Especialistas falam sobre a importância de discutir sistema escolar, papel dos professores, estudantes e educadores para a educação com qualidade nas sociedades sustentáveis

ultnot-topo-coberturasustentavel2015“O papel central da educação para sociedades sustentáveis”: Esse foi o tema do segundo painel do 7º Congresso Internacional Sustentável 2015: O Futuro é Agora, conhecido como Sustentável 2015, que ocorreu no dia 8 de outubro em São Paulo, promovido pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Com mediação do presidente da entidade, Raphael Rodrigues, o momento proporcionou falas de agentes de peso no cenário da educação brasileira.

O primeiro a falar foi Daniel Vargas, professor de direito da Fundação Getúlio Vargas. Sua argumentação foi centrada no sistema federativo de organização do país. Segundo ele, o federalismo pode ser definido como “um conjunto de práticas e regras que, em determinado momento histórico, organiza a maneira como entes da federação – união, estados e municípios – junto à sociedade civil devem colaborar para resolver seus problemas”. No entanto, ele explica que essa maneira de organização pode trazer três problemas que, embora causados pela mesma origem, são considerados pelo professor como paradoxais.

O primeiro deles é que as regiões do Brasil que hoje possuem as maiores dificuldades com educação e, consequentemente, a maior necessidade de resolvê-los, acabam isoladas dos outros, sem ajuda. “Se uma criança deu azar de nascer em uma comunidade pobre e isolada no interior do Amazonas, isso acaba sendo um problema dela e não do resto do país”, exemplificou. A segunda questão diz respeito ao extremo oposto: as regiões mais bem-sucedidas em suas políticas acabam submetidas ao mesmo controle de outros locais com diferenças em seu desenvolvimento, limitando seus horizontes de progresso. “Algumas escolas estão atingindo a nota nove na Enap (Escola Nacional de Administração Pública). A maneira como são tratados os exemplos de sucesso é premiando seus melhores cases com uma camisa de força”, afirmou Vargas.

Por fim, o terceiro paradoxo, caracterizado pelo professor como sendo um pouco mais genérico é explicado por ele: “o brasileiro é marcado por uma empatia intensa. Ao mesmo tempo, as regras que hoje disciplinam a organização do Estado nas suas trocas de experiências, de quadros e de recursos caminham em sentido contrário, impedindo que nós colaboremos ou avancemos”. Para solucionar esses conflitos, Vargas sugere que sejam criadas redes entre especialistas e lideranças dos estados para mobilizar regiões em prol daquelas com mais dificuldade, além de oferecer autonomia progressiva, de acordo com o rendimento de cada local e, afinal, consolidar canais efetivos de comunicação e colaboração entre os entes federados.

Em seguida, foi a vez de Maggi Krause, diretora da Fundação Civita, expor seus pensamentos. Segundo ela, a instituição defende que os professores são profissionais como quaisquer outros. “Não são heróis nem coitados. Merecem ter uma boa formação, salário decente, ambiente de trabalho digno, com estrutura e materiais que apoiem suas práticas, e também com gestores capacitados que possam ajudá-lo a crescer na carreira e se aprimorar cada vez mais”, refletiu.

A diretora explicou que o trabalho da Fundação está alinhado especialmente ao quarto Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS), Educação de Qualidade, pois auxilia na formação de professores e gestores escolares. O primeiro grupo é atendido pela Revista Escola, existente há 30 anos. Atualmente, o site do veículo conta com mais de dois milhões de visitantes únicos por mês. O principal objetivo é promover informações que possam ajudar de maneira o cotidiano do profissional. “A lacuna do professor é principalmente na formação inicial. Quando sai da graduação, geralmente sabe muito da teoria e pouco da prática”, diz.

Já para coordenadores e diretores pedagógicos, há a Revista Gestão Escolar. “Atualmente são 250 mil visitantes únicos no portal. Fizemos recentemente um estudo que provou que as pessoas chegam até o rodapé da página, ou seja, são muito carentes de informação”, comentou ela sobre as visualizações do site. O principal objetivo da Fundação Civita é contribuir com o fornecimento de informações. “Nós não somos o governo para pagar melhores salários aos professores, promover mudanças, alterar as estruturas das escolas ou dar formação nas redes de ensino, mas oferecemos a oportunidade desse educador melhorar na profissão”, esclareceu Maggi.

A entidade também promove o prêmio Educador Nota 10, que seleciona dez práticas de excelência por ano e mantém a plataforma Nova Escola Clube, que serve como ferramenta para que professores e gestores troquem informações, organizem planos de aulas e insiram conteúdos que julguem interessante. A diretora finaliza: “queremos um educador empoderado, bem formado, com vontade de fazer a diferença para as próximas gerações. O futuro a gente constrói a cada momento, sem esperar as condições ideais, mas com propósito e determinação. ”

Do lado da mesa

Durante a apresentação de André Barrense, o foco passou a ser nos estudantes. O sócio-diretor da plataforma Geekie, que aposta na personalização da educação aliada ao uso da tecnologia como fórmula de sucesso. Segundo diagnóstico apresentado por ele, apenas metade dos jovens brasileiros concluem o ensino médio e, entre eles, somente 10% adquirem conhecimentos adequados em matemática. “Como todo grande problema, esse é impossível de ser solucionado sozinho. A saída para isso passa pela cooperação entre atores diferentes: governo, empresas e fundações, escolas. A Geekie se encaixa como um deles”, contou.

De acordo com Barrense, a primeira plataforma de personalização credenciada pelo Ministério da Educação (MEC) busca responder a seguinte questão: se todos apendem de maneiras distintas, por que ainda se ensina de maneira homogênea? Em parceria com instituições públicas, 21 secretarias de Estado no país tiveram gratuitamente acesso ao Geekie durante cinco meses. “A gente parte de um pressuposto de que é preciso entender e diagnosticar as lacunas de aprendizado e habilidades a serem desenvolvidas. Ela vira um coach do aluno, apostando no processo de autorresponsabilização e autogestão”, explica. Dessa forma, tanto os estudantes quanto os educadores têm clara a evolução e o progresso de cada um.

Nesse período, os resultados mostraram alcance a três milhões de alunos, sendo que a penetração dentro dos mil municípios com pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi de 78%. Além disso, 52% das mães dos jovens que fizeram parte do projeto não tinham concluído o ensino médio. Sobre esses dados, André comentou: “a tecnologia tanto rompe barreiras de pobreza como pode romper barreiras intergeracionais de falta de acesso à educação de qualidade”. Foi constatado também que o tempo de acessos à plataforma equivaleu a quase meio turno a mais de horário escolar e que, a cada aula assistida na Geekie, os estudantes aumentavam em 1,6 suas notas dentro da métrica adotada pelo Exame Nacional do Ensino Médio.

“Todo mundo vem me perguntar se a tecnologia é a solução. Não é, mas ela é parte da solução”, afirmou Barrense. Para ele, lucro, benefício social e desenvolvimento podem caminhar juntos. E finalizou sua fala fazendo uma provocação a respeito da colaboração: “se pudéssemos medir cooperação numa escala de zero a dez, como evoluirmos? Não existe maias bala de prata se a gente não for colaborativo. Para mim, isso é a resposta de como será o futuro se a gente quiser ser sustentável”.

A favor do educador

Por fim, o último a se apresentar foi o educador, folclorista e antropólogo, Tião Rocha. Depois de anos lecionando dentro do ensino formal, contou que em determinado momento de sua vida decidiu sair do emprego na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), pois queria deixar de ser professor para se tornar educador. “A diferença é que o professor é aquele que ensina e educador é aquele que aprende”, explicou. Ele relatou que sua vontade de mudar não se encaixava mais no funcionamento da universidade e, assim, percebeu que era ele quem estava no lugar errado.

Foi, então, que fundou o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD). “Será que é possível fazer educação sem escola, debaixo de um pé de manga? ”, questionou-se ao perceber a evasão das instituições de ensino. As perguntas que o instigaram trouxeram com o tempo as respostas: “Educação e escolarização são coisas distintas. A primeira é um fim, mas a escola é um meio. Se ele não funciona, é preciso mudá-lo. Mas é impossível fazer educação sem bons educadores”, concluiu. Sua experiência também o levou a perceber que a aprendizagem pode ocorrer de forma mais leve, como uma brincadeira.

Sua procura o levou a lugares como o Vale do Jequitinhonha, o Vale São Francisco, o interior do Maranhão e até na África, local marcante para ele, pois para além dos aspectos que já estava acostumado a lidar, lá se confrontou com crianças e jovens sem perspectivas. Foi em uma escola construída em zona que tinha passado por conflitos cujo funcionamento dependia de toda a comunidade que Tião aprendeu mais uma vez: “para educar uma criança é necessária uma aldeia”.

Enquanto isso, o modelo tradicional de escola fica cada vez mais para trás na concepção de Rocha. “Para mim, a grande mudança é quebrar a escola por dentro, quebrar paredes, disciplinas. Projetos isolados não transformam comunidades. É preciso construir causas”, disse. Segundo ele, a educação se forma em relações de troca entre dois ou mais indivíduos e a antropologia lhe foi útil por ensinar a importância de considerar o ponto de vista do outro, ou, em suas palavras: “A vista que o outro ocupa do ponto em que está. Aprender o outro é aprender os seus fazeres, seus saberes, seus quereres. ”

Para isso, ele considera que é necessário deixar um pouco de lado os problemas da educação para encarar mais suas possibilidades. Ele citou como exemplo o IDH, o qual declarou que lhe interessa pouco, pois seu foco mesmo é o que chamou de IPDH. “O Índice do Potencial de Desenvolvimento Humano é a capacidade que temos de acolhimento, convivência, aprendizagem e oportunidade”, disse Tião.

Serviço:

Site do evento: http://www.sustentavel2015.com/


Texto: Natália Freitas
Data original de publicação: 21/10/2015