Educador José Pacheco, idealizador da Escola da Ponte, explica a importância de uma educação cidadã e integral

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O desafio de formar cidadãos para uma sociedade sustentável: as lições da Escola da Ponte, analisadas pelo seu idealizador, José Pacheco.

São muitas as motivações que levam um professor a abraçar o magistério, mas a principal delas resulta de um desejo de transformação. Apesar de sempre ter transformado realidades por onde passou, a começar pela sua própria, José Pacheco nunca imaginou que se tornaria um educador. E os caminhos que o levaram a tal ofício foram bastante inusitados.

Depois de integrar missões italianas na Àfrica durante a Segunda Guerra Mundial, militar na Revolução dos Cravos e trabalhar como engenheiro elétrico, Pacheco decidiu prestar um concurso para dar aulas na rede pública de ensino de Portugal. E foram justamente esses fatos, à primeira vista aleatórios, que o levaram a protagonizar uma experiência revolucionária de ensino na Escola da Ponte, cuja história já é bastante conhecida ao redor do mundo.

A educação na cidadania é o eixo central dessa proposta, orientada por três valores fundamentais: solidariedade, autonomia e responsabilidade individual e social. Na Ponte, os alunos se organizam em grupos de interesse, independente de faixa etária ou anos de escolaridade. Esse modelo de ensino exige uma ruptura radical com as linhas de pensamento convencionais e a própria ideia concebida a respeito do processo educacional.

Qualquer semelhança dessa experiência com o desafio da sustentabilidade não é mera coincidência. “A ideia da educação na cidadania existe exatamente para assegurar a sustentabilidade, a perenidade dos projetos. Tudo depende de fatores externos. Na dependência não há como desenvolver autonomia, promover a sustentabilidade”, afirma Pacheco.

Ele também defende a importância de educar pelo exemplo e, por isso, crê no papel das lideranças. “O líder precisa ter duas características principais. A primeira é saber escutar. A segunda decorre da primeira: ao escutar, deve estabelecer consensos e não maiorias. Se essas duas características forem atendidas, temos aí um líder de novo tipo, que não se impõe, nem é eleito. É consensualmente aceito”, ressalta.

Em 2007, o educador adotou o Brasil – mais especificamente a cidade de Belo Horizonte – e diz que não pretende deixar o País. Sabe que terá muito trabalho por aqui. Seu objetivo não é idealizar nenhum novo projeto, tampouco criar uma Escola da Ponte brasileira. Pretende, sim, mobilizar a partir de um exemplo concreto de que é possível transformar realidades por meio da Educação.

Em conversa com Juliana Lopes, de Ideia Socioambiental, durante a Conferência Internacional de Cidades Inovadoras, realizada pela Federação das Indústrias do Estado do Parará em março, na cidade de Curitiba, Pacheco falou da importância de educar para a sustentabilidade, promovendo a mudança a partir do exemplo.

Ideia Socioambiental: Qual o seu envolvimento com as questões socioambientais? Essa experiência influenciou o trabalho desenvolvido na Escola da Ponte? De que maneira?

José Pacheco: Fiz parte de movimentos ecológicos primitivos, alimentares, de macrobiótica, movimentos hippies. Participei da Revolução de maio de 1968. Basta falar isso para perceber que sou do tempo dos dinossauros, como costumo brincar. Então, quando me tornei educador, levava essa consciência lógica ambiental. Só que nada naquelas escolas correspondia àquilo que esperava e sabia que era correto, o que me levava a um sentimento esquizofrênico. Estava em um ambiente que não tinha nada a ver comigo, mas eu percebia que podia ter. Só não sabia como.

Quando cheguei à Ponte, tudo se transformou. Era uma sociedade abandonada, marginal, de sofrimento, com problemas ambientais imensos. Basta dizer que ao lado da escola tinha um lixão a céu aberto. Éramos picados por pernilongos, os ratos passavam por entre nossos pés… Não tinha banheiro. Não havia saneamento. Os poços artesianos iam captar água já contaminada.

Começamos por erradicar os lixões, criamos uma horta biológica e um hospital de animais. Foi a primeira vez que se falou em coleta seletiva do lixo. Repare que estávamos em 1976. Ninguém tocava nesses temas. Fizemos tudo muito por intuição, com a colaboração da chamada Comissão Nacional do Meio Ambiente. Quando Portugal passou da ditadura para a democracia, foi criada essa Comissão que depois deu origem à Secretaria do Ambiente e, então, ao Ministério do Ambiente.

I.S: Qual a sua avaliação do movimento de sustentabilidade?

J.P: Hoje há maior convergência, sem dúvida. Penso que o tempo vai instalando na mente das pessoas novos conceitos, novas atitudes. Mas ainda há muito descaso, sobretudo nas escolas. É só falar o que vi há um mês. Fui a uma faculdade de Educação. Na entrada havia grandes cartazes: “Vamos salvar a Amazônia”. Quando subi as escadas, vi garrafas PET vazias pelo chão, latas de coca-cola, guardanapos de papel…

Os jovens sentados em cima das mesas, com os pés nos bancos. Fui ao banheiro e tinha outro cartaz dizendo: “Por favor, urine no vaso”. Eu olhei para aquilo e fiquei em estado de choque. E estou falando de uma faculdade de Educação. Dá para entender o descaso? Fiquei escandalizado. Comecei minha exposição dizendo: “Façam-me um favor. Quando eu terminar a palestra, tirem aquele aviso do banheiro. É uma ofensa para nós que somos educadores”.

O auditório tinha mil e tantas pessoas, metade formado por professores e a outra metade por alunos. Depois de muito choque, de discussão, veio o intervalo. Saí do palco e fui apanhar os copinhos plásticos, os guardanapos de papel e os restos de porcaria que haviam deixado. Eles retornaram atrapalhados, constrangidos e começaram a recolher também. Pediram para eu parar de fazer aquilo, mas respondi que não, dizendo: “Sou educador e sou responsável por vocês, assim como vocês são responsáveis por mim.” Foi outro choque. Na segunda parte da palestra, havia uma tensão tremenda no ar, porque eu tinha feito duas coisas que afetaram imensamente aquelas pessoas.

*Confira a entrevista na íntegra no site Mercado Ético, feito pela jornalista da revista Ideia Socioambiental.