Diretora-presidente do IDIS explica a pesquisa Doação Brasil

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Paula Fabiani explicou os principais pontos prévios da pesquisa Doação Brasil

Em um país desigual, em que 13% da população possui 40% da renda total, como se dá a cultura individual para a doação no Brasil? Quais são os valores e as visões de mundo para esse movimento? Paula Fabiani, economista e diretora-presidente do IDIS, ministrou a palestra Entendendo o doador brasileiro: resultados da primeira pesquisa Doação Brasil na manhã do segundo dia da oitava edição do Festival ABCR, que ocorreu na última quinta-feira de amanhã no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo.

Em 2014, segundo a IPSOS Brasil, sobre o ambiente de doação, 73% das pessoas não se sentem estimuladas no seu círculo de convivência (família, comunidade, escola e local onde trabalha) a realizar doação ou trabalho voluntário e doamos mais para pedintes e igrejas do que projetos de ONGs.

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Economista ressalta a importância de ter dados sobre a cultura de doação no Brasil

A grande questão da palestra foi como é composta a doação no Brasil. O total de recursos mobilizados foi de R$ 65 bilhões, que representa 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Essa verba é originada por 53% de recursos próprios, 26% pela filantropia privada e 20% dos recursos governamentais e a maior parte desses recursos são direcionados para região Sudeste. São Paulo é a sexta capital do mundo com mais milionários.

Paula comentou sobre o caso da organização Médicos Sem Fronteiras, que conseguiu 170 mil doadores individuais brasileiros. Ela previu que as classes médias no mundo crescerão 165% até 2030.

A palestrante ainda mostrou o World Giving Index (WGI) da CAF, uma pesquisa anual sobre o comportamento global da caridade baseado em pesquisas realizados pelo Gallup em 145 países em 2014. Analisa três indicadores de doação: a porcentagem de pessoas que doaram para caridade, dedicaram tempo de voluntariado e ajudaram um desconhecido no último mês.

Os primeiros colocados foram: Miammar, Estados Unidos, Nova Zelândia e Canadá. O Brasil perdeu 51 posições, desde o início do levantamento. Essa queda ocorreu de forma geral nos países da América do Sul. “Somos melhor em ajudar os outros”, afirmou. E quais os pontos positivos? Subiu para 5º colocado entre os países da América do Sul e doação em recursos aumentou nas faixas etárias. Já os negativos foram: a queda de 90º para 105º no ranking geral, doação em recursos caiu dois pontos e o voluntariado de homens também reduziu em seis pontos percentuais.

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A representante do IDIS informou que será lançado versão final em 15 de junho

Paula comentou que o Brasil piorou muito em relação ao WGI de 2014, porque as pessoas estão doando menos tempo e recursos. “Não temos incentivos à doação”, disse.

A diretora-presidente do IDIS explicou sobre a pesquisa Doação Brasil. Esse estudo está sendo feito por 10 grupos de discussão, consultados entre os dias 15 e 28 de outubro de 2015, em São Paulo, Recife e Porto Alegre, com pessoas doadoras e não doadoras. Foram entrevistadas pessoas de distintas classes sociais: A, B, C e D, homens e mulheres, com faixa etária entre 18 e 50 anos.

Esse estudo pretende entender como o brasileiro vê a doação, por que as pessoas doam, quanto doam, por que não doam e os que faria mudar de postura. As descobertas até agora foram: o governo é percebido como principal agente responsável pela justiça social no país; visão generalizada de inadequação doação governamental no que se refere ao bem estar social ou mais diretamente ao apoio da população necessitada; ao governo se associa campeão e falta de eficiência e omissão do governo a outros agentes da sociedade. E de quem é a responsabilidade? Os não doadores são os mais persistentes.

Também foi consultado as palavras e seus significados para investigar os grupos. Foram questionados as seguintes expressões: filantropia, caridade e investimento social privado. Sobre a primeira, falaram que quem tem muito dinheiro ou ações de misericórdia, e que possui uma visão paternalista e assistencialista. Já caridade é um termo aceito, mas demonstra para alguns uma relação um pouco depreciativa para quem recebe a doação – envolve uma hierarquia. E a última não é conhecida. O termo solidariedade é o mais aceito.

O processo de doação também foi outra questão estudada. Envolve motivações; incômodo e desigualdades com a situação de necessidade; possibilidades de ajudar; educação e histórico familiar; sensibilidade; possibilidade e exemplo. Entre os fatores concretizados, foram levantados: sensibilidade à causa, confiança na entidade, disponibilidade financeira e acesso ao mecanismo de doação. “A sensibilidade às causas depende das circunstâncias e envolvimento histórico”, ressaltou.

O estudo também fala sobre os itens que contribuem para a construção da confiança: ser mais transparente, prestação de contas e nortear a aplicação de recursos; mostrar resultados e efetividade da ação, foco nas ações tangíveis e específicas; ser aberto à visitação e conhecer por dentro.

Por outro lado, o que ajudaria a destruir a confiança? Ela comentou que seria a associação com políticos de governos, escândalos, histórico negativo, falta de transparência e de visão de resultados, e insistência da contribuição.

Os resultados finais dessa pesquisa será lançada em 15 de junho deste ano. No momento estão concluindo a etapa quantitativa.

8º Festival ABCR

Entre os dias 4 e 6 de maio, ocorreu um evento voltado para captação de recursos a organizações da sociedade civil no no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo. Participaram deste encontro profissionais da área de captação e mobilização de recursos de organizações da sociedade civil; gestores de associações e fundações; acadêmicos, estudantes, pesquisadores e demais interessados em compreender a situação atual e as tendências desse segmento.


Serviço:

Acesse o site do evento: http://festivalabcr.org.br/


Foto: Divulgação
Data original da publicação: 10/05/2016