Evoluir é preciso

 Evoluir é preciso
Crédito da imagem: divulgação

O terceiro setor ainda é desconhecido para a maior parte das pessoas. Normalmente, é necessário explicar para “quem é de fora”, que se trata do setor que agrupa entidades sem fins lucrativos com alguma finalidade social. É também muito comum pensar que se trata de um movimento completamente voluntário, onde cidadãos dedicam parte de seu tempo livre para a consecução de um objetivo. Na verdade, o Terceiro Setor é parte vital da economia de todos os países, representando nos EUA 11,4 milhões de assalariados em 2012, enquanto no Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística afirmam que em 2010 este contingente era de 2,1 milhões de pessoas.

Com estes números, que crescem ano a ano, fica mais difícil manter a mentalidade de que o setor é mantido apenas por ações de voluntariado que, apesar de muito importantes para a criação e disseminação de uma consciência cívica, são insuficientes para manter e desenvolver, por um longo prazo, qualquer organização social.

Os problemas que as organizações sociais enfrentam são cada vez mais complexos e exigem soluções cada vez mais elaboradas, onde a inovação, a eficiência e a eficácia tem um papel decisivo. Ideias precisam de braços para serem colocadas em prática e isso requer organizações melhor estruturadas, com escala de atendimento, mais difíceis de serem administradas. A busca por talentos profissionais no terceiro setor é contínua, assim como por recursos financeiros.

É neste momento de crise, que as organizações sociais têm evoluído para se adaptar aos novos tempos, criando modelos sustentáveis de atendimento, suportados por rotinas administrativas que permitam a melhor aplicação de recursos e também total transparência.

Mais do que uma palavra da moda, a transparência faz parte da Lei de Fomento e de Colaboração ou Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil – Lei 13.019/2014. Sancionada em outubro de 2014, a lei estabelece melhores diretrizes para regular as relações entre o Estado e organizações não governamentais, impedindo, por exemplo, pedir ajuda financeira diretamente ao prefeito da cidade. Será obrigatório que o órgão público abra um processo de seleção, com edital explicando as regras, possibilitando que qualquer instituição que se encaixe nas exigências concorra.

É um primeiro passo que vem somar na luta das organizações por um maior reconhecimento de seu papel social, por uma melhor percepção pública e por mais recursos. O marco regulatório tem muito o que evoluir para de fato colocar as organizações sociais na pauta dos investimentos das pessoas físicas e jurídicas. É necessário que existam maiores estímulos ao financiamento do terceiro setor, para que cada vez mais as organizações contem com mais profissionais preparados.

Mas as organizações também têm que evoluir. Focar no problema ao invés de focar na solução até engaja pessoas, mas esta é uma visão ultrapassada. Se você não é parte da solução, certamente é parte do problema, e a manutenção desta visão retroalimenta o problema. Organizações que se fazem de vítima não conseguem ser profissionais pois não querem que a sociedade enxergue nem o problema e nem a solução.

É necessário que as organizações tenham visão e projeto de longo prazo para sua causa. Que elas apresentem claramente onde querem chegar e quanto recurso será necessário para isso. Que o plano de aplicação possa ser executado com acompanhamento dos financiadores, para que estes possam estabelecer também uma relação mais duradoura com a organização, renovando anualmente seu apoio. Que a prestação de conta pública seja a norma, não a exceção. Com pensamentos e com atitudes assim, fica cada vez mais difícil aparecerem dúvidas sobre o uso do dinheiro.

Já existem organizações assim, basta procurar. Não estou falando que organizações que não chegaram a este ponto são ruins ou que tem algo a esconder. O que defendo é que todas sigam este caminho para que o terceiro setor como um todo possa evoluir.

Estamos em meio a uma das maiores crises econômicas dos últimos anos e o terceiro setor sofre com a falta de recursos e com a promessa de maiores dificuldades para 2015 e 2016. Este é o momento de fazer novas escolhas. O terceiro setor está evoluindo.


* Mauricio Guimarães, gerente de mobilização e relacionamento da ONG Vocação, nova marca da Ação Comunitária do Brasil, que há 48 anos trabalha para minimizar as vulnerabilidades resultantes das desigualdades sociais as quais estão expostas milhares de pessoas em todo o Brasil. Em 2014, a Vocação contabilizou mais de 6 mil atendidos entre crianças, adolescentes e famílias e seus resultados fiscais foram auditados pela KPMG.


Texto: Mauricio Guimarães
Data original de publicação: 22/10/2015