Historiadora reflete educação antirracista

O Senac São Paulo oferece o curso a distância Diversidades: Educação Antirracismo, produzido pela historiadora Suzane Jardim, em que contextualiza o assunto, com dados e conceitos importantes.

Foto de Suzane Jardim, mulher negra de cabelos curtos até os ombros, sorrindo.
“O racismo faz parte de nossa estrutura social e de cada indivíduo”, pontua a historiadora Suzane Jardim em entrevista. (crédito da imagem: Luan Batista)

Há 15 dias, foi assassinado o adolescente negro João Pedro Mattos Pinto, atingido por um tiro de fuzil pelas costas na casa de seus tios, em uma operação das polícias Civil e Federal no Complexo Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Hoje, dia 02 de junho, as redes sociais são marcadas pela campanha Blackout Tuesday para apoiar a causa negra, que consiste em quadros pretos publicados no feed do perfil do Instagram, como demonstração de solidariedade aos protestos do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), nos Estados Unidos. Os protestos começaram após o assassinato de George Floyd por policiais americanos no dia 25 de maio em Minneapolis (EUA). Com a participação de pessoas do mundo todo, essa campanha combate o racismo, o fascismo e a violência policial.

O Senac São Paulo oferece o curso EAD Diversidades: Educação Antirracismo, que faz parte do Programa de Inclusão e Diversidade, com o objetivo de difundir a cultura inclusiva e o conceito de diversidade como valor por meio de série de documentários nos quais os protagonistas compartilham informações e experiências significativas em torno do tema. O conteúdo foi produzido por Suzane Jardim, educadora, consultora e pesquisadora de questões raciais. Suzane também é uma das idealizadoras da campanha 30 Dias por Rafael Braga, preso arbitrariamente durante as manifestações de junho de 2013 no Rio de Janeiro. A pesquisadora conversa com equipe do Portal Setor3 sobre esse curso e a diversidade para uma sociedade menos desigual.

Foto de grupo de 10 pessoas e Suzane Jardim, mulher negra, está no meio. O grupo está em estúdio de gravação.
Bastidores de gravação para o conteúdo do curso com grupo responsável por essa produção. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3- Como foi a construção do curso? Quais foram as principais preocupações em falar de um tema tão importante?
Suzane Jardim- A construção foi baseada nos estudos sociológicos e históricos sobre a questão racial brasileira somadas às vivências, dúvidas e questões apresentadas durante formações com o mesmo intuito, ministradas por mim em diversas unidades do Senac São Paulo, durante o ano de 2019. A partir desses encontros presenciais, pude compreender quais eram os diálogos necessários, as principais dúvidas e os sensos comuns que pairavam o público interessado na temática e construí o conteúdo a partir disso.
Inicialmente, o curso foi pensado para funcionários do Senac São Paulo, o que me guiou foi pensar: “como fazer um trabalho que ajude esses funcionários a não serem mais um problema na vida dos negros com os quais eles convivem?”. A partir disso e visando a amplitude da questão, selecionei o conteúdo, buscando abordar questões que estão mais naturalizadas em nosso senso comum, trazendo argumentos e sementes para questionamentos mais profundos.

Portal Setor3 – Qual a importância de explicar conceitos como: preconceito, discriminação e racismo, entre outros? De que forma eles contribuem para uma visão de mundo e postura mais inclusiva nos dias de hoje?
SJ- Creio que a questão racial foi banalizada e silenciada ao longo de nossa história de modo que usamos sinônimos, eufemismos e simetrias que tiram o peso e banalizam o problema real. Trabalhar os termos e conceitos é também explicar onde o racismo se localiza em nossas dinâmicas sociais, não como algo ”normal”, um “preconceito como qualquer outro” ou uma anomalia que se observa em pessoas extremamente más. O racismo faz parte de nossa estrutura social e de cada indivíduo, pois assim se trabalhou para que fosse: a ideia é dar ferramentas para que se consiga perceber esse fato, iniciando assim um processo de autoquestionamento e disposição para a construção de outra sociedade.

Foto com grupo de funcionários do Senac Limeira e Suzane Jardim no centro, no corredor da unidade.
Turma de formação em educação antirracismo no Senac Limeira. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Nos últimos anos, você observa as pessoas mais abertas para escutarem e aprenderem a não serem racistas e como se tornarem agentes de mudanças?
SJ- Vejo que as pessoas negras estão mais presentes nas mídias e redes, de um modo que há 10 anos não se via. Isso torna o debate mais visível e faz com que seja mais difícil fingir que não há um problema. Esse interesse em relação ao tema está intrinsecamente ligado a esses espaços conquistados e a possibilidade de conversas francas sobre. Estão sim mais abertos para aprender, em grande parte, por entenderem que as pessoas que sofrem racismo têm hoje possibilidade de serem ouvidas e não irão se calar: é então um interesse motivado por empatia, mas há em bom número o interesse motivado apenas para evitar problemas pessoais futuros – mais comum em empresas e organizações. Seja como for, essa abertura permite que se atinjam mais pessoas e que se consiga formar alianças para denunciar o racismo existente e manter a luta por seu fim.

Portal Setor3 – Há 15 dias ocorreu a morte do João Pedro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. A fala do pai dele foi bem forte. Você avalia que as pessoas nesse período de isolamento social estão olhando com mais atenção para esse tema da violência a jovens negros nas periferias?
SJ- … Olha, o que é olhar com mais atenção? Colocar uma foto de capa em uma rede social? Compartilhar uma hashtag? É difícil se há mais atenção ou não e conectar isso a pandemia. E a atenção vem de quem? Porque de fato, no Twitter estão muito engajados, mas e na vida cotidiana? Entre os que não podem aderir ao isolamento e estão preocupados com a própria sobrevivência? Não sei dizer se estão dando ‘mais atenção devido a pandemia’, mas de fato Minneapolis queimou exatamente, porque o racismo não parou por causa do Covid e, no Brasil, estamos cansados e revoltados por ver que entram dentro das casas para matar, como aconteceu com João Pedro. Em uma época em que estamos todos em esforço coletivo para garantir a vida e a saúde da população, ver casos como esses nos faz refletir sobre o que é direito à vida, o que é segurança e como podemos pensar em ações e esforços coletivos para garantir a vida também nesses situações.

Foto de Suzane no centro de sala de costas e grupo de pessoas ao redor em sala de ONG.
Suzane, no centro, ministrando formação sobre questão carcerária na Casa do Povo de Rua, no centro de São Paulo. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Como reflete no Brasil as manifestações de Minneapolis (EUA), pedindo justiça pelo assassinato de George Floyd cometido por policiais?
SJ – Creio que o assassinato de George Floyd traz um olhar internacional para a questão e nos permite denunciar com mais força o que temos denunciado há anos: a lógica de hierarquização racial mata e faz com que as vidas negras tenham menor valor. A polícia de São Paulo e Rio de Janeiro sozinhas matam mais do que a polícia norte-americana inteira e isso não está desconectado do fato de sermos um país de passado escravista, colonial, atualmente com a maioria negra (ao contrário dos EUA, onde negros não chegam aos 20%) e que militariza suas relações, inclusive as relações que deveriam prezar pela segurança da população e vem gerando apenas mortes e desastres. É o momento de mostrar que Amarildo, Agatha, João Pedro, Cláudia, Rafael Braga e Marielle fazem parte do mesmo sistema responsável pelo fim das vidas de Trayvon Martin, Philando Castile, Tamir Rice, Eric Garner e George Floyd. Que isso sirva para que criemos consciência do problema e passemos a exercer resistência aos elementos que fazem a manutenção dele.

Portal Seto3 – Para finalizar, quais dicas você deixa para quem quer ser agente de mudança nesse tema dentro da sua área de atuação?
SJ- A maior dica para que se barre o avanço de projetos de segurança pública que são criminalizadores e responsáveis pela desvalorização e fim de vidas negras é estar atento para a racialidade presente nos discursos políticos, que se fantasiam de ‘cuidado’ e preocupação ‘com nossa segurança’. A política define o trato racial, as lógicas econômicas definem quem vive e quem morre, e a distribuição da vida e da morte em nosso país tem raça e classe. Se preocupar em não usar um vocabulário racialmente problemático ou dar chances a profissionais e vozes negras é com certeza importante, mas se centrarmos nesses pontos sem olhar para o que vem de cima, infelizmente, casos como o de George Floyd e João Pedro se manterão corriqueiros.

Conheça o curso EAD Diversidades: Educação Antirracismo: https://www.cursosead.sp.senac.br/antirracismo/index.html