Infância desigual em SP

Rede Nossa São Paulo promove evento para lançamento de dados e diferentes especialistas para discutir a importância de políticas públicas destinadas à infância.

Ilustração da capa do estudo Mapa da Desigualdade da Primeira Infância. Não tem desenho, somente fundo colorido.
Estudo traz avaliação de 26 indicadores municipais. (crédito da imagem: divulgação)

“Todos merecem um bom começo”, afirma Claudia Vidigal, representante da Fundação Bernard van Leer no Brasil, no início do evento de lançamento do Mapa da Desigualdade da 1ª Infância 2020, produzido pela Rede Nossa São Paulo no auditório do Sesc Bom Retiro. O estudo trouxe 26 indicadores municipais relacionados com temas fundamentais para o bem-estar e qualidade de vida das crianças de zero a seis anos de idade – no período que compreende a chamada primeira infância. Esses dados foram aplicados nos 96 distritos da cidade de São Paulo, para mostrar as diferenças socioterritoriais da cidade.

O levantamento usa a mesma metodologia dos Mapas de Desigualdades feitos pela Nossa São Paulo. Desde 2017 o Mapa da Desigualdade da 1ª Infância existe e pretende auxiliar a gestão e o planejamento municipal para identificar as prioridades nas políticas públicas, que envolveu: identificação e sistematização dos indicadores, coleta de dados, sistematização e cálculos, análise e comunicação.

O Mapa está estruturado em cinco temas: contexto urbano, gestação, neonatal, primeiríssima infância e primeira infância. Alguns dados gerais sobre esse público: 12,4% é a taxa de crianças que morrem antes de completar o primeiro ano de vida para cada mil crianças nascidas vivas; 208.304 crianças de zero a cinco anos com peso muito baixo e baixo para a idade; 375.820 crianças de zero a cinco anos com peso elevado para a idade; e 29,7% é a taxa de cobertura em creche.

No contexto urbano, o bairro do Grajaú tem 45,9 vezes mais pessoas do que Marsilac, ambos são da zona sul. Entre a população infantil, a região de Parelheiros tem 9,4 vezes mais crianças (de zero a seis anos de idade) do que Consolação. Já no atendimento à rede de esgoto, a diferença entre os bairros República e Marsilac é bem alta, mas 93% dos domicílios têm banheiros dentro de casa. No caso de arborização viária, o Alto de Pinheiros ficou bem avaliado, enquanto Marsilac apresenta baixa proporção de árvores no sistema viário mesmo sendo uma região rural dentro de São Paulo.

Na parte de gestação, foi constatado que a diferença da gravidez na adolescência é bem notado entre Moema, com poucos casos, e Marsilac. Sobre o neonatal: 19% das mães fazem consultas pré-natal. No bairro do Cachoerinha, ocorrem seis vezes menos pré-natal do que o indicado pelo Sistema Único de Saúde e Organização Mundial de Saúde.

Foto de auditório do Sesc Bom Retiro cheio e apresentação de estudo no palco.
Fernanda Vidigal, da Fundação Bernard van Leer no Brasil, fala da importância de uma infância saudável e uma cidade mais amigável. (crédito da imagem: divulgação)

Sobre o neonatal, o parto cesariano ocorre mais no bairro do Tatuapé e em menor quantidade em Parelheiros. Em relação ao baixo peso ao nascer, a distribuição é bem irregular nos bairros. Houve ainda um surto de sífilis congênita: 130% o número de ocorrências de 2016 a 2018, no bairro da Saúde.

A primeiríssima infância, conhecida pela fase do bebê de zero a três anos, abrangeu mortalidade infantil até 1 ano, creche tempo de atendimento para vaga, creche demanda atendida e creche alunos por turma. Na mortalidade infantil, chama atenção Marsilac com 24 casos e Perdizes aparece no outro extremo com 1,1. O tempo de atendimento para a vaga em creche, Guaianases está do lado positivo com 18,5 vagas, enquanto Vila Andrade, na zona sul, com muita necessidade com 260 vagas a menos.

Na primeira infância, o número de alunos matriculados em pré-escolas municipais (das redes pública e conveniada), em relação ao total de turmas abertas no mesmo período e distrito, apresentou o bairro da Saúde com boa posição com 20,3 e Casa Verde ainda com dados alarmantes, acima da média (30,7), com 44,3. Capão Redondo foi um dos bairros quatro vezes mais ruas para lazer aos domingos. Já o tempo de espera para consultas com pediatras ainda chama atenção na Brasilândia, que costuma aguardar até 70 dias, enquanto em outras regiões da cidade 32 dias. A violência sexual contra crianças está mais presente no Capão Redondo, com taxa de desigualtômetro de 85 vezes mais do que nos demais bairros.

No final do levantamento, há três tabelas para compreender melhor a comparação de todos os indicadores e desigualtômetros e variação média do município de 2016 a 2018.  O aumento de casos de sífilis, depois o tempo de espera para consultas no pediatra e violência contra crianças – violência sexual foram os primeiros na tabela de variação da média da cidade, de 2016-2018.

Além das tabelas, a equipe do estudo listou no mapa de São Paulo os dez distritos bem avaliados: Alto de Pinheiros, Pinheiros, Consolação, Jardim Paulista, República, entre outros. Já o outro desenho mostra a lista dos distritos com piores avaliações: Marsilac, São Lucas, Cidade Tiradentes, Capão Redondo, Liberdade, José Bonifácio e Belém. Longe de classificar como bairro bom ou ruim para viver, uma das organizadoras do levantamento explicou que a ideia de reunir os distritos que mais apareciam nos itens avaliados.

Olhar das crianças

Os bairros da Brasilândia e Cidade Tiradentes foram avaliados por crianças da região para pontuarem o que eles gostam e não aprovam nessas localidades. Com o título Olhar das Crianças – Brasilândia e Cidade Tiradentes – A experiência do Observatório da Primeira Infância nos Territórios Educadores. Com a metodologia da Rede de Conhecimento Social, o levantamento deu voz a essas crianças no desenho e nas fotos e elas sugerirem políticas públicas. Elas passaram por sensibilização, depois foram para ruas na expedição e por fim curadoria das fotos que tinham feito. Nas imagens, mostraram a geografia do bairro com escadas, as paredes coloridas, as árvores no caminho e o medo de cair no córrego aberto, o tempo da fila dentro do terminal rodoviário e falta de espaço nas calçadas em que os adultos esbarram neles direto.

Acesse aqui o estudo na íntegra no site da Rede Nossa São Paulo: https://bit.ly/2HmlfIp