Documentário, produzido por coletivo feminista, conta histórias de mulheres da periferia

1455888899_047091_1455890808_sumario_normalUma parceria entre sete mulheres que resultou na produção de um documentário. Assim surgiu o curta metragem Nós, Carolinas, que explora o dia a dia de quatro figuras femininas com diferentes idades que vivem em bairros periféricos da cidade de São Paulo.

O Nós, Mulheres da Periferia, responsável por tirar a ideia do papel e transformá-la em realidade, surgiu no ano de 2014 a partir da mobilização de nove mulheres. O pontapé inicial foi a publicação de um artigo na Folha de São Paulo, cujo título era o mesmo que hoje dá nome ao coletivo. Antes disso, textos e conteúdos sobre as comunidades eram divulgados em um blog que se chamava Mural, também pertencente ao jornal. Hoje o antigo site tornou-se uma Agencia de Notícias das Periferias.

No início, as integrantes que fundaram o coletivo não se reconheciam como feministas. “Não nos considerávamos feministas. As pessoas perguntavam e a resposta era sempre negativa. Isso acontecia pois tínhamos dúvidas sobre o que era teoricamente o feminismo. Com o tempo, após iniciarmos diversos trabalhos, começamos a reconhecer falar sobre a mulher periférica e os direitos dela perante a sociedade. Isso é ser feminista”, revelou Aline Katia Melo, que é jornalista e integrante do coletivo.

43390802-f28e-4be5-92f6-db7ccdfb4b82Em 2015, as jovens inscreveram um projeto no programa Valorização de Iniciativas Culturais da Prefeitura de São Paulo (VAI). Após a aprovação, elas realizaram oficinas com cerca de 100 mulheres de 17 a 93 anos em diversos pontos da cidade. Aline conta que rodas de conversa e pintura faziam parte do cronograma. “Uma das propostas era oficina de autorretrato. Nela as mulheres tiraram fotos entre si e depois reproduziam aquilo que enxergavam nas imagens. Nós sempre levávamos uma tela para desenho. Além, é claro, de debates e bate papo”.

De novembro a dezembro de 2015, após a finalização da iniciativa, foi feita uma exposição no Centro Cultural da Vila Cachoeirinha. “Colocamos o nome da exposição de Quem Somos, Por Nós, por conta da ilustração que cada mulher fez de si”, detalhou Aline. Além disso, nove das 100 mulheres, foram entrevistadas e tiveram suas histórias contadas no evento.

No ano seguinte, o coletivo procurou o VAI novamente, mas dessa vez para fazer o documentário sobre o processo anterior. De acordo com Aline, quatro das nove entrevistadas foram escolhidas, assim era possível realizar um trabalho aprofundado sobre cada uma. “Decidimos produzir algo em audiovisual com base em quatro narrativas. O primeiro passo era tentar reencontrar essas mulheres, gravar imagens de apoio e coletar informações. Encontramos duas. Uma nós não conseguimos e outra delas, Carolina Augusta, de 93 anos, faleceu ano passado”, disse Aline. Pontuou também que o nome do documentário é uma homenagem a essa senhora e à Carolina Maria de Jesus, escritora brasileira. “Cada uma tem a sua voz e vivência. Então nós deixamos como uma homenagem a uma de nossas entrevistadas e também a ela, uma grande autora, pelo contexto de mulher, negra e periférica – sem contar que ela foi a primeira figura feminina a contar sua vida”. Para Aline, a história da idosa foi a que mais a sensibilizou, principalmente por ela não ter acompanhado o resultado final.

Aline disse, também, que as histórias escolhidas tinham sempre algo em comum, apesar de serem distintas. “Das quatro, três falam em racismo. Procuramos uma diversidade de bairros, idade e vivência. Mas, ao mesmo tempo, queríamos um ponto que as ligassem entre si”. Acrescentou que ao longo do processo de produção, algumas dificuldades surgiram. Elas iam desde problemas técnicos até desentendimentos internos no grupo. “Entrar em um consenso com mais seis pessoas não é fácil. Além disso, a entrevista da dona Carolina, por exemplo, ficou com uma falha no áudio. Ficamos na dúvida se cortaríamos ou não. Havia uma potência muito grande na fala dela”. Quatro exibições públicas já aconteceram desde o lançamento do documentário e, de acordo com Aline, ninguém criticou negativamente o chiado durante a fala de Carolina.

Os comentários do público são muito positivos, contou Aline. “Sempre fazemos as exibições e depois um debate. Algumas pessoas no final vêm, dão abraços, falam que se emocionaram e que vão recomendar. Muita gente se reconhece nas situações que apresentamos no filme”, finalizou.

O documentário ainda não está disponível na internet e ainda não há previsão de lançamento online. O teaser pode ser visto em: https://goo.gl/k1TGGI. Para saber mais sobre o coletivo Nós, Mulheres da Periferia, acesse: https://goo.gl/DhGjXs


Data de publicação: 06/04/2017
Crédito do texto: Gabriela Lira Bertolo