Historiador e antropóloga contextualizam a importância da história do Brasil para compreender desigualdade social e educação integral no ensino público

15161“O Brasil não é para principiantes. Estamos numa época que a educação não é um direito”, afirmou Maria do Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM, foi mediadora do primeiro painel A Educação e a República no Brasil do 2º Seminário Internacional de Educação Integral (2º Siei), no auditório do Sesc Consolação, realizado na quarta passada (19/10).

O primeiro painel foi ministrado pelas autoras do livro Brasil – Uma Biografia, da Companhia das Letras, lançada ano passado: Lilia Moritz Schwarcz, professora do departamento de antropologia da Universidade de São Paulo, e Heloisa Starling, professora titular de história do Brasil da Universidade Federal de Minas Gerais.

Lilia começou falando do Brasil como um país bem mestiço e com tantos problemas que o segregam. “É tão marcado pela desigualdade, que há necessidade de chegar na cartela de direitos. Costumo dizer que temos marcadores de desigualdades de contrastes, que muitas vezes se apresentam conjuntamente”.

Por meio de quadros, Lilia explicou ao público o processo de colonização do Brasil. “Naquela época se falava de Novo Mundo, não tinha nada de novo. Faziam antropofagia e não canibalismo, como falavam. Antes era cultural comer só o inimigo forte”.

A professora também atentou que os indígenas já passavam por escravidão antes mesmo dos negros, nas plantações de cana-de-açúcar. “É possível imaginar uma boa escravidão? Aqui no Brasil foram 25 anos de trabalho forçado e nos Estados Unidos, 35 anos. Isso foi condicionado pelo sistema cartografado”, afirmou a professora. Também recordou-se que os castigos físicos aos escravos, em Salvador, ocorriam no Pelourinho para que todos vissem e sentissem o castigo. “Estamos num mundo de muita violência”.

A professora atentou ainda que a escravidão é uma circunstância e é necessário falar isso e explicar por meio das convenções aos alunos nas salas de aula. “Nós, educadores, conseguimos ler criticamente esses documentos. São questões do passado, mas não estão só lá. Essas questões se mantém. E a gente só cria regras quando há necessidade”, ressaltou a palestrante e ainda disse que o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão.

Por meio de quadros, ela explicou ainda a teoria de embracamento da população, em que se defendia que era considerado bom casar-se com um homem branco. Também mostrou que em 1888 os escravizados libertos usavam sapatos para sinalizar sua liberdade. Muitos, com pés inchados por andar muito a pé, não
conseguiam usá-los.

Essa situação de desigualdade com os afrodescendentes persiste. Lilia ressaltou que essa população ainda é excluída de muitos serviços. Eles ainda possuem menos chances de educação de qualidade pública, mais chances a serem condenados e altos índices de assassinatos de jovens negros. Para retratar essa situação, ela apresentou dois quadros: Um Jantar Brasileiro, de Jean Baptista Debret; Filho Bastardo, de Adriana Varejão. Neles ela comentou que a sociedade brasileira é ainda múltipla, com muitas misturas culturais e raciais e isso também causa muita tensão. “Como disseram no início do evento, educar é escolher, mas sobretudo oferecer”, defendeu.

Do lado de direitos, ou ausência deles

Heloísa Starling falou mais sobre viés de direitos. “Nós precisamos de direito, isso é bem importante de dignidade humana. Convivemos em uma realidade perturbadora. Uma das principais ameaças é a realidade de direitos para uma parte da população. São objetos de discurso de direitos e isso não é de hoje. Ela coloca isso em risco. O catálogo de direitos foi colocado em risco, é necessário entender como, voltar nossa história com perguntas e fornecer ferramentas sobre essa realidade”.

Segundo a historiadora, sem a garantia de direitos civis não tem como garantir a liberdade individual e, consequentemente, sem cidadania, nem os direitos políticos. “Nossa percepção é questionada e do que são esses direitos”, afirmou Heloísa que ainda ressaltou que John Adams no século XVIII, quando soube da Declaração de Independência, ressaltou a ausência da questão de direitos. Já em Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau, os direitos também foram debatidos.

A professora contextualizou que as revoltas brasileiras, como a Conjuração Baiana e outras que ocorreram em Minas Gerais e no Rio de Janeiro incentivaram posturas democráticas. Ela explicou que os baianos propunham na época uma democracia inclusiva e distribuíam até panfletos todo dia de manhã e falava de problemas destinados para a população mais pobre de Salvador. Haviam dois tipos de panfletos: um voltado a problemas da população mais pobre com soluções e outro com avisos elaborados com mais detalhes de programas e apareciam com princípios revolucionários. Dessa forma, a República é atingida. “O risco da descaracterização dos direitos impacta na imagem da República”, afirmou a historiadora que comentou que essa expressão virou meda e não possui mais sentido único. E ainda disse: “O republicanismo é um jeito que pensamos o repertório de valores apresenta os princípios republicanos e o direito do cidadão de participar de qualquer forma de tirania”.

Heloísa ainda defendeu que está no momento certo para a sociedade usufruir os valores comuns: uma República com espaço para amizade, tolerância, generosidade, compaixão e solidariedade. “Nós temos um legado e é importante trazer do passado e se reencontrar na tradição dos direitos. Talvez não esteja na hora de se reencontrar. Quem sabe a República não sabe recomeçar?”.


Serviço:

Acesse aqui o site do 2º Seminário Internacional de Educação Integral: http://www.sieibrasil.com.br/


Data original da publicação: 25/10/2016