Gênero e sexualidade são temas de seminário em SP

O encontro possibilitou a troca de experiências educomunicativas para mostrar importância do debate desses assuntos.

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Especialistas defendem pauta educomunicativas para formação crítica de estudantes. (Crédito da imagem: Jefferson Rozzeno/ViraçãoEducomunicação)

Falar e mostrar ações educomunicativas sobre gênero sexualidade foi o tema central do encontro na tarde da última terça-feira (01/08) no auditório do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no centro de São Paulo. Com o título Educação, Gênero e Sexualidade: desafios e boas práticas, o encontro teve o objetivo de debater desafios e oportunidades para promover a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos entre adolescentes e jovens, para afirmar a diversidade e combater as desigualdades em diferentes processos de aprendizagem.

Para discutir esse tema, participaram: Maria Rehder, educomunicadora, coordenadora da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e vice-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom); Lisandra Pingo, mestranda em psicologia da educação na Universidade de São Paulo, pós-graduada em política de promoção da igualdade racial na escola e em trabalho docente e educação étnico-racial; Paulo Lima, jornalista e idealizador da Viração Educomunicação; Jonathan Moreira, jovem participante do programa Melhor Sabendo Jovem; e Paula Bonfatti, analista de comunicação na Viração Educomunicação.

O primeiro painel teve como título Cenários no campo da educação e promoção dos direitos sexuais e reprodutivos de adolescentes, com Maria e Lisandra. Lisandra falou da importância de lidar com os estudantes de forma mais humana, buscar ao máximo garantir os direitos humanos. “É fundamental pensar nessa singularidade do público que estou trabalhando e abrir mão do privilégio e respeitar os outros”. Compartilhou com o público o que costuma trabalhar em sala de aula com seus alunos: trechos de músicas, manifestações culturais e algumas memórias temáticas. “Nas escolas ainda enfrentamos dificuldades grandes com as questões de gênero, etnia e sexualidade, disputa de poder, de reconhecimento”.

A educadora ressaltou que o currículo é um documento político. Ainda a questão de gênero não é discutida nele, ou aparece implicitamente a história e cultura africana. A professora exemplificou essa questão afro com a análise que costumam fazer do livro de literatura infantil chamado A menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado. Ela defendeu a importância de escolher livros referências e sempre se preocupar com as múltiplas identidades e singularidades. “Hoje as escolas possuem os currículos eurocêntricos, de cristãos colonizados, machistas, heteronormativos, grafocêntricos e padronizados”. Por outro lado, ela observa a necessidade de se trabalhar com o estudante real em sala de aula: “Ele precisa ser reconhecido com suas múltiplas identidades e culturas, deficiências e etnia, faixa etária, situação socioeconômico, gênero, sexualidade e perfil psicólogico. É preciso desconstruir”.

Maria focou sua fala nos planos de educação e sua visita com a equipe técnica da área de educação para denunciar violação dos direitos dessa área e de direitos humanos. Foi para Genebra em setembro de 2015, acompanhada com um dos representantes da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) para elaborar documentos com relatos de casos de violência aqui no sistema público de ensino brasileiro, incluindo corte de recursos para a construção de creches, processo de militarização nas escolas do Estado de Goiás e outros casos na época. “Conseguimos após insistir muito ficar 45 minutos em reunião com as portas fechas com especialistas da Nações Unidas (ONU), que questionaram cada ponto apresentado. Em novembro do ano passado, saiu documento da ONU ao Brasil que deveria incluir a expressão gênero no currículo escolar. Eles traduziram as práticas do Brasil como atitudes patriarcais”.

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Público do evento majoritariamente da área de educação. (Crédito da imagem: Jefferson Rozzeno/Viração Educomunicação)

A educomunicadora também mostrou o documento original da ONU expedido no dia 13 de abril deste ano em Genebra para a Embaixada do Brasil em que combatia a Escola Sem Partido. Ela ficou por mais tempo do que o programado, porque ocorreu o episódio do vereador Fernando Holiday em algumas escolas públicas para monitorar como os professores faziam as atividades de gênero no dia a dia. O secretário de Educação de São Paulo nessa época pediu demissão. Prolongaram por mais o tempo sua visita em Genebra para reunir mais denúncias na área da educação. Também apresentou esta notícia publicada no dia 13 de abril no Estadão: Relatores da ONU classificam “Escola Sem Partido” como censura.

Maria citou ainda a Frente Gaúcha Escola Sem Mordaça, em que combate o projeto de lei da Escola Sem Partido. “Estamos organizando vários movimentos para tornar público e levar para as escolas esses documentos internacionais e esses projetos de lei”, afirmou. A comunicadora ainda explicou que se o país não cumpre as medidas recomendadas pela ONU, sua denúncia chega até o Conselho da ONU, um processo diplomático. “Nesse caso, a Finlândia pressionou o Brasil e nós fomos de embaixada em embaixada de diferentes países para mostrar documento com denúncias nesse segmento”. Ela informou que no dia 05 de maio a ministra da educação do Brasil foi enviada para Genebra para acelerarem algumas recomendações indicadas por esse órgão internacional. “Foram 45 países que questionaram o Brasil sobre esses fatos, sendo 26 citaram que o país deveria se atentar mais ao Plano Nacional de Educação e levantaram a importância da questão de diversidade”.

Educação entre pares

Com o título A educomunicação e a educação entre partes como estratégias para a promoção dos direitos sexuais e reprodutivos de adolescentes, o jornalista Paulo ressaltou a importância sobre escutar histórias e quem tem o poder da fala. “Crianças e adolescentes têm si o poder da fala e nós, adultos, temos a responsabilidade criar os canais para as tomadas de decisões”.

Paulo comentou que os pais desses adolescentes e jovens já foram envolvidos em ações. “Tem que viver a educomunicação, procurar unir as iniciativas e colocar tudo junto esses ambientes para contribuir com muito mais eficácia”.

Comentou que é interessante observar como os adolescentes e crianças ficam após as formações educomunicativas, em que participam de atividades de fotografia e de vídeos e troca de saberes com seus pares, outras pessoas de forma horizontal. Em 2008, A Viração e Unicef desenvolveram um kit com um guia de orientação aos jovens e pais.

“Os próprios colaboradores da Viração também se transformaram. Vivemos processos muito íntimos. Quando priorizamos 1+1, valorizamos as relações, as pessoas e os sonhos e não apenas números”, afirmou. O público jovem que participa dessa formação da Viração também se descobre outras pessoas. A escola e a família não aceitam muitas vezes e a equipe da organização também procura criar instrumentos para fortalecer e empoderá-los.

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Público questionou como era abordagem ao público no Largo do Arouche para influenciar mais pessoas para testagem de HIV. (Crédito da imagem: Jefferson Rozzeno/Viração Educomunicação)

Jonathan foi agente do projeto Viva Melhor Sabendo Jovem de São Paulo – uma iniciativa de formação e mobilização de jovens em direitos sexuais e reprodutivos para sensibilização, prevenção e testagem rápida para o HIV. Contou que às sextas e sábados iam em uma van para oferecer testes de HIV no Largo do Arouche, centro de São Paulo. Tudo gratuito. “Temos uma formação em formato de oficina e usamos a plataforma digital com várias informações sobre sexualidade. Na capacitação também é fornecida dicas e sugestões sobre como trabalho esse tipo de informação e a pares”, disse o jovem que ainda falou que os jovens se sentiam mais confortáveis em compartilhar suas dúvidas com outros jovens.

Essa iniciativa era voltada para homens que fazem sexo com outros homens. Ele observou que os professores ainda têm dificuldade em como lidar com os corpos “transgressores” de seus alunos e no projeto eles tentavam acolher da melhor forma possível. “As pessoas vão ao Largo do Arouche para fazer tudo, menos teste de HIV. É difícil chegar nessa pessoa. Primeiro a pessoa vai lá na van para buscar preservativo, depois um gel, aí depois decidi fazer o teste. É um processo.

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Jonathan convidou o público para montar um boneco de papel para mostrar o corpo humano. (Crédito da imagem: Jefferson Rozzeno/Viração Educomunicação)

Boas práticas

A analista de comunicação da Viração apresentou os materiais de comunicação elaborados em projetos e oficinas pela equipe da organização para contribuir com os educadores sobre questões de gênero, sexualidade e direitos sexuais e reprodutivos. “A nossa ideia é compartilhar todo esse material com todos os educomunicadores e educadores que atuam nesse segmento”.

A jovem apresentou o Guia de Participação Cidadã (https://issuu.com/portfolio_viracao/docs/guia_participacao_final), publicação divulgada há dois meses, e nas próximas semanas será lançada o Guia sobre Gênero e Sexualidade para Educadores.

Participaram mais de 70 pessoas neste encontro, a maioria da área da educação. “A nossa proposta era apresentar essas ações educomunicativas para outros profissionais dessa área compartilharem práticas, dificuldades e fazerem seu networking”, concluiu.

Acesse aqui edições da Revista Viração e publicações da organização: https://issuu.com/viracao