Evento em São Paulo debate Parcerias para uma Sociedade Sustentável

Desenvolvimento Sustentável e compromisso com as gerações futuras foram os principais pontos abordados na Primeira Plenária da Conferência Internacional 2005 – Parcerias para uma Sociedade Sustentável, promovido pelo Instituto Ethos na manhã da quarta-feira (08/06), no Hotel Transamérica, em São Paulo. O evento “Como a Responsabilidade Social Pode Contribuir Para o Desenvolvimento Sustentável” reuniu Fernando Almeida, presidente executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Guilherme Peirão Leal, co-presidente do Conselho de Administração Natura Cosméticos S/A, e Luís Nassif, jornalista.

Fernando ressaltou a questão da responsabilidade social e o conceito de sociabilidade. Explicou também o trabalho da CEBDS, criado em 1997 e reconhecido como um dos principais grupos empresariais, que integra uma rede de 50 conselhos nacionais com uma nova maneira de fazer negócio. Conta com 185 multinacionais, que faturam US$ 6 trilhões e geram 11 milhões de empregos diretos. “A primeira polêmica é que a responsabilidade social é parte integrante do desenvolvimento sustentável”, afirma.

O CEBDS faz parte da Comissão de Política de Desenvolvimento Sustentável e Agenda 21, do Grupo Institucional de Produção Mais Limpa, do Fórum Brasileiro de Mudança Climática, do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, do Fórum de Competitividade e Biotecnologia, entre outros.

De acordo com Fernando, é necessário que os objetivos econômicos fiquem atrelados também aos objetivos ambientais. Ou seja, a empresa não deve se preocupar apenas com o crescimento, a eficiência e inovação tecnológica, mas também com o ecossistema, o clima, a biodiversidade, a capacitação técnica. Assim, esta classe atingirá objetivos sociais, o empoderamento e eqüidade.

“Os ambientalistas não gostam do termo de desenvolvimento sustentável, pois dizem que é um desenvolvimento incompatível com a preservação ambiental. Os governos não sabem lidar com o conceito, cuja prática demanda tal grau de integração e multidisciplinariedade, que não pode ser enquadrado em um único ministério ou secretaria. A sociedade não se interessa pelo tema e os grupos econômicos clássicos me vêem como um ‘ecochato'”, revela Fernando.

Fernando exemplificou a necessidade de tomada de medidas emergenciais, quando comentou que mais de 35% dos recifes de corais e de mangues já desapareceram. Segundo ele, geralmente nas regiões do Nordeste, há muita produção de camarão e pouca gente explorando de forma consciente. “Até 2050, terá uma duplicação da demanda de energia por meio da produção de gás, petróleo e carvão. Isso causaria várias catástrofes no meio ambiente. Mas será que é preciso acontecer catástrofes para o ser humano mudar o mundo?”, questiona Fernando.

A saída apresentada por Fernando seria a comunhão entre competitividade ética empresarial e políticas públicas; inovação tecnológica com o conhecimento ecológico local e aplicação na agricultura através de sensores; geração de oportunidades com as mudanças de valores ao consumidor, mecanismos de mercado, ‘precificação’ de serviços ambientais, controle de poluição, eliminação de subsídios (fertilizantes e sobre-produção), remuneração de proprietários de serviços ambientais (como acontece em Costa Rica), novas formas sustentáveis, entre outros rumos.

O presidente da CEBDS ainda ressaltou que as atividades de desenvolvimento sustentável trazem muitos benefícios, como atração e motivação de talentos, aumento da competitividade e eficiência, redução de custos, influência de investimentos e fidelização dos consumidores, melhor relação com mídia e governo. “Algumas empresas que caminham para o conceito de desenvolvimento sustentável conseguem mais investimentos do mercado e preferência do consumi dor. Em relação à percepção prática e resultados de desenvolvimento sustentável ainda estamos no prefácio”, conclui.

Guilherme chamou atenção ao uso do termo desenvolvimento sustentável, que há alguns anos é usado por modismo. Defendeu ainda que a ciência foi uma das principais áreas que separaram o meio ambiente da sociedade, já que muitos consideram sustentabilidade como um problema institucional.

“A mudança está em cada um de nós e precisamos conhecer nossa casa planetária. Temos que pensar o que estamos fazendo aqui e para onde vamos. Se não temos consciência dificilmente adquirimos a cidadania planetária. O jogo envolve cada um de nós e não apenas as empresas”, esclarece Guilherme.

Na opinião de Guilherme, a empresa é um agente transformador cultural, disseminador de inovações tecnológicas, que tem como ferramenta a gestão responsável e é protagonista atuando de forma integrada. Já a responsabilidade empresarial são ações voltadas a longo prazo, integradas ao negócio e ligadas a uma busca mais complexa de soluções. “Não podemos perder a utopia de construir um mundo melhor, mas precisamos deste mercado seguindo uma ética. Temos que reconhecer a necessidade de uma mudança e respeitar os recursos naturais”, disse Guilherme.

Criada em 1969, a Natura é uma empresa com uma marca conhecida por seus produtos e serviços, em que tanto consumidores quanto funcionários se comprometem em construir um mundo melhor. “Ninguém transforma ninguém e olhamos nossos consumidores como parceiros. O conceito faz as pessoas terem uma base de como a sociedade pode evoluir”, defende Guilherme.

Nassif achou toda a discussão de responsabilidade social como um pensamento sofisticado. O moderador da plenária avaliou ainda que o Brasil está se descobrindo, já que as instituições trouxeram esta visão inovadora de responsabilidade social. “Este pensamento é um dos mais valiosos e nunca passaria na cabeça de um presidente do Banco Central”, ironizou.

As palavras dos participantes

O evento reuniu muitas pessoas do meio empresarial. Tassiara Camatti foi uma delas. A coordenadora de qualidade de Planejamento Estratégico e Responsabilidade Social da Unimed Nordeste no Rio Grande do Sul achou interessante a questão de responsabilidade social para desenvolver junto com sua equipe um trabalho comprometido com os termos éticos, respeitando ainda a área social. “A plenária de abertura nos permitiu ter uma visão clara de como a Unimed pode trabalhar em termos globais, visando agregar competição (estratégias de mercado) com os benefícios para toda a sociedade. Tudo está integrado”, declarou Tassiara.

Ana Claudia Govatto, sócia-diretora da M. Govatto e Associados e coordenadora de cursos de Responsabilidade Social da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, gostou da plenária de abertura, porém achou bastante genérica. “Por ser um evento anual acaba sendo repetitivo em algumas coisas. Como, por exemplo, o case da Natura, que é reconhecido nesse trabalho. O problema não é ela, mas isso mostra que são poucas empresas que tem uma gestão de responsabilidade social. Então, ela torna-se referência. De alguma forma, é importante a gente ouvir isso no meio empresarial, que, segundo os palestrantes, a atitude começa no alto escalão para depois envolver a empresa e a sociedade como um todo”, alerta a consultora.

No entanto, a advogada da Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo, Regina Helena Piccolo Cárdia, entusiasmou-se quando Nassif afirmou ver o primeiro caso de um Brasil “de ponta”. Os palestrantes experientes em responsabilidade social chamaram sua atenção. “Estou encorajada a promover mais projetos de responsabilidade social na empresa. Nós somos uma empresa grande e há muito por fazer, principalmente nessa parte de mei o ambiente interligado com responsabilidade social. Estas experiências todas vão solidificar bases para nossos projetos. Essa é a esperança de transformar como foi dito”, opina Regina.