Diva Guimarães fala sobre racismo e defesa de direitos

Educadora marca presença na Conferência Ethos 2018 e defende direitos das mulheres.

Diva-Guimaraes-Reduzida
Professora fala do cuidado do ensinar, da importância do acolhimento e afeto e combate ao racismo. (crédito da imagem: Instituto Ethos/Divulgação)

“Tem muita gente que está fora de escola, por causa de um professor. Temos que ter muito cuidado com as palavras, o que você vai dizer para um aluno”, afirma a educadora Diva Guimaraes que falou na 20ª edição da Conferência Ethos na Expo Barra Funda na zona oeste de São Paulo. A senhora de 78 anos, professora, ficou conhecida quando fez um depoimento na mesa A Pele que Habito na Festa Literária Internacional de Paraty de 2017 (Flip) no Rio de Janeiro. Confira abaixo a conversa com equipe do Portal Setor3:

Portal Setor3- Como a senhora vê sua participação na Conferência Ethos 2018?
Diva Guimarães – Tudo começou com a minha participação na Flip 2017. Eu levantei para fazer um agradecimento ao Lázaro Ramos, porque eu me senti representada. Em dois dias, eu resolvi de ir para a Flip. Não queria morrer sem conhecer a Festa. Convidei Maria Alicia, ela demorou para dar a resposta, mas quando retornou estava com tudo pronto. Naquele momento do meu depoimento, eu simplesmente quis agradecer e saiu tudo aquilo. Sempre fui uma pessoa muito reservada. Tímida para me proteger de tanto racismo e sofrimento. Recolhida. Meus amigos quando me viram na televisão sobre meu depoimento acharam que eu tinha ficado louca. Naquele momento, eu senti que era um parto para meu nascimento. Era minha mãe dizendo: essa era a filha que eu queria. Foi exatamente o que senti.

Portal Setor3- E apareceram muitos convites para participar de eventos?
DG- De lá para cá apareceram muitos convites. Primeiro eu me escondi e fiquei com medo. Fiquei uma semana doente sem voz de cama. Depois conversei com uma pessoa que tem muita sabedoria e me disse que tenho uma missão e tinha nascido com aquilo. Se eu tenho oportunidade agora, quero falar na voz daqueles que nunca tiveram. Batalhei muito e sofri demais. Eu me cobrava muito que eu nunca tinha feito nada pelas pessoas. E quero agora aproveitar o resto da vida para falar por aqueles que nunca tiveram oportunidades: índios, negros e pobres de periferias. Eu sei do que eu passei e quero avisar as pessoas para não desistirem e batalharem. Se virarem chacota, não é baixar a cabeça. Temos que seguir até o final com nossas conquistas e sempre mostrar o que é melhor. Nós precisamos sim das cotas. Não concordava antes, mas hoje apoio 100%. Não é nenhum favor, nem esmola. É obrigação deles, porque impediram minha mãe e meus antepassados de estudarem. Eles têm dívida conosco. Precisamos aproveitar e desconsiderar a ignorância dos colegas e da sociedade. Eles ainda estão pensando com a cabeça na colonização. Por isso, precisamos descolonizar a cabeça e tocar a vida para frente.

Portal Setor3- Como foi essa apresentação com o público da Conferência Ethos 2018?
DG- Tive uma grande preocupação e foi meio assustador. As pessoas não precisam concordar comigo, me ouvindo e se falarem que discordem tudo bem e aceito. Mas eu quero concordando ou não que me ouçam com respeito. Depois da Flip eu virei um grilo falante. Eu falo hoje e eu tenho que gastar tudo isso. Fiquei com a máscara da escrava Anastácia por 77 anos e me livrei agora e vou para qualquer lugar. Aonde me chamarem, eu vou, até a hora que o universo permitir que eu viva.

Portal Setor3 – Como professora, como avalia a importância de ler e participar?
DG- Eu falo muito sobre a leitura. Observo que a juventude está muito presa ao aparelho. Tem seu lado positivo, mas também o lado negativo. Como vou saber? Como terei discernimento do que é verdade e o que é mentira? Só através da leitura. Você precisa ler. A vida não se resume nesse aparelho. Você precisa ter conhecimento para não cair nas armadilhas. Eu fico revoltada com mulheres que apoiam esse candidato, que já falaram que mulheres que criam sozinha seus filhos sem marido é uma fábrica de bandidos, ou de traficantes. Esse candidato ainda fez chacota com os quilombolas. Nos livros de História, não podemos esquecer que os senhores de escravos escolhiam as escravas para fazer filhos nelas para nascerem saudáveis e fortes e se tornavam trabalhadores deles. Fico assustada bem assustada. Por isso, penso que falta conhecimento e as pessoas vão para a brutalidade. Elas se sentem empoderadas, porque terão armas e fico mais triste quando vejo negros ao lado desses candidatos. Temos que ler e ler. Só através do conhecimento podemos chegar em algum lugar.

Portal Setor3 – Qual recado você dá para essas mulheres?
DG- Dou minha opinião: as mulheres precisam se valorizar e se colocar no lugar de mulher, respeitar o seu corpo. Em outros países, tem uma mensagem do corpo da mulher negra como objetos sexuais. Como você pode exigir respeito? A partir de você. Você faz sua escolha do que quiser. Na minha época, eu era transgressora. A mulher casava e o marido dela se tornava seu dono. Hoje não tem esse machismo horroroso e a mulher tem que se colocar em seu lugar e ela sempre fica com o filho. Ela se respeitando passa uma boa qualidade de vida ao seu filho. Não pode passar vitimização e mostrar para ele que é capaz sim de conquistar as coisas. Eu fui criada por mulheres, porque meu pai faleceu cedo. Na minha geração, ruim com ele e pior sem ele. Você pode ter trabalhado 12 horas no dia, mas se dar 20 minutos de tempo com qualidade, você não perde esse filho.

Portal Setor3 – E o recado ao educador?
DG- Quem quer ter esse título de educador tem que ter uma consciência aberta e não rejeitar um gay, nem pobre, nem por cor, ou alguma característica física. Na minha opinião, o educador tem que ter amor e acolhimento. Respeitar a criança e procurar saber, porque ela está agindo de tal maneira. A fase mais importante da vida é a infância, porque deixa marcas na alma e não tem cura. Se você acolher, não perde uma criança e cada uma delas têm seu tempo de aprendizagem. Não ficar fechado. Tem a grade curricular. Não gosto dessa palavra grade. Para mim, ela representa prisão. Nem todo mundo cabe naquela grade. Tem que respeitar o tempo da criança. Dela entender as coisas, conversar com a criança. Porque às vezes ele está assim, por causa de uma agressão que sofre em casa, ou passa fome. Quem tem estômago vazio não pensa. Uma coisa bem importante e levei para vida é cuidado com as palavras, porque ela marca e destrói uma pessoa. Tem muita gente que está fora de escola, por causa de um professor. Temos que ter muito cuidado com as palavras. Nessa história da invisibilidade, você é visível na hora da chamada. Depois disso você não existe. Esse é o cuidado que temos que tomar. Procurar saber o que está acontecendo e quando a criança está se sentindo respeitada e acolhida com amor, esse você não perde, porque o professor para criança é um Deus. Você será levado por uma palavra, ou vai ser odiado por elas.

Acompanhe aqui programa Espelho, do Canal Brasil, com Lázaro Ramos entrevistando Diva Guimarães: https://goo.gl/1Vjjpd