Estudantes da Escola de Jornalismo da ÉNóis lançam guia gastronômico com restaurantes até R$20

15156891_1188863737872839_7938420385378510891_oOs estudantes da Escola de Jornalismo da ÉNóis entram em ação novamente, dessa vez falando sobre um assunto que agrada todo mundo: comida. Da tapiocaria em Guarulhos ao acarajé de Paraisópolis, os jovens mapearam 70 restaurantes localizados em diversas periferias de São Paulo. Desse total, os 40 melhores viraram o Prato Firmeza – Guia Gastronômico da Quebrada.

A ideia surgiu em 2012, em uma oficina criada pelas jornalistas Amanda Rahra e Nina Weingrill na Casa do Zézinho, ONG localizada no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Amanda conta que foi um de seus alunos, Matheus Oliveira, quem deu o pontapé inicial. “Ele queria ser cozinheiro, mas reclamava muito do preço dos cursos e valor dos restaurantes. Então eu o aconselhei a procurar, no bairro onde morava, lugares que oferecessem comida boa por até 20 reais. Nós dávamos o dinheiro e ele corria atrás”. O primeiro estabelecimento encontrado por Matheus foi Ateliê Sustenta CaPão, padaria artesanal autossustentável na região. “Nessa época nós tínhamos parceria com o Catraca Livre, no qual publicávamos eventos da periferia. Começamos a divulgar nesse canal. Usávamos o gancho da agenda para incluir a dica do lugar para comer, que complementava as agendas”, contou.

Durante o desenvolvimento do projeto, as jornalistas perceberam que o mesmo poderia ser descentralizado. Ou seja, poderia englobar outras periferias. Em 2013 o mesmo foi aprovado em edital do Proac, na categoria gastronomia, inovação e moda. Com o prêmio de R$20.000,00 em mãos, cinco repórteres ficaram encarregados de fazer o mapeamento do bom, bonito e barato. Foram levantados 30 lugares e, em parceria com uma rede de mercados, foi feito o lançamento do material na região de Pinheiros. “Nós fizemos um PDF e publicamos na internet e após isso, inscrevemos na Lei Rouanet. Aprovaram e nós ficamos um ano para captar. Perto do prazo final, o Atacadão, nosso parceiro há dez anos, decidiu apoiar via Lei de Incentivo”.

A publicação conta com diversas opções para todos os gostos. Foram cerca de dois meses de apuração. Comida nordestina, doce, salgado, lanche e por quilo. Além disso, traz itinerário para chegar aos locais de transporte público e média de preço de cada um dos estabelecimentos. Guilherme de Sousa, atual coordenador do PF e gastrônomo formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie conta que não basta um bom menu para ficar entre os melhores, a história e ambiente também contam pontos.

“Uma das histórias que mais me marcou foi a de um restaurante japonês no extremo sul. Entre as opções havia um yakissoba feito com quiabo, bacon, ovo frito e filet mignon. Na hora assusta, mas o dono do restaurante contou que fez em homenagem ao amigo nordestino que declarou que só comeria comida japonesa o dia que ele colocasse quiabo nela. Foi o que ele fez, e ficou incrível. É a fusão de duas culturas diferentes”, disse o jovem. “Tudo é muito simples e isso só confirma a teoria de que as pessoas não ligam para o luxo, mas sim para o conteúdo”.

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Entre os escolhidos que não são exatamente um restaurante, está o Lagartixa Verde, coletivo anarquista no ABC Paulista, que promove no primeiro sábado de todos os meses uma pizzada vegana no valor de R$18.

O jovem afirma, também, que trabalhar no projeto fez com que ele conhecesse lugares que faziam parte de sua rotina, mas que ele não dava atenção. “Eu tive que passar a descer do ônibus e entender que nos mais diversos locais da cidade haviam pessoas, vidas e tudo isso acontecia fora do centro”.

Além disso, três tópicos foram criados dentro do exemplar. Lugares para #LevarOCrush, ou seja, namorar, #SairRolando, para comer bem e gastar pouco, e por fim, #JuntaMais, usada quando 20 reais não são o suficiente. Guilherme destacou como um de seus preferidos o Casa na Árvore, estabelecimento que conta com pista de skate, música ao vivo e grafite.

O que predominou no guia foi junk food em Itaquera e Guaianazes, bairros da zona leste da capital paulista. Para o próximo ano, na segunda edição do guia, Guilherme pretende focar em outros tipos de pratos. Ressaltou também que pensa em trazer novas versões, com foco em outras pautas, não somente gastronomia. De acordo com o aluno, é algo a ser estudado, mas não descarta a possibilidade.

Guilherme afirma que uma das dificuldades encontradas foi a falta de confiança por parte dos donos de estabelecimentos. “Quando nós chegávamos e anunciávamos que éramos repórteres, ninguém dava credibilidade. Até que um dia, em um restaurante nordestino, nós começamos a tirar fotos e o dono nos levou a sério. Foi uma situação atípica”.

Pontua, por fim, vê no guia uma importância política. “É essencial ter um instrumento que mostra as coisas boas em todos os lugares da cidade, e para que as pessoas da periferia se sintam mais representadas”. Tanto Guilherme quanto Amanda dizem que esse é o objetivo principal da publicação, e na opinião dos dois, ele foi cumprido.

A ÉNóis promoveu, em parceria com o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, um debate sobre o PF, que, de acordo com Amanda, teve feedback positivo. “Nós reunimos o público externo, leitor, para conversar. Tinha muito estudante realmente interessado no que nós tínhamos para falar”.

De acordo com Amanda Rahra, no dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, o PF será oficialmente lançado na livraria Martins Fontes.

A ÉNóis foi fundada em 2013 e está localizada no centro de São Paulo. A escola de jornalismo surgiu com o objetivo de ensinar jovens de periferias a produzir conteúdo jornalístico independente. Hoje a iniciativa conta com uma formação de 10 meses. O critério de seleção é simples e não tem nenhum tipo de prova. Basta ter de 15 a 21 anos e preferencialmente vir de escola pública, além de ter habilidades de comunicação.

Serviço:

A publicação está à venda no site da ÉNóis no valor de R$20, e com os próprios alunos. Para mais informações, acesse: https://enoisconteudo.com.br/ ou https://goo.gl/Y2WKqd


Crédito do texto: Gabriela Lira Bertolo
Data de publicação: 23/12/2016