Fundraising em tempos de mudança

Consultor mexicano compartilhou sua experiência em um dos principais eventos da área de captação de recursos em SP.

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Mexicano mostra estrutura de plano de captação de recursos em organizações sociais. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

“O processo de captação cumpre um ciclo e desgasta a equipe. Por isso, acredito que é importante renová-la para uma nova missão”, afirma Juan Manuel Maya, consultor do Programa de Fortalecimento da Sustentabilidade Institucional do Projeto Misereor do México. Sua palestra foi na manhã do terceiro dia do Festival ABCR, organizado pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos, que ocorreu entre 09 e 11 de junho no Centro de Convenções Frei Caneca em São Paulo. Com o tema O Futuro da Captação de Recursos no Brasil do Futuro, o encontro teve o objetivo de trocar e debater o conhecimento sobre como mobilizar mais recursos para as organizações da sociedade civil e suas causas.

Juan compartilhou sua trajetória profissional na área de mobilização de recursos dentro das organizações nos Estados Unidos e México. Atualmente está trabalhando no Projeto Misereor. Trata-se de uma das principais organizações que apoia entidades de base na defesa de direitos humanos no México, especialmente aquelas de direitos territoriais.
O palestrante comentou que eles fizeram inicialmente entrevistas com nove organizações para fortalecer e estruturar a campanha para alinhar: compromisso das lideranças, procedência de uma pessoa na área de comunicação, identificar pessoas da equipe para acompanhar o processo, isenção de impostos, previsão de financiar para co-investir no recrutamento de uma pessoa dedicada para a captação – compartilhar avaliações com outros parceiros de Misereor.

No contexto mexicano, ele enfatizou que é uma população jovem e altamente urbanizada: 80% dela vive em ambientes urbanos. A solidariedade é observada por ações nas igrejas e estruturas informais. Os mexicanos preferem doar dinheiro, ou doações em espécie diretamente para as pessoas afetadas. Apesar das melhoras, ainda há níveis de desconfiança nas organizações sem fins lucrativos e no uso correto dessas doações. Um dos desafios é encontrar profissionais da área de captação de recursos, já que o México ainda possui um mercado filantrópico relativamente novo. Há ainda uma projeção de crescimento desse mercado três vezes menor que a do Brasil. E, por fim, a doação mensal é em torno de US$ 10.

Ele mostrou o processo para o planejamento da captação. O primeiro é baseado nas análises das bases de união do processo institucional, avaliando as fontes financeiras para o setor social administrando os programas no passado, com clara comunicação, distribuição política e divisão em programas potenciais. No segundo, enfoque na estruturação de um acervo institucional, incluindo uma análise do mercado interno e externo, definição de público-alvo, com primeiro cronograma anual de atividades, trabalhos com comunicação e público. “Costumo fazer as coisas paulatinamente com cronograma e aprendizados no caminho. Tem que errar, só vai aprender errando mesmo. Esse medo de errar permeia todas as organizações. Elas não querem tocar no assunto que não deu certo e não é bem por aí”, enfatizou Juan.

No passo seguinte, ele falou que é feita a preparação do plano de captação de recursos, incluindo a elaboração de índice, que contribui para acompanhar o processo, designar os responsáveis internos da equipe, definição de ferramentas necessárias e estratégias concretas. E, na última etapa, início das ações de captação. Ele sugeriu ajustes finos do plano antes do seu lançamento, com ferramentas de monitoramento durante um período específico.

No programa de doadores individuais, ele explica que é necessário fazer um relacionamento com esse público e enfatiza a importância da parte administrativa nesse processo. “Tenha um compromisso nessa diferença entre doador único e recorrente. Vamos gerar mais interação com aqueles que recebem mais informações”, defende.

Juan ainda listou pontos de atenção: a maioria das organizações mexicanas trabalham com doação mensal; às vezes pode ter tensão entre captação e comunicação; necessidade de monitoramento todos os meses para contribuir no direcionamento de estratégias e metas; desenho da rota do doador, conhecido como Back Office (banco de dados, sistema de pagamentos, política de proteção de dados, recibo de impostos e site de doações).

A última parte de sua palestra mostrou os desafios: gestão de expectativas, cultura de vinculação dos recursos (earmarking culture); equipes e lideranças; estratégias de comunicação institucional fracas; mais regularização em relação a doações com mudanças de leis; tendência de agências internacionais fora dos direitos humanos; forte contexto político com o efeito AMLO (sociedade civil, guarda nacional, militarização da fronteira sul com os Estados Unidos).

Na abertura oficial

A senadora Mara Gabrilli foi uma das convidadas e participou da abertura oficial do evento (10/06). A liderança assinou o Projeto de Lei do Marco Bancário da Doação. Essa PL prevê que as doações serão reconhecidas como transações financeiras diferentes das operações de pagamentos, permitindo que o setor possa construir seus próprios instrumentos para receber doações sem a obrigatoriedade de usar meios que foram pensados exclusivamente para as relações comerciais. A proposta foi construída por um grupo de organizações da sociedade civil lideradas pela ABCR. O projeto deve ser colocado em tramitação no Senado.

Acesse aqui par saber outros pontos debatidos: https://festivalabcr.org.br/

*Notícia atualizada no dia 24 de junho de 2019.