Dossiê Violência contra Mulheres disponibiliza coletânea de pesquisas e 120 fontes especializadas

Dossiê Violência contra Mulheres disponibiliza coletânea de pesquisas e 120 fontes especializadas
Crédito: divulgação

“Em 1995, a Conferência Mundial das Mulheres, realizada em Pequim, considerou a mídia como uma das 12 áreas de interesse especial para a promoção da igualdade entre homens e mulheres. Ali se colocou a importância de estimular a capacitação em questões de gênero e comunicação para os profissionais da mídia com o fim de motivar a difusão de mensagens não discriminatórias sobre as mulheres.”

Assim se inicia o artigo De um jornalismo sexista a um jornalismo com perspectiva de gênero, da jornalista e doutora em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas, Maíra Kubík. Em seu estudo, ela analisou a cobertura que os veículos Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo fizeram sobre as manifestações políticas de mulheres no 8 de março, entre 1985 e 2005. Dentre os resultados, detectou o sexismo na linguagem com a qual as mulheres eram retratadas, além de constatar que, mesmo em matérias em que elas eram o tema, na maioria não foram ouvidas. Das 59 notícias analisadas, 36 não possuíam nenhuma fonte envolvida com os protestos, representando 61% do total.

Nos últimos dez anos esse cenário tem mudado – pelo menos no que diz respeito ao interesse do público pelo tema da mulher. Em uma pesquisa do Data Popular junto ao Instituto Patrícia Galvão, 88% dos entrevistados sentiu que aumentaram os assassinatos de mulheres cometidos por namorados ou maridos nos últimos cinco anos. As percepções relacionadas ao aumento de agressões representaram 89%. “O Instituto Patrícia Galvão já atua há algum tempo nessa área dos direitos das mulheres e mídia. A gente tem uma avaliação aqui que a violência contra as elas têm sido cada vez mais noticiada”, afirmou Débora Prado, uma das jornalistas da instituição.

Preocupados com esses dados, o Instituto resolveu desenvolver, sob coordenação de Débora, o projeto Dossiê Violência Contra Mulheres, um portal que explica os diferentes tipos de violência, oferece uma coletânea das pesquisas mais recentes e lista mais de 120 fontes especializadas. Entre esses nomes, estão professoras, pesquisadoras, promotoras, advogadas, militantes da defesa de direitos, antropólogas, médicas, engenheiras, entre outros – maioria formada por mulheres.

O Dossiê é incialmente voltado para profissionais de imprensa, com o objetivo de oferecer recursos para o desenvolvimento de informações mais qualificadas. Porém, isso não impede que o público e outras organizações acessem o documento. “Tivemos uma preocupação muito grande em deixar interessante para qualquer pessoa. Então ele serve para um jornalista que está cobrindo isso pela primeira vez, para uma blogueira que escreve com frequência ou para uma ativista de uma causa social, para achar ali a pesquisa que precisa, os dados, os especialistas e seus contatos”, conta Débora. A iniciativa foi uma das 31 selecionadas no 19º edital do Fundo Sem Medo, do Fundo Social Elas em parceria com o Instituto Avon.

Para Maíra Kubík, falta contextualização na maneira como a mídia trata o tema: “Quando você isola os casos, não reconhece que a violência contra a mulher é um problema da sociedade brasileira. Por exemplo, na questão do debate da descriminalização do aborto vemos alguns casos de mulheres que morrem realizando aborto em clínicas ilegais, mas não podemos ignorar que na verdade 800 mil mulheres fazem aborto por ano no Brasil”.

Maíra também considera que a violência contra a mulher de maneira geral tem sido mais discutida atualmente por conta de alguns marcos, como a Lei Maria da Penha, a criação do Disque 180 (central de atendimento à mulher) e a aprovação da Lei do Feminicídio no primeiro semestre deste ano.

Essa situação se refletiu também no universo acadêmico, em que Maíra atua como professora de teorias feministas no bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade na Universidade Federal da Bahia (UFBA), curso existente há cerca de cinco anos. Outro exemplo de atuação na academia é Mariana Meriqui Rodrigues, pesquisadora do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Extensão em Sexualidade, Corporalidade e Direitos da Universidade Federal no Tocantins (UFT), que possui parcerias com o governo local. “Em função disso, oferecemos algumas formações para professores, agentes socioeducativos, profissionais de segurança e saúde”, diz. Dessa maneira a produção realizada no ambiente universitário acaba impactando em políticas públicas e contribuindo para as novas formas de organização da sociedade.

No entanto, mesmo as parcerias já existentes em Tocantins ainda não dão conta de suprir a demanda local. “O Tocantins é um lugar com alto índice de feminicídio e nós ainda não temos a delegacia da mulher, nem secretaria ou departamento”, afirma Mariana. De origem paulista, ela reside em terras tocantinenses há dois anos e conta que, por ser o Estado mais novo do Brasil – existente desde 1988 – há muitas dificuldades ainda na consolidação das iniciativas públicas e políticas locais. “Isso se reflete muito na forma como a mídia aborda o tema. Muitos casos de estupro e assassinato de mulheres na maioria das notícias vão na linha da culpabilização, ressaltando que a vítima estava passeando em um local muito movimentado, ou que ela era conhecida por não ser uma pessoa de respeito, por exemplo”, diz. E completa: “Isso a gente vê de forma geral no país todo, mas também aparece muito por aqui”.

Repercutiu nas redes…

Por outro lado, já existem profissionais nos veículos que tentam mostrar a importância de falar sobre essa questão. Maíra, segundo sua experiência como jornalista, afirma: “Não é um tema fácil de ser abordado. Ele carrega um estigma de ‘ah, lá vem as mulheres falarem de novo sobre isso’”. Mas a insistência pode, afinal, trazer bons resultados. Foi o caso de Karin Hueck, uma das editoras da Revista Superinteressante, pertencente à editora Abril. Em julho deste ano, ela e sua equipe conseguiram que uma reportagem especial sobre cultura do estupro ganhasse a capa da publicação. Para alcançar esse resultado, foram necessários meses desde a concepção da ideia (em setembro de 2014), estudando se o público teria interesse suficiente para que o assunto não gerasse baixas nas vendas. “A gente demorou para se assegurar que valia a pena, mas a matéria já estava na minha cabeça. Eu já sabia que queria falar sobre o silêncio e como as estruturas abafam o crime”, revela.

Para a surpresa da redação, não só houve interesse como a edição gerou grande repercussão, provocando respostas de mulheres que se identificaram e passaram a enviar casos de abuso e estupro que tinham vivenciado, totalizando mais de cem depoimentos espontâneos. Já a revista impressa foi responsável por uma das maiores vendas do ano.

“Nas redes sociais foi o maior sucesso que a gente já teve. As imagens que fizemos para o Facebook foram visualizadas por 20 milhões de pessoas e tiveram cerca de 150 mil compartilhamentos”, diz Karin, afirmando também que a intenção agora é abraçar de vez o tema, com planos de produzir conteúdos audiovisuais e até promover um evento. E ela dá sua opinião sobre a aceitação do público: “Acho que são as mulheres. Somos metade da população e todas sabemos o que é uma agressão sexual. Mesmo que não seja um estupro, que é o conceito mais conhecido, todas sabem o que é ouvir o que não quer, ser encostada onde não quer. E todas conhecem alguém que já foi vítima de algo pior”.

O envolvimento de Karin com as causas de gênero vem de longa data. Sua atuação já se refletiu também em 2013 na campanha Chega de Fiu Fiu, do site Think Olga. Em conjunto com a jornalista Juliana de Faria, idealizadora da iniciativa, Karin desenvolveu a pesquisa que revelou que 83% das mulheres não gostam de ouvir cantadas na rua e 81% já deixaram de fazer alguma coisa com medo de serem assediadas, entre outros dados. “Eu pensei que seria legal se tivéssemos números. Imaginei que se não tivéssemos algo quantitativo ou alguma estatística, o assunto não ia ganhar muita relevância”. A divulgação dessas informações gerou parcerias, inclusive com a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que elaborou uma cartilha contra o assédio e distribuiu gratuitamente. Para Maíra Kubík, o segredo está no debate amplo sobre o tema: “Quanto mais visibilidade você dá para essas pautas, mais aumenta a pressão da sociedade em cima delas”.

Acesse aqui a plataforma do Dossiê Violência contra Mulheres: http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/


Texto: Natália Freitas
Data original de publicação: 13/08/2015