Fernando Meirelles defende contação de histórias para conseguir engajar sociedade

gueto-ambientalistaContar uma boa história é a saída mais indicada pelo cineasta Fernando Meirelles no bate-papo Saindo do gueto ambientalista – O desafio de mobilizar as pessoas para a sustentabilidade na manhã de ontem (04 de outubro) no auditório nobre do Senac São Paulo. O encontro tinha a proposta de falar sobre como abordar sobre temas relacionados à urgência das mudanças climáticas e outros assuntos da agenda de sustentabilidade, comunicação e identidade de marca, pesquisa de desafios e oportunidades de comunicar as grandes causas.

Com o tema Falando sobre mudanças climáticas para 3,5 bilhões de pessoas, o cineasta compartilhou o descongelamento de placas de gelos e como isso impactaria rios no Oriente. Ele lembrou que a população da Índia, uma das mais expressivas do mundo (em torno de 1 bilhão e 200 milhões de pessoas), poderia migrar com a falta de água. “Nós já temos um caos com os refugiados atualmente, que tem dificuldades de sobrevivência”, indicou e ainda questionou como ficaria este cenário daqui uns 20 anos.

“Todo filme conta uma história”, ressaltou Fernando ao contar para o público que para falar sobre o clima precisa pensar qual seria o interesse da sociedade nesse tema. “Por que não transformar a Petrobras? Por que essa mensagem não chega? Como podemos passar essa mensagem?”, perguntou.

Ele comentou que os jornalistas que abordam esses assuntos não conseguem mobilizar as pessoas, porque eles ainda comunicam com dados, como gráficos e tabelas, e atingem somente um público. “Minha aposta é que se você falar da psique das pessoas, ajuda a liberar neurotransmissores, quando entende a informação e terá transformação e, a partir daí, observar como se comunicar com corpo da pessoa? Contando histórias”, explicou.

O cineasta explicou ainda que os americanos ainda usam a contação de histórias pela superação, mais do que precisa ser, e quando o herói atinge o outro lado, cumpre sua missão, se superou e foi muito mais além. Dessa forma, esse tipo de história precisa ser estruturada: 1º pena, que marca o início; 2º medo, o meio da história; e 3º catarse, fim.

Fernando explicou que as pessoas vão para o cinema para o catarse, pelo apelo emocional, elas querem sentir, tem uma descarga emocional. Ainda compartilhou com o público que está desenvolvendo junto com a BBC uma série sobre clima. Seu núcleo é baseado em personagens, que tentam soluções catastróficas. “E como posso comunicar a questão do clima? Vamos mostrar por várias narrativas o tema, por meio de lideranças políticas debatendo o tema na COP no Vietnã. Sempre é bom nos perguntarmos: O que pode acontecer? Pra quem interessa esse assunto para a sociedade? Ela está informada sobre o clima, mas como torná-la mais responsável para realmente mudar? Sair dessa trilha, desse caminho, ou desviamos? Dependemos do governo. Poderíamos substituir a matriz energética, taxar o carbono, adotar uma agricultura mais sustentável, e mudar a forma como produzimos os alimentos”.

Para ilustrar sua fala, o cineasta mostrou um vídeo feito por sua equipe apresentando impactos do descongelamento de geleiras em diversos continentes. Comentou ainda que em 21 de outubro irão plantar uma quantidade de mudas para compensar a emissão de gás usada nas cerimônias das Olimpíadas.

Fernando ainda defendeu que o medo não tem funcionado nas histórias. As pessoas não estão se envolvendo mais com tantas fotos e cenas catastróficas. O cineasta sugere mostrar possibilidades, caminhos. Também elogiou o enfoque dos textos do Environment The Guardian.

Desafios e tendências

A segunda palestra foi voltada para a comunicação das marcas. Ricardo Guimarães, Thymus Branding, iniciou sua fala remetendo a comunicação com cultura, que tem relação direta com identidade. “Quando se encontra sustentabilidade na empresa, as empresas foram caracterizadas pelas equipes de marketing, atender o que o cliente quer e, consequentemente, a identidade da empresa inibida”, afirmou. O publicitário ainda comentou que se usa as melhores práticas na organização com identidades acríticas e aéreas, insensibilizando a consciência das pessoas. “Parece que não tem gente trabalhando na organização”, sinalizou.

O publicitário ainda defendeu que o desafio da sustentabilidade é a inovação. Para ser inovador, a organização precisa ter a essência da identidade. Ele explicou os diferentes formatos da empresa, da mais tradicionais conhecida por ser mais hierarquizada até a mais móbil e moderna. A cultura da sustentabilidade influencia a integração das diferentes áreas de uma organização. Um dos desafios principais, segundo Ricardo, é “erotizar” a sustentabilidade dentro das empresas, mostrando que é um estilo de vida mais gostoso, adequado e fluído.

“Temos que puxar mais essa área para a parte mais estratégica para termos inovação e perenidade. E acabamos apenas nos relatórios de sustentabilidade, que em geral fica na área de comunicação”.

Causa e engajamento

Mônica Gregori, uma das sócias da consultoria Cause, focou sua fala no estudo O Fluxo das Causas. O estudo consultou mais de 35 pessoas relacionadas com organizações e defesa de causa e aborda comunicação de causas sociais, elaborado poelo Instituto Arapyaú e fundações parceiras, encomendada para as agências Cause e Shoot the Shit.

Ela comentou que o impacto das redes sociais influenciou a mudança de estruturas de poder e os desafios estão em como usar esse poder, essa transferência de modelos de transição em um ambiente de comunicação horizontal.

Em um dos slides, ela apresentou de forma simplificada as principais mudanças, do cenário anterior para o atual, um de para. Então, essa transição está: de instituições para indivíduos, de controle para fluxo, de organizações para organicidade, de intermediários para plataforma, de eficiente para necessário, de broadcast para microtarget, de slogan para hashtag, de idealismos para pragmatismo, de compromisso para liquidez, de independência para interdependência, de ou para e, de apatia para engajamento.

A palestrante ainda explicou o conceito de engajamento, de acordo com o levantamento, que é a apropriação da sua parte em uma responsabilidade compartilhada. Representa diferentes níveis de compromisso que uma pessoa ou organização pode ter por um tema, causa ou atividade. Para conseguir engajar, segundo Mônica, é fundamental estudar e ainda existe um preconceito quando tem uma simplificação do tema. “As pessoas precisam entender bem sua informação”, ressaltou.

Em outro slide, ela mostrou ainda uma curva do engajamento. A primeira etapa é a pessoa alheia à situação por não ter informação, o próximo degrau é quando ela já sabe e tem o contexto e a informação, depois vem a vivência e a consciência da situação e ela entende, o seguinte é quando ela sente com a convocação e sensibilização, a próxima é com o instrumento e engajamento e ela pode, e por último, quando ela faz e se torna um agente de transformação.

Por último, Mônica falou da comunicação das causas que é necessário colocar um tema na agenda da sociedade, mobilizar os convertidos, conquistar os indiferentes e influenciar os tomadores de decisão, com o objetivo de mudar a realidade social, cultural, econômica e ambiental por meio da sensibilização do público e mudanças nas políticas públicas.

Metas globais

Tom Moore, um dos responsáveis pela articulação da campanha global de comunicação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil, explicou como o processo para criação dessa ação e envolver pessoas da sociedade civil, poder público e até celebridades de diferentes países.

Para ilustrar melhor ao público, o palestrante listou: 1º a sustentabilidade tem um problema de imagem, as pessoas não se sentem tão atraídas para falar e fazer algo em prol; 2º ser específico na mensagem; 3º foco na ação; 4º mudar os modelos mentais de comportamento – em geral, se vê a os eventos externos, porém não se observa tanto os padrões de comportamento, a estrutura de sistema e os modelos mentais.

Tom ainda falou que foi realizado um mapeamento com todo material levantado das conversas com esses grupos em diferentes países para a criação da campanha We the people. Para falar de assunto sério, também sugeriu humor e citou o exemplo do Porta dos Fundos com Los Bragas.


Data de publicação: 06/10/2016