Historiadora fala sobre a mulher desde 1920 até os dias de hoje

Debate também mostrou como sistema econômico atual impacta nesse processo.

15025Em diferentes períodos, pesquisadora Silvia Federici refletiu sobre o papel da mulher. Com o título A Revolução ao ponto zero: o comum, reprodução e lutas feministas, a ativista ministrou palestra sobre suas publicações e seus estudos e participações como co-fundadora do Coletivo Internacional Feminista nos anos 1970 e a luta pelo reconhecimento do trabalho doméstico como trabalho assalariado na noite da quinta-feira no dia 01 de setembro, na Casa do Povo, no centro de São Paulo.

A italiana é historiadora e professora radicada em Nova York. É professora emérita e Teaching Fellow da Universidade Hofstra (NY), onde ensina ciências sociais. Federici é co-fundadora do Coletivo Internacional Feminista (Feminist International Collective) que nos anos 1970 lutou amplamente pela demanda de trabalho doméstico assalariado. Na década de 1980 trabalhou vários anos como professora na Nigéria, onde foi co-fundadora do Commitee of Academic Freedom in Africa. Ela é membro do Midnight Notes Collective e autora dos livros Revolution at Point Zero – Housework, Reproduction, and Feminist Struggle (PM Press/Autonomedia, 2012) e Caliban and the Witch – Women, the Body and Primitive Accumulation (Autonomedia, 2004). Desde 3 de setembro, está disponível a tradução dessa última publicação, promovido pelo Coletivo Sycorax e a Revista Geni, acesse aqui: http://coletivosycorax.org/

Ela começou pelo conceito de justiça e defendeu que o movimento feminista é uma luta que precisa ter uma dimensão econômica para conseguir mudanças maiores e estruturantes. Pontuou ainda que a formação de produção capitalista impactou na reprodução da vida humana. Em suas pesquisas, observou que a mulher está muito relacionada com o cuidado com o lar, das roupas e da comida para sua família. Já na sociedade capitalista, a reprodução se dá no trabalho. “Sem trabalhadores não há trabalho”, afirmou.

Ainda na contextualização do sistema capitalismo para esse movimento social, ela compartilhou: “O sistema capitalista trabalha para o acúmulo de recursos, bens, serviços e infraestrutura”. Os salários, segundo sua visão, têm a função de dividir a classe trabalhadora. Quem tem mais possui mais salário. Ela ainda disse que quem controla o trabalho da mulher é quem possui poder. Essa mulher cumpre essa expectativa social.

A professora italiana também falou sobre a estrutura da família, que não foi destituída, nem a violência contra as crianças. Elas são não trabalhadoras e costumam ser disciplinadas corporalmente. Para combater essa violência, movimentos defendem que esta etapa de vida seja respeita.

Ressaltou ainda que alguns movimentos sociais feministas iniciaram seu trabalho com campanhas a mulheres trabalhadoras domésticas. O objetivo central foi pôr fim ao trabalho não pago para essas mulheres, que ficavam dependentes e mostrar que podiam se beneficiar com isso para não se sentirem culpadas. “Era muito comum elas se sentirem culpadas por trabalhar e algumas recusavam uma oportunidade por causa de seus filhos e seu marido”.

Já nos anos 1980, Silvia comentou que havia uma visão da atividade doméstica como parte fundamental de trabalho para esse público. Nos anos 90, ela se recordou que algo se desenvolveu dentro do feminismo da categoria de produção muito importante focalizado na importância da natureza, de preservação do meio ambiente. “Isso está mudando e isso significa que é um ataque na revolução”, disse. Aindacompartilhou que se lembra que pela primeira vez viu a importância da luta pela terra na Nigéria no início dos anos 1980, como uma luta global. E ainda falou da importância das comunidades indígenas e campesinas na concepção do conflito no processo de revolução. Esses atores sociais defendem o cultivo de subsistência.

Em sua opinião, atualmente a sociedade vive em uma crise de produção para o desenvolvimento do neoliberalismo como resposta política. Já as crises dos anos 1960/1970 foram ciclos de lutas que se intensificaram nas fábricas e do das mulheres entra no final dos anos 1960.

Depois disso, houve um movimento de privatização das terras com a crise da dívida dos anos 1980 nos países da América Latina e parte da África, segundo a pesquisadora. Trata-se de uma crise constituída, já que foi emprestado o que não se consegue pagar e intervém no processo de recolonização. A partir daí muitas pessoas foram obrigadas a abandonar seus campos.

No fim de sua apresentação, Silvia comentou que em várias partes do mundo já está sendo construída ações revolucionárias mais coletivas: grupos de pessoas que estão pensando de forma mais ampla o espaço, o tempo e a estrutura. Essas possibilidades são transformações de construção de novas formas de viver, uma recriação de vida comunitária.

Suas publicações

O livro A revolução ao ponto zero. Trabalho doméstico, reprodução e lutas feministas é uma coleção de textos escritos durante mais de 40 anos de ativismo e luta feminista, dos anos 1970 até nosso tempo atual. O livro combina uma posição estritamente internacionalista e autonomista com a tradição da crítica marxista e anticapitalista, contrastando o pensamento de autores tais como Michel Foucault ou Antonio Negri e Michael Hardt, a partir de uma posição feminista.

Já em Calibã e a bruxa. Mulheres, o corpo e a acumulação primitiva é um clássico da literatura feminista e livro referência da análise histórica sobre a integração do corpo feminino e a reprodução biológica na máquina de produção capitalista. Partindo da figura shakespeariana do Calibã e seguindo a história da caçaàs bruxas pela Inquisição, a autora detalha como a hiperexploração do corpo feminino é fundamental e inseparável para a lógica capitalista no seu surgimento nos séculos 16-18. Ela explica também como desde que existe exploração também existe resistência dos corpos e dos saberes propriamente femininos.


Serviço:

Acesse o livro Calibã e a bruxa. Mulheres, o corpo e a acumulação primitiva, disponível para download: http://coletivosycorax.org/indice/


Imagem: Divulgação
Data original da publicação: 06/09/2016