Diretora-executiva do Fundo Baobá enfatiza recursos para iniciativas da população negra

Com quase 10 anos de trajetória, a organização busca pela equidade racial para a população negra brasileira.

Banner com foto de duas adolescentes negras e texto: #JuntosPelaEquidade e site do Fundo Baobá: www.baoba.org.br
No edital de emergência, foram selecionados 350 projetos: 215 de indivíduos e 135 de organizações. (crédito da imagem: divulgação)

“Quando falamos da população negra, estamos invariavelmente falando das pessoas de baixa renda e em situação de vulnerabilidade”, pontua Selma Moreira em uma das respostas para equipe do Portal Setor3. A diretora-executiva do Fundo Baobá pela Equidade Racial enfatiza a importância de captação de recursos a empreendimentos de negros, impacto da pandemia em editais e chamadas a esse público, e como beneficiar cada vez mais um público diverso por meio dos editais.

Formada em gestão de negócios com especialização em gestão estratégica, comunicação organizacional e relações públicas e em gestão de empreendimentos, Selma possui larga experiência em projetos de gestão ao desenvolvimento social em comunidade e atividades de planejamento relacionadas à programas de responsabilidade social corporativa e educação ambiental. Atuou como gerente de responsabilidade social no Wal-Mart e no Alphaville Urbanismo e como gerente de projetos na Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Confira a entrevista abaixo:

Foto de mulher negra sorrindo, Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá.
Há seis anos Selma atua como diretora-executiva no Fundo Baobá. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Como avalia o papel dos fundos de captação de recursos a projetos de empreendedores de baixa renda?

Selma Moreira – Posso falar pelo Fundo Baobá, que nasceu há quase dez anos para preencher uma lacuna identificada em consultas e conversas promovidas pela Fundação Kellogg, por ocasião de sua saída do Brasil, e desenvolvidas por mais de dois anos. O objetivo era deixar um legado para o Brasil – um legado que fizesse sentido, que efetivamente abordasse algum ponto crucial. E a conclusão foi que o movimento negro precisava de um mecanismo permanente de financiamento para suas ações. Dessa forma, nossa missão de permanentemente captar recursos, dentro e fora do Brasil, para apoiar ações que favoreçam a equidade racial. A destinação de nossos recursos se dá dentro de um conjunto de diretrizes programáticas que abordam os gargalos que mantêm o racismo estrutural e perpetuam a desigualdade e as injustiças sociais.

Quando falamos da população negra, estamos invariavelmente falando das pessoas de baixa renda e em situação de vulnerabilidade. Ainda vemos que: em 2019, a renda média mensal dos negros equivalia a 55,8% da renda dos brancos. Em relação às moradias, dados do censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010, mostram que, naquele ano, havia 3.224.529 domicílios em 6.329 em favelas ou aglomerados subnormais, de acordo com a classificação do órgão. Um olhar mais atento sobre essas informações revela significativa desigualdade, de acordo com a cor. Em 2018, era maior a proporção de negros residindo em casas sem coleta de lixo (12,5%) do que brancos (6%), sem abastecimento de água encanada (17,9% contra 11,5%) e sem rede de esgoto (42,8% contra 26,5%). Essas condições aumentam a vulnerabilidade, elevam a exposição a agentes causadores de doenças. Em nove anos, o número de aglomerados no país praticamente dobrou e o de moradores nessas condições aumentou em quase 20%.

Portal Setor3 – O início do mês passado foi marcado nas redes sociais com a campanha Blackout Tuesday (02/06). De que forma contribuiu de fato com o debate em equidade racial no país? Contribuiu no processo de captação de recursos a projetos de empreendedores negros?

SM- Os mais recentes casos de violência, como o ocorrido nos Estados Unidos com George Floyd, deram início a uma onda de protestos por todo o mundo, dando mais visibilidade à questão do racismo. Como decorrência, vimos influencers negros assumindo temporariamente as redes sociais de brancos. Capas de revista mais recentes estão sendo ocupadas por negros. Dar essa visibilidade é importante, porque representatividade conta, mas está longe de ser suficiente. O mesmo noticiário que mostrou a violência contra George Floyd tem nos mostrado quase cotidianamente eventos semelhantes. Ou seja, na prática, quase nada mudou: embora as pessoas tenham se mostrado mais sensíveis ao tema, as instituições permanecem impermeáveis, reproduzindo o racismo estrutural que prejudica não só as populações diretamente afetadas, mas o país como um todo. A pandemia do coronavírus está servindo para mostrar como a desigualdade racial prejudica o país como um todo, pois são as pessoas mais vulneráveis, em sua grande maioria negras, que estão morrendo mais.

Na parte da captação de recursos, a reação da sociedade à morte de George Floyd nos países desenvolvidos serviu para chamar a atenção de empresas e organizações, que têm se mostrado mais abertas. Porém ainda há um longo caminho a percorrer porque ainda há pouco conhecimento sobre a extensão do desafio entre aqueles que não se dedicavam a esta questão. Também é importante lembrar que a morte de Floyd aconteceu em meio à pandemia, que levou muitos doadores a direcionarem recursos para ações emergenciais e não necessariamente em apoio a empreendedores negros.

Existe uma necessidade real e urgente das empresas e grandes investidores olharem e demandaram equidade racial de toda a cadeia de produção e de quem recebe investimentos, por exemplo. Isso aconteceu na área ambiental, com empresas aceitando fazer negócios apenas com quem leva a questão da sustentabilidade a sério. Infelizmente, a equidade ainda não foi devidamente incorporada. Sabemos que processos de mudança são lentos, mas se grandes empresas e investidores tivessem como prática considerar fornecedores negros, quilombolas, pessoas de comunidades ribeirinhas, produtores familiares, além de considerarem em seus quadros funcionários negros, a equidade deixaria de ser uma questão burocrática, mas oportunidade para aprendizado e quitação de uma dívida histórica.

Portal Setor3 – Com a pandemia, muitas organizações tiveram que mudar o destino de recursos de editais e chamadas para atender necessidades com o avanço da pandemia. No Fundo Baobá, que tipo de mudanças ou ajustes foram necessários?

SM- Ao desafio da captação de recursos, somou-se o desafio da rapidez – tanto para lançar, como para selecionar e destinar recursos. Entre abril e maio, diante do crescimento dos casos de Covid-19 e prevendo o impacto da doença sobre as comunidades mais vulneráveis, lançamos três editais para apoiar um amplo espectro de populações em situação de risco. Quando pensamos no edital de emergência, recebemos 1.037 inscrições sendo que foram selecionados, em três listas divulgadas, 350 projetos – sendo 215 de indivíduos e 135 de organizações. Cada um recebeu repasses de até R$ 2.500, que foram quitados em até cinco dias úteis. De acordo com a descrição de cada proposta, percebemos que cerca de 18 mil pessoas e 1.200 famílias foram impactadas indiretamente pelo edital. Isso exigiu adaptação de processos internos e agilidade para efetuar os pagamentos diante da necessidade urgente dessas pessoas. Conseguimos graças ao empenho de toda a equipe envolvida.

Banner com foto de jovens estudantes negros e texto acima: uma iniciativa do Fundo Baobá.
As inscrições para participar do Programa Já É: Educação para Equidade Racial irão até 31 de agosto. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Lendo a notícia sobre a seleção de 350 projetos, a diversidade de iniciativas das organizações beneficiadas foi notável. Qual o olhar necessário para contribuir com essas ações? Quantas famílias vocês calculam que já foram impactadas durante a pandemia por meio dos editais da Baobá?

SM- O Fundo Baobá tem grande experiência no lançamento de editais. Por meio dos formulários, estimulamos os respondentes a detalhar o uso do recurso que pleiteiam. Isso favorece um olhar que compreenda as reais necessidades das pessoas que vivem nessas comunidades e agir com sensibilidade para selecionar, dentro dos recursos de que dispomos, os projetos que vão fazer a diferença nas suas localidades. Mais que projetos, procuramos enxergar as pessoas que estão por trás de cada iniciativa – pessoas que já sofreram todo tipo de abuso, rejeição e exclusão por causa de sua condição social ou pela cor da sua pele. Outra preocupação é que os projetos tenham também sempre um viés informativo e educativo. Por isso, valorizamos os que distribuem materiais que levam conhecimento à população. Temos diversos casos muito emblemáticos. Uma das selecionadas mais recentes, por exemplo, montou uma cartilha sobre a relação entre saúde mental, relações raciais e Covid-19. Um outro projeto, o Coletivo Mulheres da Luz, que atende aproximadamente 200 mulheres em situação de prostituição na região central de São Paulo, tendo o Parque da Luz como ponto de referência. A maioria tem 40 anos ou mais. Existe equilíbrio entre negras e não negras. Os recursos recebidos foram usados na produção de máscaras e sabão pelas mulheres. Esses são apenas dois exemplos. Acreditamos que, somente com os editais lançados no contexto da pandemia, foram impactadas mais de 18 mil pessoas e 1.200 famílias.

Portal Setor3 – E, por fim, quais dicas você dá para aqueles que querem participar dos editais abertos hoje (Primeira Infância e o Programa Já É Educação e Equidade Racial)?

SM- A primeira dica é: entre em nosso site – www.baoba.org.br – e leia os textos. Lá as pessoas encontram não só o edital em si, mas também textos explicativos e as dúvidas mais frequentes, em formato de perguntas e respostas. A segunda dica é fazer contato conosco, caso a dúvida seja diferente das que já estão respondidas no site. Isso pode ser feito tanto pelo formulário de contato no site, como por nossas páginas no Instagram, Facebook e Twitter. Por fim, a dica de ouro: atenção aos prazos! Infelizmente não é raro receber mensagens de pessoas que queriam se inscrever e perderam o prazo. Por isso, é importante ficar de olho no calendário.

Acesse aqui o site do Fundo Baobá para Equidade Racial: https://baoba.org.br/