Grupo atua no esclarecimento de dúvidas e em defesa da diversidade sexual

“Este projeto só existe pelo trabalho voluntário dos jovens”. A afirmação de Wesley Silva, 19 anos, define a dinâmica de trabalho do grupo E-Jovem, que começou com um chat entre jovens homosexuais e se tornou um site, que aborda a sexualidade, para adolescentes e escrito por eles.

Criado pelo jornalista André Ribeiro, em agosto de 2001, o site e-Jovem pretende a esclarecer dúvidas de jovens homossexuais. “Quando descobri que era gay, passei por uma fase de insegurança, porque achava que só eu passava por aquela angústia. Até hoje muitos olham a homossexualidade como um problema. Por isso, o site pretende informar, interagir com este jovem”, explica André.

Muitos jovens procuram a internet para esclarecer dúvidas sobre sua sexualidade, já que sentem medo de procurar seus pais ainda mais quando são homossexuais que há a questão do preconceito. Um grupo de amigos conversavam à noite pelo chat para trocar experiências até que alguns deles decidiram criar um site. Alguns saíram e se envolveram com outros projetos, mas muitos colaboradores apoiaram o site, como Rogério Munhoz, colunista da G Magazine; o cartunista Laerte; o advogado e militante Paulo Mariante e outros profissionais formaram o grupo E-jovem.

Junto com o site E-jovem, foi criada uma lista de discussão por email que reproduz na prática aquele chat inicial. Segundo André Ribeiro, crise de identidade, definição entre gay ou bissexual, problemas familiares são os principais assuntos discutidos. Uma pesquisa feita pelo grupo constatou que seu público-alvo é formado por adolescentes e jovens de 14 a 21 anos.

“Quando me assumi, já estava independente de meus pais. Não tive problemas com família nem na universidade. Um dos principais problemas é que a sociedade não dá o poder de discernimento ao adolescente. Acha que é apenas uma fase”, acredita André..

O site e-jovem apresenta notícias da mobilização jovem homossexual pelo mundo, informações de prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis (DST/Aids), homofobia, religião, relacionamentos com amigos e familiares. Há ainda colunas de jovens voluntários que esclarecem dúvidas de relacionamento amorosos e familiares para gays e lésbicas. Os especialistas também ajudam os jovens, respondendo questões relacionadas às áreas de Direito e Psicologia.

Do real para virtual

Com a intenção de fazer algo pelos jovens gays, lésbicas e bissexuais do país, André transformou o grupo e-jovem numa ONG. “Não foi fácil, porque muitos se defendem pelo anonimato e ainda estão numa fase de se aceitar para depois se exporem à sociedade. Eles passam por vários processos. Primeiro têm que se aceitar como homossexuais e assumirem para seus pais, depois querer fazer alguma coisa”, esclarece.

André Ribeiro contou que a partir da sua participação no site e na lista de debates percebeu a falta de informação dos pais destes jovens, que se guiavam geralmente por estereótipos dados pela mídia e Igreja. Para ajudar os jovens a viverem de forma tranqüila com sua orientação sexual, em 2002, a terapeuta Ana Maria Ribeiro, mãe do fundador do site e-jovem, formou o Afagho, um grupo criado para dar suporte aos pais desses jovens que promove reuniões de pais e familiares em Campinas, além da assessoria terapêutica individual e a grupos homossexuais, como o grupo E-jovem. “Queremos mostrar aos pais e à sociedade que isso que estamos fazendo não é uma coisa suja, errada e que deve ser secreta”, justifica.

Em fevereiro, houve um encontro nacional de pais de jovens homossexuais e serviu para troca de experiências de pessoas que vivem em diversas regiões do país, mas passam pelas mesmas dificuldades. “A falta de conexão dos pais agrava a situação de isolamento do debate de homossexualidade como aconteciam com os jovens antigamente, que não tinham tanto acesso a internet”, aponta o idealizador do e-jovem.

Hoje existem 11 regionais do e-jovem espalhados pelo país. De acordo com André Ribeiro, a ONG estimula que os jovens sejam protagonistas e defendam ações para diminuir o preconceito e falta de informação contra o homossexual. No encontro de Campinas, os jovens expõem seus problemas, angústias do dia-a-dia e trocam experiências com outros jovens da mesma idade. Contam ainda com participação de psicólogos, advogados, militantes da Parada Gay de Campinas, dentre outras pessoas.

César Augusto de Barros Bertelli, 16 anos, é estudante do 2º ano do Ensino Médio e conheceu o site por indicação de um amigo no ano passado. O adolescente defende um dos projetos da ONG que é o Programa Escola Jovem. Trata-se um plano de ações para serem desenvolvidas nas escolas por educadores ligados ao movimento Gays, Lésbicas e Aliados (GLA), sejam bissexuais, travestis e/ou heterossexuais.

Este programa pretende trabalhar nas escolas por meio de palestras para professores, funcionários, pais e alunos da escola, abordando diversidade sexual e isso como afeta o ambiente escolar. Planeja-se ainda promover bate-papos entre os alunos heterossexuais e homo, bissexuais e transexuais para troca de experiências e conhecimento de realidades que muitas vezes podem ser bem parecidas entre eles. O projeto abrange ainda vídeos educativos, cartazes informativos, encenações teatrais e parcerias com outras entidades que lutam pela mesma causa.

Em Campinas, o programa já foi aplicado em três escolas municipais e cinco estaduais, mas objetivo é ser um trabalho contínuo com a rede pública de ensino. A entidade luta para que a prefeitura apóie esta iniciativa.

Além do e-jovem, César trabalha há um mês numa entidade chamada SOS Adolescente na promoção de palestras sobre DST/Aids, drogas, entre outros assuntos de saúde.

“Como já atuava no e-jovem, não passei por uma formação. Também é trabalho voluntário e gosto, porque me sinto bem ajudando outras pessoas que precisam de informação. Além disso, tanto o e-jovem quanto a SOS ajudam no meu amadurecimento”, conta o estudante.

O jovem voluntário teve oportunidade de dar algumas palestras numa escola pública de Campinas, interior de São Paulo (SP). Ele ficou responsável pela escolha do tema, o espaço para conversarem com os alunos e a divulgação do evento. “No começo foi difícil, depois foi interessante, porque muitos heterossexuais tinham curiosidade de saber como era se relacionar com pessoas do mesmo sexo, se nossos pais aceitavam e outras dúvidas”, revela.

Aira Teixeira Corerato, 16 anos, é outra e-jovem de Campinas e ajuda César na articulação de palestras e debates sobre temas que norteiam a homossexualidade. A estudante também conheceu o site por indicação de um amigo. “Quando assumi aos meus familiares, tive apoio de meu pai e irmão, apenas minha mãe não aceita até hoje minha orientação sexual”, esclarece.

O pai de Aira participa de alguns encontros do Afagho e apóia sua filha para participar dos encontros do e-jovem. Foi a ONG que deu a oportunidade da jovem conhecer melhor o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA). “Adoro meu trabalho voluntário no e-jovem e ajudo a debater diversidade sexual para construir um mundo melhor e com menos preconceito. Antes tinha medo, mas agora conheço meus direitos e quero divulgá-los na escola com outros jovens que tem uma orientação sexual diferente da minha”, explica.

Em São Paulo, a filial do e-jovem foi retomada em julho de 2005, quando Wesley Silva, 19 anos, e outros jovens assumiram a coordenação. O estudante de Publicidade conheceu primeiro a lista de debate do e-jovem e depois foi aces sar o site. Identificou-se com os assuntos abordados e participou ativamente até que foi convidado para coordenar o grupo de e-jovens na capital paulista.

Segundo André Ribeiro, cerca de 300 jovens participam da lista de e-mails, sendo que metade deles é da capital paulista. Por isso, Wesley tem a responsabilidade de unir estes jovens para discutirem dúvidas, projetos para diversidade sexual e outras temáticas. Espera ainda contar com a ajuda da Coordenadoria dos Assuntos de Diversidade Sexual (CADS), da prefeitura de São Paulo, para implantar o Programa Escola Jovem.

O jovem assumiu sua orientação quando foi para a coordenação do e-jovem de São Paulo. “Não agüentava ser duas pessoas. Uma com meu namorado e outra para minha família. Entre viver e ficar escondido optei por viver e me assumir”, conta.

Wesley acredita ser fundamental essa sua atuação voluntária para ajudar outros jovens que passam por este período de transição e querem assumir sua orientação sexual, mas falta coragem e não têm com quem desabafar. “Este grupo é importante para juntos tentarmos diminuir o preconceito”, defende.

Serviço:

André Ribeiro
Tel. (19) 9136-1950
www.e-jovem.com
grupo@e-jovem.com
Para esclarecer dúvidas e falar com o Afagho, envie para o email afagho@e-jovem.com

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