Em Belo Horizonte pais criam projeto de escola dos sonhos para seus filhos

FRA1ekYJá imaginou seu filho estudando em um lugar que o coloque em contato com a natureza, ensine o respeito ao próximo e mostre que é possível aprender brincando? Isso tudo é possível graças a um grupo de pais e mães que resolveram criar o “Quintal Pra Todo Mundo”. O objetivo é desenvolver um espaço para que as crianças possam ser entendidas e tratadas como seres autônomos, cada um com a sua personalidade, exercitando a criatividade e senso de comunidade. “A gente queria que fosse uma casa de vó”, contam os colaboradores do Quintal.

Para arrecadar fundos e levar a ideia adiante, os organizadores do projeto criaram uma página no Benfeitoria, plataforma online de financiamento coletivo. A meta é arrecadar R$17.000,00 até o dia 12 de outubro. Até agora foram doados cerca de R$5.580,00. Quem quiser apoiar a causa e fazer uma doação a partir de R$15,00 basta acessar a página do Benfeitoria. Para cada contribuição há uma espécie de recompensa que vai desde um vídeo em agradecimento até uma cesta com alimentos orgânicos.

A equipe de comunicação do projeto conversou com o Portal Setor3 e contou um pouco mais sobre a iniciativa.

13516700_1258663574151404_4145739778783063655_nPortal Setor3: De onde veio a ideia de criar tanto a Escola Quintal da Leste quanto o Quintal pra todo mundo?

Quintal Pra Todo Mundo: A Quintal da Leste nasceu do desejo de um grupo de mães e pais, moradores da Região Leste de Belo Horizonte, de oferecer a seus filhos a oportunidade de viver uma infância de quintal, como os de casa de vó, onde eles pudessem passar as tardes brincando livremente e tivessem contato com a natureza. Sonhávamos com um lugar de ambiência amorosa e aconchegante. Buscávamos também uma organização diferente de “escola”, em que as famílias tivessem uma presença ativa, se envolvessem e gerissem coletivamente os processos relacionados ao cuidado das crianças.

Nos unimos em busca de um ideal de educação, mas não apenas. Também temos em comum um ideal de cidade.  Não basta para a gente que nossas crianças estejam isoladas em um belo quintal. Por isso escolhemos uma casa com quintal de frente e desde os primeiros encontros buscamos maneiras de integrá-lo ao dia a dia do bairro. Realizamos semanalmente uma feirinha produtos orgânicos e uma roda de amamentação, regularmente o espaço é usado para oficinas, sessões de cinema e conversas sobre temáticas do universo da infância e da educação.

Mas nosso desejo é de que o Quintal da Leste possa ser apropriado como uma praça e que possamos ter relações mais afetivas e solidárias entre vizinhos. E foi a partir desse sonho que surgiu a ideia de fazer a campanha de financiamento coletivo Quintal Pra Todo Mundo. O dinheiro arrecadado vai nos ajudar a pagar a construção de uma sala, que nos possibilitou receber mais crianças e, com isso, oferecer duas bolsas. Vai, ainda, possibilitar a construção de um parquinho aberto para a rua e a construção de uma carroça e de brinquedos de madeira que serão compartilhados com as crianças da região.

Portal Setor3: Vocês se inspiraram em algum modelo de projeto semelhante que tenha dado certo? Se sim, qual?

QPTM: Para criar a Quintal da Leste pesquisamos várias experiências de escola construídas por coletivos e com propostas alternativas de educação. Em Belo Horizonte e região, por exemplo, conversamos com fundadores do Instituto Casa Viva, do Centro Lúdico de Interação e Cultura (Clic) – que surgiram do movimento de profissionais da educação – e do Instituto Ouro Verde, uma escola que segue a pedagogia Waldorf e que foi criada por um grupo de pais e professores. Também buscamos referências de escolas populares em outros cantos do país e fora do Brasil.

Portal Setor3: Quanto à localização: por que vocês escolheram ficar na zona leste de Belo Horizonte? Teve algum motivo específico?

QPTM: A Zona Leste foi escolhida porque os pais que deram início ao projeto são moradores da região e não encontraram em nenhuma escola próxima de suas casas uma proposta de educação que acreditam ser ideal para as crianças. Mas a ideia é que nossa experiência possa ser replicada em diversos cantos da cidade. Temos a intenção de registrar e divulgar todo o processo de constituição da escola, os procedimentos burocráticos e nossas estratégias de gestão.

13255993_1235052166512545_3495465610389475629_nPortal Setor3: Os pais estão abertos a iniciativas como esta ou ainda confiam mais nas creches e escolas tradicionais? Se sim, por que vocês acham que ainda existe esse tipo de insegurança?

QPTM: Desde que demos publicidade ao projeto da Quintal da Leste muitas mães e pais mostraram interesse em compartilhar este sonho. Para ter ideia, divulgamos a proposta e abrimos vagas para mais crianças no final do ano passado, faltando pouco mais de um mês para o início das aulas, quando ainda não tínhamos nem mesmo a garantia de aluguel da casa.

Um encontro foi realizado em uma praça da região para uma conversa com os interessados. Tínhamos que fazer tudo ainda, criar a associação, alugar a casa, adaptar o espaço, pintar, etc. Mesmo assim, muitas mães e pais adotaram o projeto. Inicialmente, eram cerca de 7 crianças, hoje a escola conta com 32, número máximo de vagas, e ainda há procura. Tudo isso prova que tem muita gente aberta a esse tipo de iniciativa.

Portal Setor3: Vocês percebem que as crianças, depois que entram para a Escola da Leste e passam a ter contato umas com as outras, com a natureza e animais, deixam de pensar de uma maneira menos individualista e passam a ver mais o coletivo?

QPTM: As crianças do Quintal são muito pequenas e passam justamente pelo processo de se constituírem como indivíduos. Elas têm o ego em formação e, numa perspectiva antroposófica que nos inspira muito, uma postura individualista não é necessariamente vista de maneira negativa. É importante que a criança consiga se afirmar e respeitar a si própria, para então entender que deve respeitar ao outro.

De qualquer maneira, quanto antes houver a possibilidade de encontro com as semelhanças e diferenças dos outros seres, mais rico será o caminho de desenvolvimento das crianças. Acreditamos, sim, que o contato com outras crianças e com a natureza é fundamental para criar crianças (e adultos) mais atentas ao coletivo, com uma compreensão do que está a seu redor.

Também nesse sentido, temos no Quintal o convívio de crianças com idades variadas, de seis meses a cinco anos. Existe uma organização em turmas, mas o espaço e as atividades são coletivas sempre que possível.13516331_1258663270818101_2309643582188900572_n

Portal Setor3: De que forma o brincar e o contato com a natureza contribuem para o processo de aprendizagem?

QTPM: Nós acreditamos que a brincadeira é a principal linguagem da criança, pois é por meio dela que a criança se expressa e compreende o mundo. A brincadeira e o contato com a natureza oferecem muitas possibilidades de crescimento, desde desafios a serem enfrentados, à oportunidade de conhecer a si próprio.

A brincadeira agrega, une as crianças, promovendo a interação, estreita os laços com o adulto e, mais que tudo, é o meio fértil da manifestação da cultura infantil. Crianças brincando juntas criam códigos, trocam experiências e saberes, desenvolvem-se em seus aspectos cognitivo, emocional e social. Já a natureza tem o papel de proporcionar a inclusão permanente de todos os seres. Ao ter contato com a natureza a criança aprende a respeitar o mundo ao seu redor e todos os seres que fazem parte dele, além de se manter mais próxima de sua essência, uma vez que todos nós fazemos parte da natureza.

Portal Setor3: Na opinião de vocês, o que falta no sistema de ensino tradicional? Ele realmente dá a atenção necessária para a criança e para o jovem?

QPTM: Falta ao sistema tradicional tratar a criança e o jovem como seres autônomos que são. Sem essa visão, a particularidade e o tempo de cada um para crescer e aprender não é respeitado, como acreditamos que deve ser. A preocupação com a alfabetização nas escolas tradicionais é, em muitos casos, tratada com mais importância do que o crescimento humano. Para nós, a lógica é contrária. Acreditamos que o desenvolvimento social faz parte do crescimento humano e não deve ser dissociada ao desenvolvimento cognitivo.


Crédito do texto: Gabriela Lira Bertolo
Data de publicação: 27/09/2016