Em programação da Virada Sustentável, palestra valoriza negócio social para defender recursos naturais e cultura local

Em programação da Virada Sustentável, palestra valoriza negócio social para defender recursos naturais e cultura local

Na manhã de sexta-feira, em 29 de agosto, um grupo de pessoas reunidas em uma sala do Senac Santa Cecília aprendeu como negócios de impacto social e ambiental podem causar mudanças profundas na comunidade. Entre elas, havia todo tipo de formação: direito, arquitetura, design, gastronomia, técnico em meio ambiente. Tratava-se da palestra Empreendedorismo Socioambiental, parte da programação da Virada Sustentável 2015, um movimento de mobilização colaborativa para sustentabilidade e oferece uma programação diversa feita por organizações da sociedade civil, órgãos públicos, coletivos de cultura, movimentos sociais, equipamentos culturais, empresas, escolas e universidades, entre outros, que aconteceu entre 26 e 30 do mesmo mês. O Senac São Paulo participou do evento promovendo a Semana Senac de Sustentabilidade, com atividades em 35 unidades da capital, da Grande São Paulo e do interior.

No encontro, a fala foi de Gabriel Menezes, geógrafo e integrante do Instituto Auá. Depois de passar oito anos na presidência, hoje ele é um dos membros do conselho gestor da organização que está finalizando uma etapa de reestruturação – antes, a instituição se chamava AHPCE (Associação Holística de Participação Comunitária Ecológica). Nesse processo, eles procuraram descentralizar sua estrutura e profissionalizar as bases de cada projeto.

Anos atrás ele participou de um grupo de ambientalistas que se uniram para criar a reserva da biosfera do Cinturão Verde de São Paulo, reconhecida pela Unesco, motivados pelo projeto do Rodoanel que ameaçava áreas não exploradas nem ocupadas. Foi nesse movimento que Gabriel conheceu Ondalva Serrano. Alguns anos depois, ela seria responsável pela criação da AHPCE e o desenvolvimento do Programa de Jovens – Meio Ambiente e Integração Social, que os capacita até hoje para agirem em suas comunidades, inclusive nas áreas do cinturão.

Durante a palestra, ele mostrou o mapa da região metropolitana de São Paulo e arredores para explicar melhor o conceito. No centro da imagem há uma mancha cercada por uma faixa verde. O desafio consiste em não permitir que a mancha cresça, pois isso significa a concentração urbana avançando desordenadamente sobre os recursos naturais que restam, prejudicando tecidos verdes, solo, água, ar e outros fatores, muitas vezes de maneira irreversível.

O geógrafo também explicou a evolução dos instrumentos de conservação ao longo do tempo: quando a preocupação com o meio ambiente surgiu, em meados dos anos 60, foram criados parques de proteção ambiental onde os homens não podiam entrar. No entanto, a partir dos anos 70 o foco da discussão passou a contemplar também os espaços nos quais o ser humano habita, afinal não era possível continuar permitindo a degradação em nenhum lugar. Daí veio a ideia da reserva de biosfera.

Atualmente, o Instituto Auá se propõe a promover e estimular empreendimentos socioambientais. Gabriel explica que uma das maiores dificuldades das ONGs é a dependência de verbas e editais do governo ou de outras instituições. “Agir para mudar leva tempo, e é nesse período que acaba o dinheiro”, diz. Por isso, uma solução possível é buscar uma fonte de renda direta. Como? Por meio da criação de negócios que tenham como fim o impacto socioambiental e, como consequência, o retorno financeiro.

Trata-se de uma ação diferente dos negócios sociais que visam primeiro aumentar o lucro da empresa que os promovem. Nesse modelo, classes sociais mais baixas passam a ter acesso a bens e serviços sem que as estruturas sejam de fato alteradas. A proposta que Gabriel defende é outra, com a criação de negócios que estimulem cadeias produtivas completamente sustentáveis e cujos lucros sirvam para, além de sustentar a força profissional envolvida, aumentar o campo de ação sustentável do projeto. O Auá conta com alguns exemplos bem sucedidos dessa fórmula.

Um deles é o Empório Mata Atlântica. Direcionado à indústria alimentícia e estabelecimentos comerciais, visa distribuir no mercado produtos originais do bioma – em sua maior parte, localizados na Serra do Mar – cultivados sem agrotóxicos, de maneira ecológica. Desse modo a agricultura familiar local é incentivada em conjunto com a preservação da mata nativa. Os frutos cultivados contribuem também para aumentar a diversidade na gastronomia de maneira sustentável. Entre eles, estão: uvaia, araçá, juçara e cambuci.

O último serve como mote para outro projeto: a Rota do Cambuci, que já chegou na 7ª edição em 2015. É uma combinação de produção sustentável, roteiros turísticos e festivais gastronômicos. Além disso, também são promovidos eventos de pesquisa. Dezenas de cidades já fizeram parte, como São Paulo, Santo André, Mogi das Cruzes, Paraibuna, Ribeirão Pires, Bertioga, entre outras. O objetivo é organizar os produtores de maneira que o cultivo local seja valorizado dentro e fora de suas comunidades, gerando uma renda que retorna ao local de origem e continua incentivando a agroecologia.

Pela experiência de Gabriel, o maior obstáculo para as ONGs que desejam se aventurar no empreendedorismo é o planejamento – ou a falta dele. “Não adianta ir na raça, tem que ter um pensamento de gestão, de administração”, diz. Outra questão importante é o destino final dos produtos e serviços criados, ou seja, os cidadãos e a sociedade civil como um todo. Para que essas iniciativas deem certo, é preciso que haja pessoas dispostas a abrir mão de seu conforto para realizar compras específicas, às vezes mais caras, cuja cadeia produtiva respeite o contexto na qual está inserida. “Eu acredito muito que a revolução pode acontecer pelo consumo. Já existem pessoas querendo comprar diferente”, afirma o empreendedor.


 

Instituto Auá (site): http://www.aua.org.br/
Instituto Auá (facebook): https://www.facebook.com/institutoaua
Rota do Cambuci (site): http://www.institutoaua.org.br/rotadocambuci/
Rota do Cambuci (facebook): https://www.facebook.com/rotadocambuci?fref=ts


Texto: Natália Freitas
Data original de publicação: 31/08/2015