Entidade procura valorizar autoestima de pessoas em situação de rua por meio da fotografia, escrita, filosofia e pilates

7234Autoestima é a palavra de ordem dos participantes do Trecho 2.8. Eles não cansam de repetí-la de boca cheia. Dulcineia de Oliveira, 43 anos e em situação de rua há três, conta que nem sabia o significado desse termo antes de ser selecionada pelos organizadores da iniciativa. Jorge Barbosa, de 36, não fala sobre o passado, porém aponta que, depois de apresentado à fotografia, principal assunto abordado nos encontros dos quais participa, sentiu ser capaz de aprender qualquer coisa.

O Trecho 2.8 é uma iniciativa que estimula as artes visuais, filosofia, escrita e pilates a moradores de rua. O título do projeto vem do jargão conhecido ao público-alvo, que significa trecheiro, aquele que vaga por aí. A ideia do Trecho 2.8 surgiu do professores de filosofia Donizete Soares, do Instituto GENS, e de Marcos Amaro, presidente do Instituto Brasis. Eles atentam que, diferente de muitas iniciativas voltadas para capacitação profissional, essa proposta tem como principal meta de estímulo intelectual, mental e corporal dos participantes.

Uma das coordenadoras, Grácia Lopes Lima, que também dá aulas de fotografia artística para as duas turmas de 12 pessoas cada, a “experimentação é a chave”, diz se referindo aos encontros que acontecem duas vezes por semana e não podem ser classificados como capacitação ou curso. “Ninguém está aqui para ensinar, apenas para fortalecer essas pessoas em fase tão complicada”, completa. Os participantes foram selecionados por meio de entrevistas e indicações de pessoas ligadas a entidades envolvidas com arte. O pré-requisito para a seleção é a determinação de querer mudar de vida.

Os encontros acontecem num andar inteiro de um prédio da Rua Rego Freitas, localizado no centro de São Paulo. Em um amplo espaço, conta com dois ambientes grandes: uma sala de conferências para os encontros teóricos e um ateliê onde é colocado em prática o conteúdo ensinado. A primeira turma, iniciada em janeiro de 2010, já passou para a segunda fase do aprendizado de fotografia, que envolve aspectos mais técnicos no manuseio de materiais e é ministrado por fotógrafos profissionais, contratados. A segunda turma, mais nova, há quatro meses – desde março desse ano – está na parte artística do processo e é estimulada a treinar o olhar sobre as coisas.

Jorge Barbosa, que faz parte do grupo mais recente, conta: “Já vejo o mundo diferente, com mais atenção que antes”. No último dia 5/7, o Brasis ministrou a primeira aula de pilates, introdutória, em que o conteúdo próximo foi explicado. Para os organizadores, cuidar da corpo é tão importante quanto cuidar da mente. Por isso, os pilates está entre as disciplinas.

O outro coordenador-professor, Edson Fragoaz, psicólogo e artista visual do Instituto GENS, destaca que o desempenho deles sempre foi satisfatório e que não há diferenças nesse sentido entre os 24 participantes. Para ele, a razão de existir do projeto é “sensibilizar o olhar a partir das fotos, tornando a fotografia uma forma de expressão e comunicação”. Marilza da Silva Soares, 43, é da Turma I e já estendeu sua arte além da maneira corriqueira. Em seu fluxo de produção, a fotografia é o último estágio de um processo, que começa com a ideia “que vem a qualquer hora”, depois é reproduzida num esboço em papel para enfim tomar forma em tamanho real, antes de se tornar foto. “O trabalho que mais gosto é o do cisne, que vi uma vez na TV e quis transformar em fotografia. Peguei carvão para o pescoço, coco ralado para o corpo e misturei outras coisas para chegar no marrom do bico. A foto veio só depois”, lembra. Porém, Fragoaz ressalta que em algumas ocasiões as dificuldades têm relação com o dia a dia das pessoas que frequentam o espaço. “Eles nem sempre estão bem alimentados ou dormiram direito, por conta da situação que se encontram”, conta. Ao final de cada dia de atividades, é oferecida uma refeição.

Cada etapa dura onze meses. A fotografia é o foco principal, mas as atividades secundárias, como a oficina de escrita e de filosofia, são livres para quem já faz parte do projeto, que já deu resultados: duas exposições com a produção dos moradores da Turma I já aconteceram. A primeira, “Fendas da cidade”, aconteceu em janeiro desse ano no Conjunto Nacional, localizado na avenida Paulista. Já “Movimento coletivo” ficou exposta durante um mês e meio, entre e março e maio passados, na Galeria da Rua, um espaço itinerante de arte que tem como organizador o presidente do Brasis. Como cita Edson Fragoaz, ambas tiveram ampla repercussão da grande mídia, nacional e estrangeira, por conta do material apresentado. “É muito supreendente ver esse tipo de desfecho, pois não tínhamos noção nenhuma do que aconteceria quando começamos o projeto”, conta e complementa: “É muito interessante ver como cada um vai construindo um estilo e um olhar próprio”. Por enquanto, ainda não estão confirmados eventos com a produção da Turma II, mas há negociações.

No entanto, o fim desejado pelo Brasis para os trabalhos artísticos é o comércio e a geração de renda. Fragoaz explica que oportunidades profissionais já foram criadas a partir da Caititi, empresa social de licenciamento de imagens desenvolvida pelo Brasis para dar retorno financeiro aos membro do Trecho 2.8. Grácia define o termo como empresa social. Ela explica: “uma empresa em que o lucro não volta para o investidor, mas sim para os ‘funcionário’ e para a própria empresa”. Também citou o economista premiado pelo Nobel da Paz de 2006 e criador desse termo, Muhammad Yunus, em que fala que a empresa social é como todas as outras, mas a grande diferença é que a maximização dos lucros financeiros é substituída pela maximização do benefício social. Fragoaz comentou que Caititi já conseguiu licenciar fotografias para estampar camisetas, que vão ser comercializadas.

Além disso, uma bolsa de meio salário mínimo é dada por mês para complementar a renda dos participantes. Para Weldenício Vicentim, de 38 anos, dos quais oito passou entre a rua e albergues da prefeitura, esse quesito não é o mais importante. “Essa oportunidade despertou o interesse de todos”, diz. É unânime, entre os participantes, a vontade de trabalhar ou ter uma relação mais profunda com fotografia quando concluírem os dois anos do projeto.

Serviço:

Instituto Brasis: www.institutobrasis.com.br
Instituto GENS: www.portalgens.com.br