E o futuro da educação brasileira?

Especialistas da área debatem as propostas da educação dos candidatos à presidência neste segundo turno.

O auditório da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo lotado na noite de ontem para escutar o que especialistas falaram sobre as propostas dos dois candidatos à presidência. Com o título O Futuro da Educação Brasileira: Análise Comparativa das propostas de Educação dos candidatos à Presidência da República, participaram: Denise Carreira, coordenadora adjunta da ONG Ação Educativa; professor Dr. Fernando Cássio, professor adjunto no Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC e integrante da Rede Escola Pública Universidade (REPU); e de Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Em parceria com a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a ideia da mesa de debate teve o objetivo de fazer uma análise crítica ponto a ponto das propostas oficiais apresentadas ao TSE pelos candidatos Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores, e Jair Bolsonaro, do (Partido Social Liberal).

“Vivemos em um momento delicado e difícil nas conquistas democráticas e da educação estão em risco”, afirmou Vinicius de Macedo Santos, licenciado em Matemática, mestre em Educação: História, Política, Sociedade, e doutor em Educação, e vice-diretor da FEUSP. Ele defende a resistência para que os retrocessos de conquistas sociais e educacionais não ocorram.

Daniel Cara foi mediador do debate e afirmou: “Educação sempre um dos temas mais debatidos, mas não necessariamente com qualidade”.

Denise pensou na sua fala sobre “Brasil que quero”. Ela ressaltou que é importante primeiro se perguntar que país é esse e depois que educação é essa. “Estamos num país bem desigual, que as crianças se alimentam muitas vezes da merenda escolar, quando falamos de relações democráticas. A classe média branca com garantias para estudar. Há ainda muitas crianças que andam muito para chegar em suas escolas”, atentou e sinalizou a importância de ver o Plano Nacional de Educação, aprovado pela lei nº 13005/2014, resultado da Campanha Nacional de Educação e de vários partidos e da sociedade brasileira.

“Vivemos a descontinuidade de políticas e a lógica de políticas que acirram nas desigualdades em condições cada vez mais precárias. Ao invés de política mais equalizadora para oferecer aqueles que mais sofrem no jogo da sociedade. E totalmente desigualdade desvinculado com a agenda das desigualdades”. Denise ainda comentou que há uma proposta que se direciona para um lado, e a do outro candidato para outro lado oposto. “Precisamos retomar o Plano Nacional de Educação”. Também defendeu as condições de financiamento para essa política para conseguir ações de médio a longo prazo para combater as causas estruturais das desigualdades brasileiras.

Sobre as propostas do candidato Jair Bolsonaro, ela ressaltou a aliança com o movimento que defende a Escola Sem Partido, um grupo de pessoas que combatem a discussão sobre temas, como: desigualdades, raça, sexualidade e gênero. Também critica o pensamento do educador Paulo Freire, advogado e educador e ficou reconhecido por desenvolver uma metodologia de alfabetização a adultos. “Paulo Freire olhou no fundo dos olhos do país”. Em sua análise, seu método conseguiu descobrir quem é esse país e como sair dessa desigualdade. “Tudo o que é proposta para abordar desigualdade está sendo questionado. A relação com iniciativa privada como mercadoria.

Denise ainda afirmou sobre as propostas de Fernando Haddad, que se relacionam com o Sistema Nacional de Educação e sugere ainda escola como espaço de cultura e ciência como espaço de pluralidade e da dúvida. “Ele ainda fala de investimentos em ações democráticas, uma renovação da emenda constitucional nº 95, que constitucionalizou a educação com austeridade. Recebemos sete pareceres da ONU de constitucionalizar essa emenda. Coincidentemente tivemos um salto na fome, na saúde e outras áreas”.

Sobre a disputa ao governo estadual de São Paulo, Denise ressaltou que João Dória (PSDB) não olha para desigualdade, responde as necessidades de mercado, considera o sucesso pessoal/profissional (meritocracia). Por outro lado, Márcio França (PSC) propõe ações mais avançadas a favor da implementação do Plano Estadual de Educação, possui olhar para desigualdade e valorização do docente.

“Precisamos que a educação contribua para a cultura. Vamos precisar estar juntos para defender as conquistas de brasileiros, explorar as contradições, os avanços na construção de alianças políticas e semear possibilidades e esperanças”, afirmou.

Fernando afirmou que a falta de programa é também um programa. Ele comentou que o candidato Fernando Haddad reconhece a qualidade de educação de Estado discutidos nos anos de 2010 até 2012 para o Plano Nacional de Educação. “Nós temos um plano e temos que resgatá-lo”. Ela ainda disse que há pontos críticos que precisam ser ressaltados: formação dos professores (meta 20 no Plano Nacional da Educação), aperfeiçoamento do SAEB, sistema S no critério integral e apoio ensino no período à noite. “Precisamos lidar ainda com o subfinanciamento da educação, que é ainda uma proposta macro e fundamental do PNDE.

O professor da UFABC ainda ressaltou que as propostas do candidato Bolsonaro focam muito em: previsibilidade e ordem. Combate a “sexualização” precoce. Cita ainda o combate à doutrinação ideológica. “Esses conceitos são citados no programa, mas não há previsão de debate sobre o que querem dizer exatamente”.

O professor ainda chamou atenção para a criação de colégios militares, que custam seis vezes mais do que escola normal. O programa de governo desse candidato também considera a inclusão de disciplinas, como Educação Moral e Cívica. Foca na educação básica e radicalização do ensino a distância para ensino fundamental. “Você tira da educação o que ela mais contribui, que é a relação com o outro, os objetos ali nesse espaço e suspensão de tempo. Quando elimino o espaço, tiro a educação”. Ele ainda criticou as fundações de educação no setor privado: “Cadê as fundações? Onde estão os projetos neoliberais de educação? Olhas os atores, os lastros econômicos de ambos”.

Já o professor da FEAUSP explicou o fluxo do sistema de organização escolar. Ele falou sobre o domínio para a construção dos discursos dos candidatos à presidência. Qual o domínio das propostas onde podem realmente mexer? “Não temer que seja retirado Paulo Freire, nem a questão do Estado Laico. Esses dados foram fornecidos pela Psicologia. A concepção de vida vem da Biologia e Química. Ao exemplificar Paulo Freire, precisamos pensar quem são as forcas políticas. Se o aval não cumpre a fidelidade partidária, militar respeita a hierarquia e ordem de comando”, afirmou o professor que esclareceu a importância de observar a Escola Superior de Guerra.

“Temos ainda emendas no ensino técnico. É importante frisar aqui que o ensino técnico não é de massa. É seletivo e atende as demandas do mercado. Temos hoje uma situação de dificuldade de emprego aos jovens”, afirmou o professor. Ele ainda indicou que o serviço militar pode retornar a ser obrigatório.

O professor ainda chamou atenção que não adianta instrumentalizar a escola pública para fazer ensino técnico. Essas capacitações ainda são destinadas a qualificação do trabalho, diferente da função de educação básica. Outra proposta comentada foi o aumento de escolas militares e inclusão de integrantes do Conselho da Educação em um governo de extrema direita, caso o candidato Jair Bolsonaro vença as eleições presidenciais.

Confira a matéria do Porvir: https://goo.gl/EzjxnJ