Gotas de Flor com Amor investe em horta e incentivo à leitura para desenvolvimento integral de crianças e adolescentes

especial-interna-gotascomamorUm limpa e ajuda a encontrar minhoca na composteira, o outro cava um buraco na terra e separa as sementes para plantar. São crianças de seis a nove anos que aprendem como plantar hortaliças, frutas, ervas e diferentes plantas. Essa é mais uma aula de horta do projeto Saúde Integral, que ocorre todas as segundas na ONG Gotas de Flor com Amor, no bairro do Campo Belo, na zona sul de São Paulo.

Localizado em um dos bairros de classe média alta e ao lado de uma das favelas da zona sul da capital paulista, a entidade atende crianças, adolescentes e jovens para estimular atitude cidadã e inclusão social. São oferecidas diferentes atividades: oficinas lúdicas, de informática e cidadania.

A oficina Reciclando para a Vida é destinado a adolescentes e jovens de 14 a 16 anos. Para isso, eles recebem capacitação em informática, produção de papel reciclado, de serigrafia e de pintura em seda. Também são preparados para o mercado profissional, encaminhado para o Programa Jovem Aprendiz.

O Gotas é formado por cinco unidades e um Ônibus Biblioteca. Uma dessas unidades é o Abrigo Anália Franco, desde 2000, com parceria com a Prefeitura de São Paulo. Lá vivem 20 crianças e adolescentes de três a 17 anos de idade, em tempo integral e são encaminhados pela Vara da Infância e Juventude. Oferece seis refeições, acompanhamento médico e escolar e capacitação para inclusão no mercado de trabalho.

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Crianças aprendem cada etapa para plantar na horta

O começo: florais nos faróis

A idealizadora da organização, a psicóloga e terapeuta floral, Denise Robles, começou sua atuação social em 1991, quando decidiu atender voluntariamente crianças, jovens e suas famílias que vendiam doces nos faróis de São Paulo. Fazia atendimento com terapia floral para ajudar no equilíbrio emocional desse público.

Após dois anos, conseguiu sede própria com apoio do Instituto C&A, Credicard e Fundação Vitae e colaboração de dois amigos: Orlando Modesto e Carlos Viacava. A partir daí, a organização oferece atendimento integral a crianças, adolescentes e jovens e suas famílias. Atualmente consegue atender 200 crianças diretamente, além dos moradores da região que são impactados por suas ações e instalações, como a quadra esportiva e o ônibus biblioteca.

Segundo a psicóloga, atualmente a organização está com sua metodologia pedagógica sistematizada e uma equipe bem formada. O desafio é aumentar a visibilidade da organização, para contribuir no aumento de parceiros e na captação de recursos.

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As atividades na horta ocorrem nas manhãs das segundas-feiras

A organização também conta com trabalho voluntário de funcionários de grandes empresas. Hoje são mais de 10 empresas que oferecem funcionários em determinados dias e horários para contribuírem com alguma ação dentro da entidade. Denise comentou que essa ajuda varia muito, depende do perfil dos profissionais. Em geral, são divididos em estações de trabalho para auxiliar em trabalhos, como jardinagem, organizações de doações de materiais, descrição e organização dos livros na biblioteca, entre outros. Todas as manhãs do segundo sábado do mês há palestras sobre a entidade para novos voluntários.

A organização ficou conhecida pela terapia floral, mas nos últimos anos com a redução do número de terapeutas é feito por voluntários e só é destinado a crianças e adultos atendidos pela organização. Os atendimentos são feitos em grupos na maioria dos casos, exceto aqueles que precisam de maior cuidado são atendidos individualmente. Na metade do ano passado, quando uma favela próxima passou por um incêndio, a equipe do Gotas distribuiu florais aos moradores para combater os sentimentos de tristeza, angústia e ansiedade.

Com experiência de mais de 20 anos no atendimento a crianças, Denise observa também a mudança de comportamento com impacto da tecnologia. “Antes eles eram envergonhados, quase não falavam e ficavam muito de cabeça baixa. Essa atitude era considerada por muitos como ‘bonzinhos’. Só que isso não é saudável. Hoje eles estão mais ativos e criativos. Consequentemente, isso exige mais recursos para manter a atenção deles. Estão mais ansiosos. A própria educação está diferente e, por isso, trabalhamos muito com valores humanos. Observamos que diminuiu o número de pessoas que vivem nas favelas, mas aumentou os casos de violência”, notou.

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Bibliotecária indica livros e gibis seguindo a faixa etária e os gostos das crianças

Ler para brincar

A leitura é outra atividade bem estimulada dentro da organização. Alunos da organização e moradores da região podem visitar a biblioteca e pegar emprestados livros, revistas e outras publicações todos os dias da semana. Segundo a bibliotecária Rosemary Franzoni, cerca de mais de 30 pessoas passam por esse espaço todos os dias.

Com nove anos de atuação dentro do Gotas, Rosemary comentou que o espaço estimula diferentes atividades, como rodas de leituras, conversas sobre datas comemorativas, Vivendo Valores, entre outras. Além de organizar o espaço, desenvolver as atividades que estimulem e agucem a curiosidade das crianças e adolescentes, a bibliotecária costuma dar dicas de livros seguindo a faixa etária deles.

“Os livros mais pedidos são sobre literatura brasileira e estrangeira. A coleção Querido Diário Otário e os gibis da Turma da Mônica Jovem e Diário de um banana são também bastante emprestados aqui”, comentou Rosemary. Atualmente a biblioteca possui 10 mil livros. Cada um recebe uma classificação numérica, por cor e de faixa etária. Também há outros tipos de obras das seguintes áreas: filosofia, educação, religião, sexualidade, música, artes, etc. Cada publicação é emprestada durante sete dias, que pode ter até três renovações.

A jovem Maria Ciberlana participa do Reciclando para a Vida e está no primeiro ano do ensino médio. É uma das frequentadoras do espaço. Gosta de ler a coleção Querido Diário Otário, Poderosa e os de histórias de bruxas. Enquanto folheava o livro Abafa! Fofocas blogásticas de Sofia, ela comentava que seus amigos não têm muito o hábito da leitura, eles preferem ler as mensagens dos aplicativos do celular e do Facebook. Para escolher um livro, a jovem considera a quantidade de imagens. Ela prefere os que têm poucas, com mais texto.

A Emily é outra frequentadora assídua. Leitora dos gibis da Turma da Mônica, sua personagem predileta é a Magali. Ela fica impressionada como a personagem tem tanto prazer em comer.

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João Gabriel é leitor assíduo e visitante do Ônibus Biblioteca

Plantando bons valores

O fisioterapeuta e idealizador da horta, Rodrigo Robles, que esse espaço faz parte do projeto Saúde Integral, em que a ideia é mostrar para as crianças as noções de terapia floral, conceitos de saúde, a origem dos alimentos e outros fatores. Há um ano e meio a organização possui a horta, que é baseada na permacultura – prática que envolve métodos holísticos para planejar e manter sistemas ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis. “O interessante dessa cultura é a observação do tempo de crescimento de cada planta. Aproveito também para dar dicas de higiene pessoal, como escovar os dentes, lavar as mãos e tomar banho”.

Em uma das atividades, Rodrigo pediu para as crianças desenharem sobre saúde. A maioria das imagens eram relacionadas com hospitais. “A ideia da horta é justamente para mostrar a importância da saúde e não é produção em alta escala. É interessante mostrar o ciclo de produção dos alimentos e apresentar os elementos que contribuem para melhorar”, observou.

Hoje a horta tem hortelã, cebolinha, milho, batata doce, erva cidreira, berinjela, alface, tomate, feijão, entre outros. O professor está observando que as crianças que participam dessa atividade estão consumindo mais verduras e legumes, frutas e hortaliças em geral. “Eles reparam no tempo que leva para amadurecer cada plantio”.

Aos sete anos, Nicole Kimberly gosta de plantar e já tem uma familiaridade, porque em sua casa tem jardim e horta. Ela gosta de ver crescer cada planta, espera assistindo TV e lendo um livro. “Adoro as minhocas. Faço carinho nas costas delas. Coloca mais terra em cima delas para ficarem felizes”.

Já Andressa Alves Possebom, seis anos, também gosta de mexer na terra, mas assume que tem nojo de procurar minhocas. O Roberth Barbosa, de oito anos, já começa a falar que gosta do professor e ajuda regando a horta.

Na cozinha

Maria Piedade Araújo é uma das cozinheiras da organização e conta que seus filhos já foram atendidos pela organização e atualmente possui três netos nas atividades do Gotas. Com 18 anos de trajetória na organização, a cozinheira prepara três refeições diariamente: café da manhã, almoço e lanche da tarde.

Antes do Gotas, era cuidadora de idosos. Não tinha experiência com trabalho social antes do Gotas. Quando foi trabalhar lá, ela conseguiu reunir duas coisas que gostava: trabalho social e ficar perto de crianças. “Para trabalhar com crianças, precisa gostar”. Seu sonho é curso técnico de enfermagem, porque gosta muito de cuidar as pessoas e da área da saúde.

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A estagiária compartilhou que aprende muito com as crianças aos sábados no Ônibus Biblioteca

Manhãs de sábados

A praça Friedrich Naumann, localizada no Campo Belo, a duas quadras da sede da organização, recebe o Ônibus do Conhecimento todos os sábados, das 10 às 13 horas. Além de ser um espaço para leitura, as crianças lêem nos puffs, dentro do ônibus e brincam montando quebras-cabeças, futebol de botão, entre outros. Aos poucos, cada um escolhe seu livro para passar o tempo, aprendendo e se divertindo com os irmãos, amigos, muitos acompanhados pelos pais e avós.

Há três anos Rosemary recebe ajuda da estudante de administração, Marleide Almeida dos Santos, 28 anos, voluntária, que costuma ir aos sábados, de 15 em 15 para ajudar nas atividades do ônibus. Ela comentou que se sente motivada quando vê as crianças cada vez melhores em suas leituras e o interesse aumentando a cada semana.

A estudante sai de sua casa às 07h30 e pretende continuar com essa ação voluntária depois de formada. A voluntária também compartilhou que o trabalho com as crianças a ajudou a ficar mais desinibida na apresentação de seminários e palestras em sua faculdade. Marleide ajuda na contação de histórias e a estimular a criança a ler. “Meu sábado aqui é uma alegria e aprendo muito com as crianças com suas perguntas curiosas”.

João Gabriel Ramos de Lira é aluno da organização desde 2011. Ele gosta de livros e vai aos sábados para visitar Rosemary e ler os gibis da Turma da Mônica. O estudante da terceira série do ensino fundamental também adora o futebol de botão. Antes do ônibus biblioteca, ele ficava assistindo televisão e jogando videogame. Sua mãe, Silvana Ramos de Lima, 37 anos, auxiliar de serviços gerais, comentou que ele vai muito bem na escola e valoriza que João participe de atividades de leitura.

O adolescente Luan Gomes Nascimento, 13 anos, costuma levar seu irmão mais novo para a praça e acaba brincando lá também. O estudante do nono ano do ensino fundamental é aluno da organização desde 2009. “A leitura é importante e ajuda a conhecermos mais palavras. Quando leio, eu aprendo novas palavras”, observou.

Seu irmão, Cauã Gomes do Nascimento, sete anos, é educando do Gotas e frequentador do Ônibus Biblioteca. Leitor assíduo dos gibis da Turma da Mônica Jovem, ele também adora brincar de pescar e pular corda. O pai, Abraão Silva Nascimento, 34 anos, folguista, gosta de deixar seus filhos aos sábados lá. Ele leva os dois filhos de bicicleta para a praça pela manhã e depois vai buscar para chamar para o almoço. “Acho bacana esse espaço para as crianças daqui do bairro. É uma forma deles não ficarem na rua sem opção de lazer e aproveitam para treinar a leitura”, comentou o pai.

Serviço:

Site da organização: http://gotasdeflor.org.br/
Conheça o programa Gotas de Sustentabilidade: http://goo.gl/jqR4wj

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