Em segunda edição, pesquisa atualiza dados sobre os idosos do país

Sesc São Paulo em parceria com a Fundação Perseu Abramo traz levantamento sobre o imaginário social brasileiro da velhice e sugere políticas públicas.

Capa do estudo com imagens de idosos em situações de lazer e título:
Outro fator preocupante foi a solidão. Muitos sentem falta de sair com amigos pela dificuldade em se deslocar. (crédito da imagem: divulgação)

Com o título Pesquisa Idosos no Brasil: 2d. edição – O que mudou nos últimos 14 anos? Foi o debate na última sexta-feira à tarde (21/08) com as seguintes pesquisadoras: Vilma Bokany, doutoranda em Sociologia (PUC-SP) e coordenadora do projeto de pesquisa Idosos no Brasil II, e Rachel Moreno, psicóloga mestre em meio ambiente e sociedade e especialista em sexualidade humana, com mediação de Ioná Damiana, socióloga, assistente técnica da Gerência de Estudos e Programas Sociais Atriz (INDAC).

O encontro marcou a lançamento da segunda edição da Pesquisa Idosos no Brasil: Vivências, Desafios e Expectativas na Terceira Idade, em que comparam respostas de idosos e jovens sobre o ser idoso e aborda temáticas como: uso de internet, autoimagem, moradia, relações familiares e laços afetivos, preocupação com a morte, entre outros temas. Realizada entre janeiro e março de 2020, o levantamento oferece um novo olhar sobre as questões levantadas em sua primeira edição (2006), como: a noção do que é internet, por exemplo, houve um aumento de 18% no número de idosos que afirmam saber o que é a internet (81% em 2020 contra 63% em 2006). Já 23% afirmam “usar sempre” a rede, contra 19% que dizem “não saber o que é” – dados ainda referentes à pesquisa de 2020.

Esses dados servirão para inspirar o Sesc pautar suas ações programáticas e também podem contribuir com pesquisadores, profissionais de áreas relacionadas e outros interessados pelo tema de envelhecimento.

O levantamento mostrou que 17% dos entrevistados vivem sozinhos e apenas 33% dividem a casa com outra pessoa — que, em sua maioria, também é idosa. Nesse cenário, a solidão causada pelo isolamento social castiga com ainda mais força os idosos que já vivem em certo afastamento. Sair de casa, para este grupo de pessoas, se torna uma válvula de escape e, em certos casos, essencial para a sobrevivência.

No esporte, lazer e renda, a caminhada segue como campeã no ranking de atividades físicas citadas, com 46% de aderência dos idosos. Em segundo lugar fica a bicicleta, seguida da prática de alongamento. Os percentuais de cada atividade tiveram pequenas alterações entre o primeiro estudo, de 2006, e o atual, mas um esporte que ganhou força entre os entrevistados foi o pilates (2%), citado pela primeira vez na pesquisa de 2020.
Já entre as atividades de lazer, as três mais citadas são: assistir à televisão, ouvir rádio e caminhar. Apesar disso, quando questionados sobre quais as atividades seriam as mais desejadas, viajar e passear aparecem em primeiro lugar. O motivo da diferenciação? A falta de dinheiro para realizar as duas últimas as tornam opções descartáveis.

Essa mesma dificuldade financeira aparece com ainda mais força quando observamos as perguntas sobre faixa de renda: enquanto em 2006 por volta de 43% dos idosos tinham renda mensal de até dois salários mínimos, em 2020 esse número aumentou 2%, chegando em 45%. Ao mesmo tempo, aqueles com renda entre 2 e 5 salários mínimos caiu de 30% para 24% em 2020. Já os que que recebiam mais de 5 salários mínimos caiu de 11% (2006) para 7% (2020).

Esta edição questiona sobre morte. Os entrevistados deveriam indicar seus graus de concordância. Entre eles, o medo da dor e do sofrimento aparecem como uma das preocupações principais em 2020. A afirmação, “a morte não me assusta, pois faz parte da vida”, aparece em primeiro lugar, com 86% de grau de concordância.

Vilma comentou que foram realizadas 43 entrevistas qualitativas bem longas, muitas vezes uma tarde inteira e nas cinco macrorregiões de São Paulo, Salvador (BA), Campo Grande (MT) e Porto Alegre (RS). Buscaram entender os indicadores sociais e situações desse público, como acesso à saúde; previdência; trabalho; educação formal; interação digital; com quem more; quais auxílios que recebem e prestam e quais precisam; se são vítimas de violência; e como mensuram preconceito e violência, além de saber opinião deles sobre reforma na previdência.

“A população idosa é uma das que mais cresce no mundo inteiro. Se na década de 1970 e 1980 era foco, hoje percebe essa camada idosa é que mais demanda por políticas pública”, enfatizou a pesquisadora. Ela chamou atenção pela evolução da escolaridade, o acesso ao ensino médio entre os idosos de 7% para 15%. Sobre a comunicação e interatividade digital, ela chamou atenção para o uso de redes sociais entre os jovens é de 77%, enquanto 62% dos idosos nunca usaram. Somente 25% usam sempre.

Já Rachel comentou sobre o principal comentário entre os entrevistados, que ganhavam de um a dois salários mínimo ou de quatro a cinco salários: “a palavra de ordem deles é apertar os cintos”.

A reforma da previdência também foi questionada e a maioria criticou: 37% acharam ruim. Segundo Rachel, muitos ficam constrangidos por terem que se adequar melhor com a previdência. “Tinha gente que começou a trabalhar muito cedo, mas depois parou de contribuir, mas agora não dá com a mudança”, contou. Vilma atenta que isso torna a vida dos idosos mais difíceis. Eles próprios são responsáveis por suas famílias: 54%.

Em um contexto de pandemia, um dado importante foi relacionado à saúde: 79% usam o Sistema Básico de Saúde (SUS). A principal queixa deles é a demora no atendimento. “Se o médico recomenda exame agora, correm o risco de só terem no fim do ano. Sobre os remédios, em geral, eles pegam na farmácia popular e dizem que só estão encontrando o AS, outros que tomam com frequência difícil ter disponível”, informou Rachel. 71% dos idosos compram seus remédios com seus recursos próprios.

Quando questionados quais direitos gostariam caso fossem ministro da terceira idade, a primeira sugestão foi aumento da aposentadoria, com bilhete único e bolsa família a idosos; em seguida veio cursos de teatro, aula de canto, de culinária e informação política e um curso sobre idosos nas faculdades para as especialidades se formarem e saberem lidar com esse público e abertura de mais espaços culturais, como centros de encontros de terceira idade um em cada bairro.

Acesse aqui no site da Fundação Perseu Abramo a pesquisa na íntegra: https://bit.ly/34yPVTI