Evento realizado pelo Gife debateu caminhos para uma sociedade sustentável

Promoção de alianças intersetoriais, em que governos, iniciativa privada e sociedade trabalhem em conjunto para solucionar problemas sociais, ambientais e econômicos. Foi com essa visão defendida pelo GIFE – Grupo de Institutos Fundações e Empresas, que aconteceu no final de maio, em Curitiba (PR), o 4º Congresso sobre Investimento Social Privado e a 5ª Mostra de Ação Voluntária.

Em parceria com o CAV – Centro de Ação Voluntária, o GIFE reuniu mais de 500 lideranças em painéis e debates para discutir temas como “Os desafios para uma sociedade sustentável”; “Novos Modelos de Organização Social (Redes)”; “Desenvolvimento de Base e Organização da Sociedade Civil”; “Comunicação como Instrumento de Mobilização Social”, entre outros.

Segundo o presidente do GIFE, Hugo Barreto, o evento alcançou seu objetivo de promover a articulação entre os diferentes atores sociais, um dos grandes desafios de uma sociedade sustentável. “Ficou clara a percepção de que não vamos conseguir uma verdadeira transformação social se não houver um alinhamento entre o primeiro, segundo e terceiro setores. E que este alinhamento não é numa ou outra área, mas tem que ter o conjunto da sociedade em todas as suas dimensões”, concluiu Barreto.

A discussão, aliás, permeou quase todas as conferências e debates do evento, e conclusões de que uma fusão de setores abre possibilidade de aumentar o número de ações sociais de qualidade. “É muito fácil empurrar a responsabilidade para o primeiro e segundo setores e achar que o terceiro setor é apenas um complemento. Esquecemos que o governo somos todos nós. Nós é que escolhemos o Poder e somos responsáveis inclusive pelas questões sociais”, disse Miguel Krigsner, presidente da empresa O Boticário, membro do Conselho de Governança do GIFE e anfitrião do Congresso em Curitiba.

Redes Sociais para o Desenvolvimento Sustentável

Ações e alianças intersetoriais em Redes Sociais para a promoção do desenvolvimento, foi inclusive tema de um os painéis que contou com o sociólogo Chico Whitaker, do Fórum Social Mundial e com o cientista Silvio Meira, da Universidade Federal de Pernambuco. Com mediação de Andrés Falconer da ABDL ? Associação Brasileira de Desenvolvimento de Lideranças, o debate intitulado “Novos Modelos de Organização Social (Redes)” lotou a sala com cerca de 150 pessoas. “Fico feliz em ver que esse tema tenha lotado a sala”, sorriu Falconer que destacou que a imagem que as pessoas têm de Redes Sociais ainda está em fase inicial. “Existem ainda muitos projetos definidos como Redes Sociais e grupos se denominando assim. Ainda temos uma fase de amadurecimento, assim como teve o Terceiro Setor”, explicou fazendo o paralelo. E completou: “É preciso que aconteça uma apropriação útil e responsável do conceito de Rede”.

O sociólogo Chico Whitaker concordou e destacou a horizontalidade como principal característica de uma Rede Social. “Algumas Redes contam com um animador, também conhecido como mediador ou coordenador. Nesse caso, seria mais correto dizermos que se trata de um grupo atua em Rede”. O sociólogo destacou ainda a eficácia de resultados de quem se organiza em Rede. “A co-responsabilidade e a não-comunicação vertical (que acontece com filtros) típicos da organização em Rede possibilita um ambiente para a realização de projetos com eficácia”, explica. Pra ele, é fundamental ainda que para uma Rede funcionar de verdade é necessário que seus participantes realmente acreditem nisso, “diferente de uma organização piramidal, onde o que prevalece é a busca pelo poder, em Redes o que prevalece é a cooperação, ou seja, não se ganha pode, constrói-se poder”, elucidou.

O sociólogo lembrou ainda que a comunicação é também uma peça-chave nesse processo, lembrando a importância dela para troca de expe riências e aprendizagem. “A internet, por exemplo, é um processo horizontal de comunicação, trata-se de uma rede de intercomunicação”.

A apresentação do cientista Silvio Meira apresentou justamente as possibilidades de utilização dessa tecnologia para o trabalho em rede: “Na internet há uma troca constante de informação, experiências, não há hierarquia, são criadas comunidades. E, se antes a comunicação era vista como um meio de uma via só, onde um emite e outro(s) recebe(m), na internet as pessoas ficam conectadas”, entusiasmou-se. Mas, o professor Ledislau Dawbor, que estava presente na platéia, lembrou a importância da inclusão digital para que a internet seja realmente um instrumento poderoso de comunicação e de interconexão de redes sociais: “Vivemos a era do acesso, mas não podemos nos esquecer que boa parte da humanidade ainda está fora da Rede”, lembra.

Comunicação como instrumento de mobilização

A importância da comunicação, aliás, estava tão latente no evento que, inclusive, um dos painéis ganhou o tema “Comunicação como Instrumento de Mobilização Social” que contou com a participação de José Bernardo Toro, assessor da Fundação Avina, e Eugênio Scannavino, coordenador do Projeto Saúde e Alegria Censo.

Mediado pelo publicitário Ismael Rocha, os conferencistas demonstraram como a troca de informações pode contribuir para a defesa de uma causa e a conscientização de comunidades sobre as políticas sociais.

Para ilustrar, o também médico Eugêncio Sacannavino, apresentou o projeto Saúde e Alegria que conta com a experiência da rede de comunicação Mocoronga, formada por emissoras de rádio e televisão e um jornal local. O projeto beneficia a população de Santarém, na Amazônia, prestigiando ao máximo da realidade local.

Em relação à comunicação institucional das ONGs, o coordenador do Saúde e Alegria, Eugênio Scannavino, diz acreditar que as organizações em geral não sabem se comunicar muito bem. A ausência de uma estrutura integrada e focada na divulgação de suas ações gera problemas no contato com o público. “Se não nos comunicarmos, não apenas nós teremos problemas, mas todo o mundo”, alerta.

Já o filósofo e educador José Bernardo Toro, destacou que a comunicação tem a função de criar condições para a circulação de informações e sentidos, à medida que podemos entender o mundo em que estamos e, até mesmo, quem somos por meio desse processo. Para ele, quem não disponibiliza seus conceitos e sentidos ao demais está excluído. “O meio pelo qual essas informações e sentidos são passados não importa. O que importa é criar condições de igualdade, critério fundamental para a democracia”, salienta.

Toro afirma ainda que, quando alguém se comunica, espera o entendimento e a compreensão de suas mensagens. Por isso, o principal resultado dos processos de comunicação é a auto-estima. Isso explica ainda porque o contato das organizações não-governamentais com a informação deve ser movido por um valor ético, focado na dignidade humana.

Desenvolvimento Local e a real demanda da comunidade

A disseminação de informação, aliás, deve servir à construção do conhecimento, como bem lembrou Dawbor em outro painel do evento. “O Brasil está evoluindo para uma sociedade de conhecimento. Todos estão colaborando para um bem estar comum”, afirmou o economista e professor da PUC-SP durante o debate Desenvolvimento de Base e Organização da Sociedade Civil.

Mas o foco principal do debate foi como implantar ações sociais, levando em consideração toda a estrutura do local, como cultura, políticas públicas, meio ambiente e o principal, a rotina da população. Os quatros palestrantes afirmaram que os projetos não devem ser feitos a partir de um contexto geral, mas sim, devem s er formulados em um processo de desenvolvimento, a partir das necessidades reais. Todos os setores da sociedade devem atuar unidos, visando um trabalho completo que atenda toda a população, concluiram.

A mediadora do debate, Elisane Gressi, da Fundação Belgo-Arcelor Brasil, iniciou o debate com uma reflexão sobre o real papel das instituições que promovem os projetos sociais. Para ela, não existe desenvolvimento com ações isoladas, mas sim em um processo evolucionário de formação.

Aproveitando o gancho sugerido pela mediadora, Dowbor questionou o andamento da sociedade brasileira nesse sentido. Para ele, os diversos problemas no país estão ligados a vários fatores relacionados aos governos, à cultura e às próprias crenças locais. “É preciso construir uma sociedade articulada, unir todos os setores, formando uma aliança na qual todos podem entender o que realmente a sociedade está passando”, ressaltou o palestrante.

Já Rodrigo Villar, da Fundação Fundação Odebrecht (http://www.fundacaoodebrecht.org.br/), apresentou o programa Rede América, uma proposta de expandir o desenvolvimento social em pontos estratégicos da América Latina. No trabalho feito pela Fundação, são introduzidas ações sociais estrategicamente pensadas, observando o modo de vida das pessoas.

Villar mostrou qual seria o diferencial no programa. “Procuramos dar voz à população. Isso não é apenas ver o lado deles, mas analisar o que de fato a comunidade precisa. Não adianta desenvolver projetos de longe e fazer com que as pessoas tenham que se adequar”, afirmou o consultor.

A importância do protagonismo da população local mereceu destaque diversas vezes no debate. Com uma visão prática do tema, Maurício Medeiros, da Fundação Odebrecht, mostrou as experiências desenvolvidas no interior do estado. “Uma comunidade cooperativa seria a melhor forma de melhorar as questões locais. Entretanto antes de esperar uma iniciativa assim, é preciso dar bases para os envolvidos, capacitá-los e orientá-los, não só no momento de aprendizagem, mas sim em todo decorrer do desenvolvimento da ação social implantada”, afirmou Medeiros.

Para finalizar o encontro, os palestrantes, junto com a mediadora, concluíram dois pontos principais no debate. A mobilização de todos os setores da sociedade, afim de um resultado mais abrangente e eficaz, e a conscientização coletiva sobre os problemas que interferem no bem comum.

Para mais informações, acesse o site oficial do evento.

Livro “Como Mudar o Mundo” é lançado em português na semana do evento

O evento foi ainda palco para o lançamento do livro “Como Mudar o Mundo ? Empreendedores sociais e o poder das novas idéias” (Ed. Record) do jornalista David Bornstein que apresenta as inovações sociais são importantes no desenvolvimento de uma sociedade sustentável.

O jornalista viajou nos últimos 15 anos em busca de pessoas que “faziam a diferença em suas regiões”. Lideranças sociais com projetos pioneiros em meio ambiente, geração de renda, educação, saúde, entre as mais diferentes áreas de desenvolvimento humano. “O objetivo do livro é exaltar alguns homens e mulheres, mas chamar a atenção para um tipo particular de ator que impulsiona a mudança social”, explicou.

Ainda segundo ele, esses atores são os verdadeiros empreendedores sociais, indivíduos altamente motivados, questionadores, idealizadores e exploradores de novas oportunidades. “Eles têm um profundo efeito sobre a sociedade, apesar de sua função corretiva continue pouca compreendida e valorizada. Embora tenham sempre existido, a presença deles está aumentando atualmente”.

Na abertura do evento, Bornstein chamou a atenção para a importância de identificar esses empreendedores na sociedade que, segundo ele, são os responsáveis pelas idéias poderosas para mudar cidades, países e até o mundo. “Não temos que inventar nada de novo, mas ajudar as iniciativas locais que já estão sendo implementadas. Elas são como anticorpos para as doenças sociais”, alegou.

Apresentando exemplos de Bangladesh e do Brasil, Bornstein deixou claro que as ações mais criativas e, assim, efetivas no combate à pobreza, por exemplo, não vem diretamente do governo e nem mesmo se deve esperar por isso. “O terceiro setor deveria ser considerado o primeiro. É ele que reconhece as demandas e detecta os problemas locais da população”.

O autor destaca ainda a necessidade de se estimular uma cultura do empreendedorismo social. “Todos conhecem alguém que tem vontade de ter um negócio próprio. O que o difere de alguém que quer mudar o mundo é o objetivo final. O empreendedorismo é o mesmo”, concluiu.

A repórter Lisandra Maioli viajou a convite do Gife.