Educação vigorosa: os caminhos iniciais de um conceito inovador

Artigo realizada pela equipe do Instituto Fonte aborda o conceito e prática realizada pelo educador Tião Guerra.

educador-tiao
Tião Guerra será um dos facilitadores do Profides, uma das formações do Instituto Fonte. (crédito da imagem: Divulgação)

Tião Guerra. Consultor, facilitador, educador, amador, sonhador, cuidador, cantor, compositor… Adjetivá-lo é uma tarefa difícil, pois qualquer definição, dependendo do contexto, pode tornar-se frágil e limitadora do alcance de suas asas invisíveis. Mas sua autodescrição destaca, para além daquilo que já foi apontado antes, seu gosto por caminhar e suas aptidões como músico, leitor, escritor e como pai de seis filhos maravilhosos.

Como o sobrenome indica, aos seus 58 anos de vida Tião luta suas próprias batalhas. Acredita no contato consigo mesmo, com a natureza, com a arte e com o outro como estilo de vida, abordagem de trabalho e de desenvolvimento pessoal e social. Após 39 anos de atuação como educador, desenvolveu um olhar muito dinâmico, crítico e realista para as situações que envolvem a educação de crianças e jovens, fruto de uma trajetória multifacetada e inquieta, iniciada em 1979, no Estado do Rio de Janeiro, e que ultrapassou os muros da escola pública e alcançou movimentos e organizações sociais de várias localidades e naturezas, incluindo aquelas voltadas para a Pedagogia Waldorf.

Com base nesse caminho, influências e inúmeras perguntas ainda sem respostas, Tião tem aperfeiçoado um conceito próprio que intitulou “educação vigorosa”. E esse é o foco deste texto, fruto de uma longa conversa-aula, que tratou desde a origem e inquietações presentes no conceito, como também se preocupou em apontar qual é o caminho pedagógico para o qual procura olhar a educação vigorosa.

E, apenas lembrando, Tião Guerra será um dos facilitadores do Profides X, ao lado de Flora Lovato. Já fez sua inscrição?

A origem do termo “educação vigorosa”

Tem a ver com uma trajetória de 37 anos dentro de escola, tanto privada como públicas, estas últimas, em áreas periféricas onde o tema da violência ou da inadequação, ou a falta de sentido do espaço escolar para uma boa parte das crianças e dos jovens é um tema muito recorrente. Sobretudo para os jovens. Como olhar para a instituição escola pública, que é a maior instituição pública desse país, onde mais circulam cidadãos, como um espaço que pudesse ser interessante, desejável, estimulante?

Essas inquietações surgiram paralelamente ao meu convívio com a Pedagogia Waldorf, que tem na sua base o princípio associativo, ou seja, a escola não é do Estado, não é de um dono, de um proprietário, mas a escola é gerida, construída por uma tríade composta os professores, pais e comunidade.

A aposta da Pedagogia Waldorf, de que a relação dos adultos é aquilo que vai gerar a estrutura ou o leito por onde vai correr o “rio escola”, por onde vai correr o “rio crianças” em processo educativo, sempre foi pra mim um grande atrativo dessa abordagem pedagógica. Porém, ao longo dos anos fui percebendo que esse é um grande tesouro repleto de grandes desafios.

O desafio da vida em comunidade

A vida associativa é um grande desafio na contemporaneidade. A vida associativa, de colaboração, de criar consensos, de haver dissensos, de discordar, de estabelecer mandatos, de diferenciar alçadas, todos esses processos que são centrais na vida social estão muito fora de moda.

Não é algo que está sendo estimulado na esquina, ou seja, vamos colaborar, vamos organizar bons encontros para produzir metas definidas no bairro, no condomínio, na cidade, enfim… E isso não é culpa das pessoas que estão envolvidas no processo.

Pra mim, nasce essa constatação de que essa fragilidade da presença dos adultos, tanto nas escolas públicas como na Escola Waldorf, que não são públicas, são comunitárias e associativas, era um fenômeno mais profundo do que a inabilidade daquele grupo de adultos, ou daquela comunidade que estava em torno daquela da escola pública. Mas que a gente deveria olhar pra isso com mais cuidado na conjuntura moderna, na qual o ideal de adulto bem sucedido é um adulto privatizado, que tem seu plano de saúde, que tem a chave da sua casa, que está dentro do condomínio, que se locomove no seu carro, que é “independente”. Isso tudo é tido como sucesso.

Essa “pulga atrás da minha orelha” foi crescendo e chegou uma hora que uma pergunta do Steiner, em um livro chamado “A questão social como questão pedagógica” fez muito sentido. Logo na abertura ele diz: “como nós adultos devemos nos comportar diante das crianças se quisermos que elas mergulhem com entusiasmo na vida cultural, jurídica e econômica?” Eu me agarrei nessa pergunta e falei “é com essa que eu vou”.

Tiao-educador-formacao-Reduzida
Tião e educadoras de Petrópolis durante o lançamento do projeto Fortalecendo a Resiliência (lado esquerdo) e atividade com pais e educadores (lado direito). (Crédito da imagem: Divulgação)

Uma escola sem crianças no centro?

Começa assim a nascer esse conceito de uma escola que tem crianças e jovens, mas que o centro dessa escola não são as crianças e os jovens. É uma ideia contra intuitiva, um rompimento. As pessoas não dizem isso, as crianças sempre foram o centro da escola. E eu começo a dizer que o centro da escola são os adultos e a sua vida social, seja uma escola pública ou Waldorf, de que essa escola vai ser tão mais interessante, estimulante, significativa quanto mais qualificada for a vida social dos adultos que estão em torno dessa escola?

Na medida em que a vida dos adultos, a vida de colaboração, associativa, se qualifica e se torna entusiasmante para os adultos, as crianças e os jovens vão se espelhando e conforme vão ganhando idade, iniciam sua própria participação nessa estrutura, a partir desse comportamento.

A escola é um lugar onde os adultos são referências. Eles não são faladores de mundos românticos, idealizados, mas eles são uma referência prática do quanto é bom e dilemático ser adulto, no sentido de que não é harmônico, mas no sentido de que a vida adulta é uma vida interessante. Ela tem uma ludicidade dramática. Crianças e jovens, quando olham para esses adultos, pensam, sentem “nossa, é bom amadurecer, é bom ser adulto. É bom caminhar para meu próximo estado”.

Eu tenho sido muito chamado para trabalhar com Escolas Waldorf, fortalecer a vida associativa. Eu tenho feito o que disse até agora, lembrar as pessoas de que se a gente “brinca bem como adulto”, isso é a escola. A relação entre os adultos é o que vai fazer esse fluxo. Vivenciar situações reais que vão representar um currículo vigoroso. Que é um currículo de comportamento adulto, maduro.

Leia o artigo na íntegra no site do Instituto Fonte: https://goo.gl/A8NrJh

Crédito do texto: Lilian Romão, jornalista e responsável pela comunicação do Instituto Fonte. 

COMPARTILHAR