Pesquisadores do Brasil e Moçambique compartilham práticas de educação na pandemia

O primeiro encontro do Fórum Internacional de Educadores une realidade de experiências de docentes do Estado de São Paulo e em Moçambique.

Ilustração de conferencia virtual entre amigos e colegas. Cada em sua casa.
Quatro especialistas da educação falam dos impactos da pandemia nas escolas do Brasil e Moçambique. (crédito da imagem: mast3r/AdobeStock)

“Brasil e Moçambique podem estabelecer ações coletivas perante situações de desafio, que requerem respostas globais. Este seminário é uma forma de nos aproximar de outros profissionais e outras práticas educacionais, outra forma de ver o mundo neste momento e cada um responde de acordo com sua realidade”, pontua Antonio Tomo, filósofo e doutor em Filosofia pela Universidade Pedagógica e Universidade de Minho.

A pandemia impacta em diversos setores, inclusive nas escolas do país e no mundo, exigindo adaptações rápidas a partir da busca por novas formas de trabalho. No primeiro encontro do Fórum Internacional de Educadores, organizado pelo Senac São Paulo, o tema foi A Realidade Educacional Durante a Pandemia: Brasil e Moçambique, com os seguintes participantes: Antonio Xavier Tomo, graduado em Filosofia, mestre em Educação e Ensino de Filosofia pela Universidade Pedagógica de Moçambique e doutorado em Filosofia pela Universidade Pedagógica e Universidade de Minho; Lucila Mara Sbrana Sciotti, superintendente de Operações do Senac São Paulo, doutora e mestre em Educação – Currículo pela PUC-SP, e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, licenciada em Letras – Português e Francês, mestrado em Educação e doutora em Ciências Humanas – Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora Emérita da UFSCar, pesquisadora, militante político-social; e Zefanias Augusto Chihulume, licenciado em Teologia pela Africa University, Mutare, Zimbabwe, mestre em Estudos Teológicos pela Eden Theological Seminary, St. Louis, Missouri (EUA) e docente da Universidade Pedagógica – Maputo. A mediação ficou com Márcia Cristina Fragelli, pedagoga, especialista em Gestão Escolar e Recursos Humanos, psicopedagogia e educação especial e coordenadora educacional no Senac São Paulo, pesquisadora e autora de livros na área educacional.

O professor Antonio contextualizou Moçambique após desastre de dois ciclones no ano passado, que impactou toda a região central e norte do país e muitas escolas ficaram sem cobertura. A partir daí muitas crianças sem acesso ao ensino. Neste ano veio a pandemia. O governo suspendeu viagens e vistos emitidos. As escolas também foram bloqueadas. Dessa forma o ensino passou a ser por meio das plataformas digitais. Mas muitos estudantes não têm acesso à energia. Essa realidade forçou o governo tomar iniciativas que reduzissem o fracasso nessas ações e retorno para as aulas. “Não são iniciativas que contam com a aprendizagem dos estudantes e o foco que se coloca é na reabertura das aulas. Importante pontuar que este momento o Covid-19 atingiu 60 mil pessoas testadas e destes 12 mil resultaram negativas, as contaminadas estão em torno de 1.300 e 12 mortos. O governo conseguiu controlar a pandemia. A taxa diária de contaminados por dia gira em torno de 20 a 50 pessoas”, esclarece e reforça necessidade reforço de ações de saneamento básico.

A produção de livros, arquivos e produções foi outro ponto abordado. O pesquisador defende que precisam ser mais acessíveis. “Alguns conseguem comprar seus livros e materiais, mas outras não têm condições nem de se alimentar”, alerta. Também defende que a população e o governo analisarem a responsabilidade coexistencial e a repensar nos costumes. Ele ainda sugere as seguintes leituras: Emílio ou da Educação, de Rousseau; e Sociedade de Risco: a uma outra modernidade, de Ulrich Beck.

Outro estudioso moçambicano contextualiza a condição socioeconômica do país, marcado por uma educação colonial e confessional da Igreja Católica, mas existiam outros formatos engajados no processo de formação. Após a conquista da Independência, o país começa a ter educação estatal e todo o processo educacional passa para as mãos do Estado. Não havia processo de educação profissional e desenvolveu Programa Nacional de Educação. Houveram mudanças com a lei da educação em 2002 e investidores desse setor interviram na educação do país. O país oferecia três tipos de educação: profissional, privada e pública. De 1992 até 2020 este panorama começa a mudar e responde à sociedade econômica e político predominante. “Temos indivíduos que não possuem e-mail e dependem 100% do ensino público. Mas também temos uma classe média que opta em continuar no ensino público e outros nas escolas privadas e outro no profissional, que oferece pagamento simbólico. Muitas escolas privadas têm tendência de ser comunitária. E outras privadas as famílias têm que pagar tudo”, afirma.

O teólogo também aponta para as vantagens na educação em seu país durante a pandemia: 1) o despertar do interesse no uso tecnologias de informação (mesmo com ensino fundamental e médio praticamente atividades paralisadas por falta de infraestrutura, mas os recursos disponíveis permitiram a leitura dos materiais); 2) no aspecto vida cultural e de saúde, importante continuar a educação da própria sociedade para elevar seu nível (a situação força o Ministério da Educação equiparar as escolas para responder as necessidades, muitas escolas não têm acesso à água); e 3) a educação na história da Moçambique sempre se reinventa para responder as exigências da nação, mesmo no meio da pandemia.

Já a professora Petronilha comenta que todos estão desorientados e buscando fortalecer com referências comunitárias e educativas, além das escolhas políticas. E ainda questiona: “Qual nosso projeto de sociedade? Que projeto de sociedade estamos defendendo e ajudando a construir? Qual o grande projeto da educação para todos? Quem são esses todos? Incluir cada grupo de diversidade, a educação não será a mesma e os professores são só como objeto de pesquisa, mas valorizados e reconhecidos”.

A pesquisadora menciona um parecer da CNE de 2002 sobre os diretrizes curriculares étnico racional afro-brasileira, que contribui para uma educação que valoriza pensadores da Europa, distante da realidade brasileira. A pandemia evidencia quem fica mais protegido do vírus e quem fica muito exposto. Dessa forma, ela reflete sobre o bem viver, baseado nos povos latino americanos que cultuam valores bem pertinentes da natureza. Ainda questiona como será o fortalecimento das identidades e dos direitos para dialogar e não impor. “A educação é importante que cada um venha com suas referências próprias (culturais étnico raciais), diferentes origens e visões de vida. Cada um se sentindo livre o que pensa e com a capacidade de dialogar com aquele que é diferente e poder construir uma sociedade solidária e respeitosa”, explica e ainda resume que a filosofia do bem viver é aprender que a população não é dona da natureza, mas parte dela.

A superintendente de Operações do Senac São Paulo pontua a desigualdade social econômica evidenciada com a pandemia no Brasil. As diferenças de moradia, de escolas, estrutura e acesso à tecnologia, descaso ambiental. ‘Vivemos em um momento de muitas incertezas. Se quisermos alterar qualquer coisa, precisamos partir da ideia consciente do mundo, de Paulo Freire: de estar no mundo para intervir. Não podemos só achar bonito a solidariedade, mas qual o significado disso? O que vai acontecer após pandemia? Acho que tem um futuro que se manifesta e escancara de maior equilíbrio nessa composição”.

Lucila indica que a educação integra a formação das gerações e sugere observar as críticas na área. Defende que a nova consciência precisa ser trabalhada, desejada, construída no sentido de trazer a crítica dessa problematização do que se vive hoje. Explica ainda a atuação do Senac com a diversidade de estudantes. “Temos privilégios e recursos com estrutura e tecnologia, mas o que eu vi ressaltar na pandemia: a atuação do professor. Esse educador topou a empreitada dentro da sua casa para continuar trabalhando, trazendo conteúdo para seu aluno e experiências”, elogia a criatividade desse profissional que foi ganhando segurança com o tempo e comenta sobre como tudo isso também faz parte do processo de autoformação de todas equipes de docentes. “Podemos fazer mais e diferente”, finaliza.

Acesse aqui para assistir na íntegra todo o debate no Youtube do Senac São Paulo: https://www.youtube.com/watch?v=dcQl6i4fRPI