Facilitador de programas sociais esclarece desafios após aprovação do Marco Legal da Primeira Infância, a importância de políticas públicas e ações internacionais

14746Conhecer o significado dos primeiros anos de vida é o principal desafio, segundo Eduardo Marinho, gerente de conhecimento aplicado da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, para a sociedade brasileira entender o que é a primeira infância. O avaliador, facilitador de programas sociais e mestre em administração de empresas conversou com a equipe do Setor3 sobre políticas que defendem, dificuldades e itens importantes para ter um desenvolvimento sadio nessa fase.

Eduardo já atuou em programas relacionados a sustentabilidade, conservação ambiental, geração de renda, prevenção de câncer, protagonismo juvenil e educação complementar de crianças e adolescentes. Prestou serviços para Fundação Kellogg, Instituto Ayrton Senna, Instituto Avon, WWF-Brasil, Banco Real; Citibank; Toyota Motors, Canadian International Development Agency, dentre outras. É autor do livro Manual de Avaliação de Projetos Sociais, publicado pelo Instituto Ayrton Senna /Saraiva Editora. Foi fellow do Programa Internacional de Desenvolvimento da Filantropia oferecido pela City University of New York.

14751Portal Setor3 – No início deste ano houve a aprovação do Marco Legal da Primeira Infância. Gostaria que você me falasse dos principais avanços neste segmento?

Eduardo Marinho- Houve um caso bem emblemático duas semanas após essa aprovação. Era a mãe de um bebê presa e ela conseguiu prisão domiciliar com a defesa de um dos artigos dessa política, que ajudou que ela conseguisse a prisão domiciliar para estar num ambiente favorável à criança. O advogado dela esperou a aprovação dessa política para usar esse argumento. Outros movimentos têm sido pelo lado das empresas que têm dado informações junto a Fundação para entender um pouco mais para ver como se dá esses mecanismos pela responsabilidade social dessas organizações privadas para liberar a licença paternidade de cinco para 20 dias, por exemplo.

Há outros esforços que estão numa perspectiva da Rede Nacional da Primeira Infância, que reúne cerca de 200 instituições que trabalham nessa área. Eles estão articulando agora uma campanha para que candidatos a prefeitos e vereadores considerem e incluam em suas prioridades questões que defendem a primeira infância e as próximas gestões municipais. Eu destacaria essas prioridades essa questão ao município estruturar de forma integrada com a primeira infância e, a partir daí, montar um programa de investimento para esse público e mecanismos para que isso possa ser destacado. Os recursos que vão para esse segmento possuem rubrica de vários itens orçamentários. Como é que os municípios criam mecanismos para reunir os itens e para divulgarem à sociedade e qual é o montante efetivo que está sendo destinado para esse fim? Isso é importante a vereadores, a organizações que fazem controle social. Há ainda outros temas relacionados, como questão da creche, pré-escola. E neste Marco Legal da Primeira Infância reforça um instrumento importante: o Plano Nacional da Educação.

Portal Setor3- Quais são os principais desafios que faltam esclarecer para a sociedade sobre primeira infância e primeiríssima infância? E quais os principais benefícios quando a criança vive bem essa fase?

EM- O primeiro desafio para a sociedade é conhecer mais o que significa os primeiros anos de vida, praticamente do nascimento, vida ultraulterina até os três anos (conhecida como primeiríssima infância). Apresentar o quanto o cérebro é o organismo maior, mas o mais responsável por todo aprendizado da criança para toda vida, o quanto esse órgão se desenvolve nesse período e como é essencial que seja com qualidade nessa fase. Em uma pesquisa de percepção nessa fase, nós constatamos que 53% da população entende que a criança começa a se desenvolver a partir dos seis meses. Outro estudo qualitativo, traz um entendimento que ou a criança começa a aprender quando começa a falar, ou quando ela entra formalmente no esquema escolar – na pré-escola, ou na escola. A criança inicia já na vida ultraulterina e na fase final da gestação em seu desenvolvimento. A criança está com boa parte do sistema sensorial desenvolvido. Ela está ouvindo, já reconhece a voz do pai e da mãe. Você pode cantar e ler para a criança, porque ela já está acompanhando esse diálogo que está se estabelecendo. O desafio é fazer chegar essas mensagens e esse conhecimento até a sociedade.

Sobre sua segunda questão, acredito que os mecanismos de meios de comunicação de massa, hoje bem diversificados, podem contribuir para isso. Com a internet, chega a todos. O que circular nos canais e nas redes sociais faz parte do esforço que estamos fazendo com o filme O Começo da Vida. Esse filme deve derivar outros produtos e em diferentes momentos para atingir a sociedade. Essa é uma primeira semente. Outros deverão ser reproduzidos por outras estruturas como empresas de comunicação, de televisão e canais de mídia e conhecer desenvolvimento infantil e da primeira infância.

Portal Setor3- Quais são as principais políticas públicas voltadas para a infância, além do marco?

EM- Hoje nós temos políticas públicas focadas para a primeira infância e está começando pela saúde, que cuida da gestante e desse período de gestação, como o pré-natal, toda a preocupação com o tipo de parto dessa gestante. Depois do setor de saúde, os outros serviços estão aos poucos sendo sensibilizados e incluindo protocolos de cuidados com as crianças. Está previsto o lançamento de uma nova caderneta da criança para que ela possa utilizar tanto pela saúde, quanto pelo desenvolvimento social e até educação infantil. Nessa caderneta, há todos os acompanhamentos de alguns marcos da criança. Há ainda a estratégia da família, em que possui um agente comunitário apoiado por enfermeiros e médicos para visitarem domicílios e cuidam de uma agenda ampla de saúde. Aos poucos temos algumas experiências de incorporação de desenvolvimento infantil por esses agentes, como estimular as mães a brincarem mais com as crianças, a estarem mais atentas a demanda delas e lidarem com questões de negligência e de alguma compreensão que gritar não faz mal, que bater não faz mal e chamar atenção para determinadas atitudes de violência contra a criança são bem danosas para o desenvolvimento dela e por elas estarem hoje na gestão da educação devem assumir um papel intencional em relação ao desenvolvimento da criança.

Portal Setor3- Poderia falar um pouco em qual país é bem avançado nos direitos da criança? Ou algum onde você observa tanto políticas públicas quanto iniciativas da sociedade civil?

EM- Começo pelos países da América Latina para depois irmos aos nórdicos. No Chile, temos um programa de primeira infância importante chamado Chile Crece Contigo. É um programa do governo que trabalha em uma perspectiva para o desenvolvimento da criança de um trabalho integrado com: saúde, educação e social. Outro importante é o da Colômbia, o De Cero a Siempre. Também é uma política com centro de atenção à família e o desenvolvimento infantil. Nos países nórdicos, temos o Canadá na Província de Alberta e Ontário, que desenvolvem programas importantes em prol do desenvolvimento infantil e há toda uma estratégia de mensuração que contribui no processo de construção das políticas públicas.

Portal Setor3- Em sua visão, qual a importância do filme O Começo da Vida falar nesses assuntos com linguagem acessível?

EM- O desafio do filme foi interessante, porque há 10 anos ambientalistas já apresentavam resultados sobre mudanças climáticas em que ficava claro sobre as causas e consequências do aquecimento climático do planeta, que são bem danosas. No filme, nosso desafio é informar a sociedade sobre primeiríssima infância. Nós tínhamos um pouco essa coisa de que cuidar das crianças pequenas não é importante, cuidar do planeta é um pouco mais difícil. Dessa forma, temos o desafio em como mostrar que esse desafio perpassa os diferentes grupos sociais, tanto do ponto de vista de renda, dos mais pobres, dos mais ricos, da cultura, entre outros fatores.


Serviço:

O Começo da Vida

Duração: 97 minutos

Espaço Itaú de Cinemas (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Brasília e Salvador); Cinespaço (Florianópolis, João Pessoa, Santos); Cinearte (Juiz de Fora, Belo Horizonte); Cinemark (Manaus, Natal, Campo Grande, Aracajú, Palmas, Vitória, Goiânia, Cuiabá, Boa Vista, Recife).

Nas cidades que não possuem sala de cinema, podem conferir na plataforma Videocamp: http://goo.gl/Pl0TRh
Nas unidades do Senac São Paulo, haverá sessões até 11 de junho, acesse aqui: http://goo.gl/fK2I04


Texto: Susana Sarmiento

Imagem: Divulgação

Data original da publicação: 02/06/2016