Especialistas falam de desigualdades e editais para projetos sociais

Em sua segunda edição, o Fórum da Rede do Bem oferece palestra sobre desigualdades sociais no Brasil e como aumentar as chances de captar recursos com editais.

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O encontro pretendeu focar em um dos temas das ODSs e oferecer dicas para concorrer aos editais. (crédito da imagem: divulgação)

A Rede do Bem promoveu um encontro na última quarta-feira (19/09) para lançar o 2º Edital de Microprojetos para beneficiar três organizações com até R$ 4 mil e apresentação das ONGs vencedoras do primeiro edital. Em toda edição do evento, a organização aborda um dos temas dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODSs): nesse encontro foi a erradicação da pobreza, previsto no 1º objetivo.

Uma das organizadoras do evento comentou que já foram 500 projetos beneficiados pela Rede do Bem com objetivo de fortalecer organizações de base comunitária. Sempre nas palestras aborda um dos temas dos ODSs. No Rio de Janeiro já ocorreram 19 edições e 38 palestras. Em São Paulo, foram duas edições e duas palestras. A equipe do Rio de Janeiro realizou um mapeamento que calculou 183 organizações sociais cadastradas.
As organizações podem se inscrever no 2º Edital de Microprojetos de São Paulo. A ideia é apoiar o trabalho social feito pelas organizações da sociedade civil na cidade de São Paulo em diferentes áreas. Serão selecionados três microprojetos para receber aporte financeiro de até R$ 4 mil por iniciativa. Veja o regulamento aqui: https://goo.gl/VYSrNo

A primeira palestra foi com Rafael Georges, coordenador de campanhas da Oxfam Brasil, apresentou os principais gráficos do estudo A Distância que Nos Une, lançado no final de setembro de 2017. O estudo mostra um retrato das desigualdades brasileiras com objetivo de debater a redução das distâncias na população brasileira para uma sociedade mais justa e solidária.

“Nós questionamos o modelo econômico atual para resolver essas diferenças sociais e reverter toda situação de crise. Defendemos uma economia inclusiva, de crescimento maior entre os mais pobres, do que os mais ricos”, ressaltou.

Rafael contextualiza que as ações políticas voltadas de inclusão das classes mais pobres com programas de repasse de recursos, que iniciaram em meados dos anos 1990 foram até 2015. “Os mais pobres ganham mais do que antes, mas o que não mudou? O topo da pirâmide. Ele sempre fica entre 20 e 30%. Ou seja, uma pessoa que recebe um salário mínimo mensal levaria 19 anos trabalhando para ganhar o mesmo que 0,1% dos mais ricos”. E ainda disse que a desigualdade de renda tem sexo e cor.

Também alertou que até 60% da população brasileira recebe até um salário mínimo e até 1% dos brasileiros concentram 50% do patrimônio (concentrados em bens, imóveis, entre outros). “A base da pirâmide precisa ter incrementos maiores. O Brasil no ano passado teve decrescimento maior. Quem é mais rico de classes altas perderam renda, já os pobres perderam muito mais”.

Também mostrou a desigualdade no acesso a serviços: os 5% mais ricos são aqueles que possuem todos acesso à energia, 94% à água e 80% saneamento básico; e 5% mais pobres são os que têm acesso a 98% de energia, 62% de recursos hídricos e 24% para saneamento básico.

O coordenador da Oxfam Brasil também compartilhou que o Brasil tem aumentado os anos de estudo. “Mesmo com as políticas inclusivas, não existe ainda uma equiparação. Os médicos negros ganham menos do que os brancos e acabam fazendo outras escolhas”, observou. Chama atenção para a discriminação: negros com ensino superior ganham, em média, 75% do que ganham brancos da mesma faixa educacional; mulheres com ensino superior ganham, em média, 63% do que ganham homens; e uma médica ganha 64% do que ganha um médico. Ainda comentou que a organização defende: fortalecimento do trabalho, aumento real do salário mínimo, controle inflacionário e fortalecimento da política trabalhista.

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O coordenador do estudo mostra os principais gráficos para alertar a situação da desigualdade social agravante no Brasil. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Rafael também apresentou dados da consulta sobre percepções que a sociedade possui sobre esse tema, chamado Nós e as Desigualdades, publicada em dezembro do ano passado. Existe uma má interpretação e as pessoas têm dificuldade de se classificar corretamente na classe social, em que se encontram. E finalizou sua apresentação com a apresentação das 10 Ações Urgentes Contra as Desigualdades no Brasil, para ajudar o cidadão na identificação de candidaturas com propostas alinhadas na redução dessas desigualdades no país, clique aqui para conhecê-las: https://goo.gl/n5QHbb

Houve a apresentação das organizações que foram beneficiadas na primeira edição do Microedital divulgado no primeiro semestre deste ano. Elizandra Cerqueira, presidenta da Associação das Mulheres de Paraisópolis, compartilhou o trabalho da organização que desenvolve há 11 anos na comunidade com foco em empreendedorismo em projetos de combate à fome, igualdade de gênero e capacitação profissional. O lema da organização é que lugar de mulher é aonde ela escolher atuar. Dessa forma, a organização oferece programas e projetos diferentes, como: culinária doces e salgados, culinária de sabores do Brasil, assistente de cabeleireiros, encanadora, assentadora de piso e pedreira, corte e costura, costurando sonhos, Viva Leite, Horta na Laje e bistrô e café Mãos de Maria.
Claudia, da Fundação São Joaquim, falou sobre o Centro de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, um espaço em Carapicuíba (SP) que oferece diferentes atividades de lazer e de interação a idosos. “Trabalhamos para essa pessoa volte na relação com outras. A verba nos ajudou na compra de computadores e na manutenção dos equipamentos da atividade de inclusão digital”. A terceira organização beneficiada foi o Centro Educacional Luz e Lápis, com duas unidades escolares, uma em Santo Amaro e outra na região da Guarapiranga, que atende cerca de 200 crianças de um a 5 anos de 11 meses de famílias de baixa renda e situação de vulnerabilidade social. Isabela Guimarães, diretora da organização, comentou que todos os profissionais são considerados educadores. E, finalmente, o Centro de Defesa e Convivência da Mulher Cidinha Kopcak foi o último a se apresentar e atende mulheres que passaram por situação de violência no bairro de São Mateus na zona leste de São Paulo. O dinheiro do edital proporcionou a reforma de uma das salas do espaço para instalação de um teto com manta térmica. “Esse espaço é destinado para as oficinas e rodas de conversas”, afirma a responsável pela organização.

Dicas para mais editais

Como melhorar as chances para captar recursos pelos editais? Essa foi a questão central da palestra de Bruno Barroso, sócio-fundador da plataforma de editais Prosas (https://prosas.com.br/home) e da Nexo Investimento Social. O jovem compartilhou que o canal já divulgou 3.900 editais de forma gratuita. Foram mais de 120 editais inscritos pela plataforma, envolvendo 43.811 cidadãos, 18.220 empreendedores, 191 patrocinadores e 1883 projetos.

Bruno comentou que costuma escutar de empresas que querem investir e elas têm diferentes percepções. E também trabalha do lado de quem capta recursos aos projetos. Atualmente, a plataforma está publicando 25 editais por semana e o ano passado calculou o valor total de R$ 1.544.536.397. Em 2017, foram 458 editais divulgados, somente 38% falaram realmente seu orçamento total para esse tipo de investimento. “Em dados do GIFE, foram 4 bilhões no ano passado nessa área”. Dos 10 maiores editais, nove eram do governo e um deles do Fundo Amazônia com R$ 200 milhões para recuperação dessa região.

46% dos editais são da área de cultura e artes. E 2/3 dos editais nos seguintes segmentos: música com 19%, audiovisual com 17%, artes visuais com 11% e literatura com 10% e 10% para teatro. Em relação à público, 53% dos editais são voltados para três perfis: infância e adolescência (19%, juventude (17%) e mulheres (17%).

Os meses de agosto até outubro são os que mais têm editais encerrando. São 85 inscrições em média por edital. 62% dos editais ficam abertos de 30 a 45 dias. 57% aprovam até 10% dos inscritos.

E o que aprenderam com os editais no Prosas? Primeiro planejar para se organizar com uma antecedência de um mês. E a maioria deixa para efetivar a inscrição nos últimos cinco dias. Bruno compartilha os clicks de acesso da plataforma próximo a data de encerramento de editais. Outra dica importante é: nem todo edital é possível concorrer. Necessário ler com atenção o regulamento e ver se realmente os projetos se encaixam com o que pede o investidor.

Outras sugestões importantes: demonstrar o impacto da sua organização, quem integra sua equipe e o que cada um ficará responsável, e o que torna o seu projeto especial frente aos critérios do edital e como irão medir o sucesso dele. Também fala sobre a importância dos indicadores hoje quantificáveis e mensuráveis, confiáveis e válidos para medir mudanças específicas e reais. Manter a documentação em dia, como estatuto, atas de eleição, CNDs municipais, estaduais e federais, relatório de atividades do ano anterior e balanços financeiros.

Bruno também falou sobre as tendências nessa área, como a discussão do Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, em que classifica o edital como chamamento público; aumento do número de editais das empresas, devido a questões de transparência e economia; seleção direta por questões de compliance e evitar casos de corrupção. Também atentou o aumento de número de fundos, que captam e repassam verbas para microprojetos, como: Fundo Positivo, Fundo Baobá, Fundo Elas, Fundo Brasil e Fundo Socioambiental.

No blog do Prosas, pode acessar o Guia completo sobre editais na área social: https://goo.gl/fJ1uPw

Prosas: https://prosas.com.br/home
Regumento e inscrição para 2º Edital de Microprojetos SP: https://goo.gl/58jYeh