Diversificação das matrículas no ensino médio pode acarretar nas desigualdades educacionais entre os estudantes, alerta estudo

12778743_950673138349800_2054207136282427541_o11 milhões de jovens de 18 a 29 anos não concluíram o ensino médio, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2014. Para entender melhor essa situação e dos estudantes, a coordenação de pesquisas do Centro de Pesquisas e Estudos em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) divulgou na manhã de quarta-feira (2/3) os resultados preliminares do estudo Ensino Médio, Qualidade e Equidade: Avanços e Desafios em Quatro Estados (CE, PE, SP, GO).

Maria Alice Setúbal, socióloga e presidenta do Cenpec, comentou que o estudo ainda pretendeu mostrar quais jovens estão sendo formados para a educação do século XXI. Ainda explicou que esse estudo envolve duas pesquisas: uma direcionada ao currículo e a outra direcionada para os territórios vulneráveis – além da contribuição sobre juventude. “Na grande maioria dos casos, nós encontramos escolas muito boas, onde tem equipes envolvidas e comprometidas com jovens que gostam de ir à escola”, pontuou.

O objetivo desse estudo é analisar e mostrar as políticas implantadas por diferentes Estados brasileiros para o ensino médio, além de apresentar como as escolas estão situadas nesses territórios vulneráveis socialmente com seus desafios e as possibilidades criadas por essas políticas. Também pretende trazer uma análise de apreender como essas políticas e reações podem contribuir para a promoção da melhoria da qualidade da educação e da equidade.

Esse material também pretende contribuir com o debate sobre ensino médio no país, já que muitos discursos focam na melhoria da eficiência da gestão, da cobertura e a necessidade de uma reforma curricular. Com uma avaliação quantitativa e qualitativa, foram analisados dados do Pnad/IBGE, Saeb e do Censo Escolar e os pesquisadores dos quatros estados descreveram as políticas executadas, com base do levantamento da documentação e da legislação pública e de observação das escolas – foram analisadas 24 estudadas, seis em cada Estado – e de entrevistas com secretários de Educação (exceto o de São Paulo), técnicos das secretarias e de órgãos intermediários, diretores, professores e estudantes.

“Outra preocupação do estudo foi apontar desigualdades no ensino médio, discussão de gênero, étnico-racial de modo mais global, buscando aprender os problemas do ensino médio mais abrangente nos problemas e em seus avanços. Mostrar como isso afeta os territórios vulneráveis, as desigualdades regionais entre os municípios com mais dificuldades e sua juventude”, refletiu Antônio Augusto Gomes Batista, coordenador de pesquisa do Cenpec.

Foi constatado que a execução das políticas de diversificação da oferta do ensino médio produz desigualdades educacionais. Observou-se que as escolas de tempo integral atraem estudantes com perfil social e acadêmico mais altos, colocando os estabelecimentos de ensino de tempo parcial em desvantagem no recrutamento de alunos. Dessa forma, defendeu-se que a diversificação da matrícula no ensino médio precisa ser posta em prática com cuidado para não considerar a origem social dos estudantes e é possível implicar numa distribuição desigual de oportunidades educativas.

As três principais questões desse resultado preliminar foram: modelo de política nos quatro estados, orientado pela busca de melhoria de resultados por meio do aprimoramento da gestão; a diversificação da oferta de matrícula está associada a uma distribuição desigual das oportunidades educacionais, em função da origem social dos estudantes e relação dos jovens com a escola. O coordenador do Cenpec mostrou ainda o modelo orientado pela gestão de resultados seguida pelos estados entrevistados, em que inclui: currículo e metas, avaliação de resultados e responsabilização forte, monitoramento do processo de ensino-aprendizagem e formação dos professores.

Também foi notado uma distorção idade-série nas escolas de tempo integral e de tempo parcial: quanto maior porcentagem de matrículas integrais menor a taxa de distorção. Nessa taxa de distorção idade-série, a correlação é maior e significativa somente os Estados (CE e PE) onde a matrícula no integral é mais expressiva. Quanto maior a porcentagem de matrículas no noturno, maior taxa de distorção. Nesse último caso, destaca-se Goiás, em seguida São Paulo e Pernambuco e, por último, Ceará.

Antonio Augusto ainda ressaltou que essa ideia de gestão contamina nas metas de aprendizagem em currículos dos Estados de PE, SP e GO. Esses possuem o mesmo modelo de currículo e são parecidos na forma como se organizam em ano e bimestre. “Os professores sabem que aula devem dar, os currículos são bem detalhados e aonde atingir”, comentou.

O ponto fraco está na formação dos docentes, segundo o pesquisador. Em todos os Estados analisados, notou-se: uma redução do número de professores com ensino superior completo que lecionam no ensino médio (exceto PE); o percentual de professores temporários é menor nas escolas com turmas de tempo integral do que nas de período parcial; o percentual desses profissionais com mestrado e doutorado é maior nas escolas com turmas de tempo integral do que nas de período parcial (exceto PE) e o percentual de professores efetivos é maior nas escolas com turmas de tempo integral do que nas de período parcial (exceto do CE).

Sobre o jovem, o pesquisador comentou que é um público com escolhas forçadas: “Eles optam com uma certa expectativa formada em torno dele”, afirmou. O estudo ainda trouxe as relações desse público com a escola. Foram constatadas cinco questões: aos jovens de territórios vulneráveis a escola é um espaço de sociabilidade; a maioria gosta da escola, independente se está em turmas de tempo integral, parcial, diurno ou noturno; no caso noturno, quase 1/3 afirmaram que se pudessem escolheriam mudar de escola; a reputação da escola é o principal motivo para sua escolha aos estudantes de período integral, por outro lado os do noturno optam pela mais próxima de casa e por ser a única do bairro ou município; e todos pretendem continuar seus estudos e acreditam sim que essa instituição pode possibilitar uma melhor inserção no mercado de trabalho.

Serviço:

Confira aqui o estudo Ensino Médio, Qualidade e Equidade: Avanços e Desafios em Quatro Estados: CE, GO PE e SP: http://goo.gl/pdxwkl


Data original de publicação: 04/03/2016
Texto: Susana Sarmiento, com informações da comunicação do Cenpec