Evento fala sobre crescimento de negócios de alto impacto social no Brasil

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Pensar em programas de financiamento a negócios geridos, criados e liderados por afrodescendentes foi um dos principais pontos dos painéis do evento internacional O Ecossistema para a Promoção do Crescimento de Negócios de Alto Impacto Social – Conexão Estados Unidos Brasil na última quarta-feira dia 17 de maio no Auditório Itaú BBA no Itaim na zona sul de São Paulo. Esse evento fez parte do Inova Capital – Programa de Apoio a Empreendedores Afro-Brasileirtos, iniciado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 2015.

O encontro reuniu alguns especialistas dos Estados Unidos e do Brasil para promover um diálogo sobre iniciativas bem sucedidas, aprendizados, desafios e oportunidades de ações para valorizar e impulsionar negócios de alto impacto social no país.

Foram quatro painéis relacionados com oportunidades ao investimento em negócios de impacto no Brasil, ambiente para a construção de mecanismos de apoio ao crescimento de pequenos negócios, perspectivas de fundos de investimento – identificando e investindo em comunidades menos favorecidas, e instrumentos para fomentar oportunidades de investimentos.

Luana explica a atuação do programa Inova Capital, do BID, a negócios gerados por afrodescendentes brasileiros – Crédito da imagem: Nego Junior

No primeiro painel, intitulado Oportunidades para o investimento em negócios de impacto no Brasil, o professor Marcelo Paixão, convidado especial e professor da Universidade de Austin-Texas, falou mais sobre um estudo de sistema de créditos e de empréstimos bancários. Ele comentou que ainda o sistema bancário ainda trata de forma assimétrica por conta da maior ou menor quantidade de riqueza financeira ou patrimônio imobilizada que possa ser dado como colateral aos empréstimos. “Os clientes são ainda tratados de forma diferente e vão dispender dessa variável. É assim que funciona o sistema bancário a todos”, afirmou.

O professor ainda comentou sobre o processo de tomada de decisões ao estabelecimento de um contrato de crédito, que é afetado pela dificuldade de obtenção de informações por parte dos credores e devedores. Também há uma assimetria de informações por parte dos potenciais credores e prestadores dentro do sistema de créditos, que pode acarretar no chamado de racionamento de créditos. Dessa forma, o recurso financeiro não é liberado para o potencial tomador do contato.

Marcelo citou o nome do professor Muhammad Yunus, economista e idealizador do Grameen Bank, conhecido como banqueiro dos pobres por ter fundado essa iniciativa em 1983 em Bangladesh. O professor comentou que esse tipo de ação oferece a pessoas crédito com sistemas alternativos.

Por outro lado, o racionamento de créditos, traz efeitos sociais negativos: perpetuação da exclusão social, crescimento econômico abaixo do potencial e perda da capacidade empreendedora.

“O assunto de modelo de desenvolvimento e de renda como ela é distribuída devem ser lidas numa escala ampliada e sistêmica. O racionamento de crédito ainda se dá pelo estereótipo ou preconceito”, disse Marcelo. O professor ainda explicou essa discriminação racionalmente em dois tipos: estereótipo – ação inconsciente e preconceito – ação consciente.

Ele falou da importância de debater a discriminação racial na teoria econômica. Citou uma tese defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em que levantou: 4,8% dos que possuem conta própria são negros ou pardos, 5,3% dos brancos utilizaram créditos contra 11,7% dos empregadores negros e 14,1% dos brancos.

Professor Marcelo apresenta dados do estudo sobre falta de créditos a empreendimentos a negros – Crédito da imagem: Nego Junior

Também trouxe ao público uma pesquisa sobre o acesso aos empreendedores afro-brasileiros a créditos e serviços feito pelo BID e Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER), da UFRJ, em que foram entrevistados 1000 empreendedores individuais (MEI), igualmente distribuídos em Salvador (BA) e Rio de Janeiro (RJ). Dos MEIs entrevistados, somente 4,3% usaram com frequência empréstimos e outros 19,5% declararam fazê-lo, mas apenas eventualmente. O valor médio do crédito solicitado pelos MEIs é de R$ 7,3 mil.  Já aos MEIs brancos o valor sobe para R$ 10,7, um valor superior em 78,5% ao valor médio solicitado pelos MEIs negros. “Os negros ainda possuem mais dificuldades ao acesso do crédito”.

Dessa forma, o professor sugere linhas de MPO destinadas para MEIs afrodescentes (pretos e pardos), financiamentos capazes de atuar sobre os fatores que agravam as dificuldades de acesso. “Sabemos que o crédito é central. Que venham políticas de microcrédito aos empreendedores afrodescendentes. Não vamos conseguir política de igualdade sem falar de financiamento e ao plano acadêmico, uma importância da formação acadêmica potencializará esse cenário”, defendeu Marcelo.

Crescimento e apoio urgentes

No painel 2 Ambiente para a construção de mecanismos de apoio ao crescimento de pequenos negócios, o americano Eugene Cornelius Jr., administrador associado adjunto do U.S. Small Business Administration (SBA), explicou a organização em que trabalha, seus produtos e serviços oferecidos para a população de baixa renda que tiveram poucas oportunidades. “As pequenas empresas criam os melhores empregos”, afirmou e ainda compartilhou que 2/3 dos empregos depois da recessão econômica de 2007 de pequenas empresas e aumenta a melhoria dos empreendimentos, a partir de melhorar o grupo de produtores, aumentando a educação, disponibilizando a renda e estimulando os 3 Cs: contrato (contract agreement), aconselhamento (counseling) e capital.

Ao longo de nove anos, ele comentou que esses negócios foram desenvolvidos, passaram por treinamento para serem sustentáveis. A equipe separa os contratos específicos, que são aqueles para competir. “Se houverem contratos específicos, nós podemos focar nas experiências em desenvolvimento e assumimos o risco e terceirizamos o contrato para assumir o trabalho terceirizado e participar de licitações sem estar nos programas”, contou. Ele ainda explicou que são oferecidos três programas: programa para veterano, programa para mulheres e programa para aposentados.

Americano apresenta programa do governo dos EUA que contribui a negócios – Crédito da imagem: Nego Junior

Oferecem ainda um centro de desenvolvimento de comunidades, já que nos Estados Unidos cresce o número de pessoas da classe média baixa e pobres. “Se você emprestar dinheiro a esse público, ele consegue garantir empregos para esse segmento. O risco é de 10 a 5%. O governo americano acredita que essa pessoa terá êxito”, disse. O palestrante compartilhou que é analisado a habilidade do empreendedor, seu plano de negócio e sua lucratividade. O programa já atendeu 504 empreendedores. Já passaram: 47% mulheres, 32% veteranos, 75% afroamericanos, 50% hispânicos, 30% asiáticos, 18% nativos coreanos e 41% empresários rurais. A taxa de inadimplência foi de 1,47%. Essa parcela da população contribuiu para 2% do PIB americano, que corresponde a 28 bilhões de dólares.

Nike, Whole Foods, Intel, Hewlett Packard, Staples, Outback Steackhouse, Columbia Sportswear e outras empresas pegaram empréstimos no início de sua trajetória. O palestrante ainda explicou que a organização atua como uma instituição financeira para cuidar e oferecer empréstimos de até 50 mil dólares. Segundo Eugene, os empreendedores precisam até 17 mil dólares.

A ideia é que os próprios empreendimentos que receberam essa ajuda financeira possam contribuir mais tarde e aumente o capital dessa organização para oferecer ajuda e suporte a outros negócios. “Foram mais de 86 mil empregos gerados e criamos nossa política pública voltada para microempréstimos para essas populações. Isso funciona, temos apenas 2% de inadimplência. Também impactamos o aumento de 29% para classe média”, observou Eugene.

Maria Rita Spina Bueno, diretora executiva do Anjos do Brasil, explicou primeiro o foco da organização no fomento de investimento anjo e ao apoio do empreendedorismo de inovação brasileiro. A atuação ocorre em três frentes: como uma rede de investidores anjo, criação de cultura e difusão de conhecimento e políticas públicas.

Ela questionou ao palestrante americano sobre a necessidade de respostas de investimento e até apoio para empreenderem. “Nós, da Anjos do Brasil, conectamos esses centros com universidades”, disse. Eugene respondeu que o SBA ajuda na formação de lideranças, na formação de empreendedores, a inovação e tecnologia do negócio. Ele citou o caso de um negócio que começou pequeno a revista Black Enterprise (http://www.blackenterprise.com/), uma publicação líder americana que dialoga com afrodescendentes e começou com financiamento do SBA. “Atualmente é uma das principais publicações do segmento e o dono é multimilionário nos Estados Unidos. Esperemos que ele invista em outros negócios também”, defendeu.

Eugene afirmou que pretendem reduzir o risco para estimular o investimento. Tudo isso para expandir cada vez mais os empreendimentos e combater os problemas sociais, um ambiente do qual preconceito herdado e subjacente.

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Perspectivas

Para falar sobre os investimentos a ações de empreendedores, o painel 3 Perspectivas de Fundos de Investimentos: identificando e investindo em comunidades menos favorecidas foi em formato de roda de conversa com os seguintes participantes: Venita Fields, dos Fundos de Private Equity e de Venture Capital nos Estados Unidos e sócia da Pelham S2K Managers; Daniel Izo, co-fundador e diretor executivo da Vox Capital; e mediação de Humberto Matsuda, conselheiro da Associação Brasileira de Private Equity & Venture (ABVCAP). Os especialistas falaram sobre identificar e investir em comunidades menos favorecidas.

A primeira questão foi voltada para que todo gestor precisa ter uma tese de investimento e como isso pode envolver inclusão social. “Todos os investimentos devem pensar na produção de riqueza, especialmente nas reservas. Pensar em como vão educar seus filhos a longo prazo e criar riquezas”, afirmou Anita.

Já Daniel respondeu que quando falamos de investimento de impacto as perguntas precisam girar em torno dos problemas sociais, como os problemas de saúde, de educação e outros. Relacionar ainda como seu negócio vai crescer e dar resultados, o quanto está resolvendo aquele problema. Isso precisa ser mais aprofundado com uma tese de investimento mais detalhado.

O papel do investidor social foi outra questão debatida entre os participantes dessa mesa. Venita comentou que sempre tem um valor agregado, uma parte educativa. “Se você quiser seu recurso de volta, necessário se envolver com seus investimentos, ou até apresentar novos sistemas operacionais do início ao fim”.

Público do evento era formado por investidores, fomentadores do empreendedorismo e empreendedores . Crédito da imagem: Nego Junior

Daniel comentou que a gente faz investimento e influencia o futuro, do lado dos investidores. E perguntou: “Será que estamos investindo para as coisas do futuro? O eixo do impacto maximiza meu retorno a custo do quê?”

Na opinião do diretor do Vox Capital, o empreendedor precisa valorizar aquela solução para oportunidade financeira e ligação realmente com aquele problema. Ao longo do tempo, mostrar que a solução tivesse impacto quando chega Power Point, Excel, vem mudança e pode mudar para qualquer lado. “Tem que estar desde o início, porque tem a ver com propósito”, afirmou.

Como o empreendedor pode se preparar para reduzir o risco? Venita falou que os empreendedores possam buscar dinheiro antes de qualquer coisa. Sugeriu que o empreendedor vá atrás de conselhos, não apenas de recursos e usar seu investidor como conselheiro de seu trabalho. Muitos investidores não são iguais, tem alguns parâmetros e é recomendável descobrir aonde investem. “Faça a lição de casa de vocês e encontre o maior número de investidores possível”, pontuou.

“A mercadoria mais cara está nas mãos dos empreendedores”, opinou Daniel. Também defendeu que os empreendedores precisam falar de igual para igual com seus investidores. “É importante pensar: a gente vai ficar com a empresa de cinco a sete anos e importante refletir sobre seu negócio a todo tempo”. O diretor da Vox Capital ainda comentou sobre o 1º Fórum NIP – Negócios de Impacto Periférico, que irá ocorrer próxima sexta-feira (26 de maio), na zona sul de São Paulo, para fomentar projetos, organizações, coletivos e negócios de periferia a gerarem impacto financeiro, social e ambiental positivo para as comunidades locais envolvidas. Clique aqui para conhecer essa iniciativa.

Conheça a iniciativa Inova Capital: http://inovacapital.net.br/pb/


Crédito do texto: Susana Sarmiento