Especialistas debatem temas de cultura de paz no Senac Itaquera

O evento promoveu três rodas de conversa, vídeo com depoimentos de alunos e atração musical.

cultura-de-paz-roda-conversa-itaquera
Roda de conversa sobre mediação de conflitos enfatiza importância da tolerância e saber ouvir o outro. (Crédito da imagem: Nathalye Do Nascimento)

Sem museus, poucas opções de cinema (0,493%), baixa quantidade de acervo de livros para adultos e público infantil (0,154% e 0,131, respectivamente), 12,83% de área verde pública por habitante, mortalidade infantil girando em torno de 9,92% e 5,06% de domicílios em favelas sobre o total de domicílios. Todos esses dados são da região de Itaquera no Mapa da Desigualdade, lançada pela Rede Nossa São Paulo no segundo semestre do ano passado.

Itaquera é um dos bairros mais vulneráveis de São Paulo. A falta de oportunidades de lazer contribui para os casos de violência da região. Para contribuir com essa situação, o Senac Itaquera desde junho desenvolveu uma série de atividades educativas aos seus alunos, seus docentes e alunos de escolas públicas e privadas da região. Na manhã da última terça-feira ocorreu Redes Sociais & Cultura de Paz, com apresentação de vídeos e depoimentos das pessoas envolvidas nas atividades, rodas de conversas, palestra e atração musical.

No início houve apresentação de um vídeo feito pelos alunos com coordernação de um dos docentes da unidade para reunir os depoimentos de algumas pessoas que participaram das ações nesse período sobre cultura de paz. Scheila Cristina Stach, docente e mediadora de cultura de paz, e Eliany Moscato Pozzer, supervisora educacional da unidade explicaram todas as ações realizadas de junho até início de outubro e agradeceram todos que contribuíram com a iniciativa. Foram feitas diversas atividades, como: rodas de conversas, apresentação de vídeos curtos no início das aulas, quebra cabeça na biblioteca. Os temas variavam de mediação de conflito, ouvir o outro, empatia, diálogo, feminicídio, racismo, homofobia até práticas restaurativas. Também houve contadores de histórias que ajudaram a sensibilizar as diferentes equipes do Senac Itaquera e educadores da Fundação Casa capacitados pela equipe de profissionais da Associação Palas Athena. Os depoimentos, em resumo, falaram muito sobre o aspecto positivo de ter contribuído com pensamentos diferentes, aproximação para conhecer o outro, equilibrar a “balança” da justiça, aprender a ter mais tolerância e se colocar no lugar do outro.

As rodas de conversa falaram de violência urbana, o papel da família na construção da família e mediação de conflito para um ambiente harmonioso e produtivo. A equipe do Setor3 acompanhou a conversa sobre Violência Urbana: Escolas e Ruas, mediado por Mona Perlingeiro, bacharel e licenciada em ciências sociais pela Universidade Federal de São Paulo, pesquisadora de história e cultura árabe, povos do Oriente Médio e Norte da África, e educadora popular.

Mona focou sua fala numa perspectiva sociológica. Primeiro comentou sobre as mudanças da sociedade após as Revoluções Francesa e Industrial e como poderiam ter impactado. Também incitou as pessoas a pensarem na formação das grandes cidades, de onde vieram, qual cidade de origem e de suas famílias e o que significava estar ali. Em seguida, dividiu os participantes em quatro grupos para refletirem sobre a frase citada no documentário chamado Holocausto Brasileiro: “Todo doente mental é, antes de tudo, um doente social”.

cultura-de-paz---senac-itaquera
Roda de conversa sobre violência urbana nas escolas e nas ruas. (Crédito da foto: Nathalye Do Nascimento)

Os grupos falaram que a família é a primeira sociedade e se ela já desestruturada, há uma tendência de que a criança carregue tudo o que vivenciou; os seres são considerados únicos por questão de sua identidade e cada um reflete ainda suas relações interpessoais; a escola ensina competências sociais; a necessidade de olhar o outro por inteiro; a pressão do ritmo de vida nas grandes cidades urbanas e como isso influencia nas doenças mais atuais; o que é ser bem sucedido nos dias de hoje.

Para concluir a roda, Mona explicou brevemente a história do documentário, em que eram enviadas pessoas consideradas doentes num manicômio na cidade mineira de Barbacema, não necessariamente doentes, mas marginalizadas. “Na visão sociológica, a primeira sociedade é a família, a segunda é a escola e terceira, a rua”. A educadora ainda fez uma rápida explicação sobre meritocracia e alteridade, temas discutidos ultimamente.

Troca de rodas

Após a finalização das três rodas de conversa, o público e os mediadores foram para o auditório para compartilhar resumidamente o que foi debatido. Mona foi a primeira a falar e citou a frase em que os grupos refletiram para contextualizar a violência nas cidades. Ela comentou que os participantes abordaram muito sobre como as famílias influenciaram, e citou até o caso da Cracolândia, um problema de saúde pública que ocorre no centro da capital paulista. “Não posso fazer avaliação psicológica, consigo no aspecto sociológico a área que estudo”.

Já Marli Pereira da Silva, coach, facilititadora em processos de desenvolvimento humano e organizacional, coordena o Programa Muitação (formação de jovens da unidade de desenvolvimento social do EcoSocial) e membro do EcoSocial e sócia na Logos Desenvolvimento Profissional, mediou o debate sobre como a família pode contribuir no cenário de violência em que vivemos hoje na sociedade. Ela comentou que as pessoas dessa atividade falaram como podem cuidar da família, como cuidar de mim, como eu posso me desenvolver. “Eu preciso estar bem para ajudar os outros nesse processo de uma forma inteira construtiva. E o que preciso fazer? O que isso impacta no mundo e nas minhas relações? Mudo a partir das minhas manifestações, quebrar padrões”.

roda-de-conversa---cultura-de-paz-2
Roda de conversa sobre o papel da família e da comunidade na construção de uma nova sociedade. (Crédito da foto: Nathalye Do Nascimento)

Silvio José Pereira Ignácio, psicólogo e administrador, com experiência na área organizacional e clínica coach de executivos. O consultor mediou palestra sobre educação emocional e elogiou os comentários dos participantes, que já sabiam a importância de ter mais tolerância com o outro e saber ouvir. “Dos sete até 14 anos de idade, é uma fase bem importante na formação da personalidade e muitas vezes não tem aceitação de si mesmo. Se olhar na história de vida, encontra muita explicação”, ressaltou. Ele também chamou atenção para o excesso de tecnologia de informação. “Isso vira uma doença, quando tira o direito da convivência. Há uma desensibilização sistemática, em que as pessoas são influenciadas a se aprenderem a desumanizar e surge o retraimento social, o nervosismo e até a desobediência”.

Dados na mão

Na unidade de Itaquera, o comitê de cultura de paz, um grupo voltado para estimular o debate sobre o tema no dia a dia, é formado por oito funcionários de diferentes áreas. Scheila e Eliany explicaram que essas ações contribuíram na redução de situações de preconceito e mudanças no comportamento de alguns alunos. Foram impactadas 260 pessoas em temas transversais, 150 em práticas, 45 professores e 15 funcionários da Fundação Casa. Nessa última terça, participaram cerca de 70 pessoas da comunidade.

A docente Scheila compartilhou que algumas situações em sala de aula possibilitaram os alunos se conhecerem de verdade, se olharem e trocarem experiências. Já as escolas parceiras querem continuar com essas ações, porque contribuiu muito para debater temas, como: gênero e homossexualidade. Ela espera que essa jornada de cultura de paz ocorra o próximo ano e aumente o número de multiplicadores dentro da unidade até para cada vez mais pessoas entenderem esses temas tão importantes para um dia a dia mais tranquilo.