, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)


Texto: Natalia Freitas

Imagens: Divulgação

Data original da publicação: 14/04/2016