Desigualdades raciais no ensino médio ainda são existentes e precisam ser combatidas, segundo especialistas

15169Em um formato de mesa redonda, diferentes profissionais conversaram sobre a desigualdade racial no ensino médio, sob diferentes aspectos – acadêmico, de organizações sociais, mídia, do lado do próprio estudante. Com o título II Seminário Gestão Escolar para Equidade – Juventude Negra, o encontro teve o objetivo de identificar, reconhecer e acompanhar projetos de gestão escolar que contribuam para a redução das desigualdades raciais no ambiente escolar na última segunda-feira, no Paço das Artes, no centro de São Paulo. Foi realizado pelo Instituto Unibanco, Baobá – Fundo para Equidade Racial e Núcleo de Estudo Afro-brasileiros da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

14642002_10154882607066412_1383017958354511892_nHélio Santos, do Fundo para Equidade Racial, pontuou sobre a falta de capacidade de gerir recursos para essa população e que a profundidade de modelos de negócios de gestão que se baseiam na igualdade de tratamento.

Já o professor Valter Silvério, da Ufscar, resgatou duas questões: a importância da sociedade brasileira ser igualitária e democrática e isso permanece até os dias de hoje, e olhar específico para a população negra presente nas bancos escolares, que não permite esse acesso que continha persistindo. “No final dos anos 1980, trabalha a formação dos professores e questões étnico-raciais no Centro Histórico do Museu Afro-Brasileiro e desenvolveu essas diretrizes para educação básica – preocupados com a população brasileira saiba da sua história”.

14729137_10154883001661412_5943419045041200377_nO pesquisador também comentou sobre a imagem de uma política universal com foco participar na participação do negro na sociedade brasileira. Sobre a discussão de cotas, ele levantou três itens: com a entrada de muitos negros nas universidades o nível iria cair – e observou situação contrária que as disfunções do ensino básico melhoraram; iria diminuir o abandono escolar e a manutenção da escola – isso foi superado e essa geração já está na pós-graduação; e no ensino médio, melhor ter o olhar para essa possibilidade e compreender melhor quem ele é e entender seu papel social – o que ele representa e a importância da continuidade de estudos de jovens negros.

14729383_10154883155596412_9071102868439131070_nJá Ricardo Henriques, do Instituto Unibanco, falou da importância de criação de alternativas para enfrentar, desconstruir marcado pela estrutura da desigualdade da necessidade de ter questões estruturadas explícitas do campo. “Tem que ter comprometimento, benefícios e com enorme resistência”, afirmou.

O economista também ressaltou a quantidade e atuação dos coletivos de jovens de diferentes etnias para a agenda da sociedade brasileira como toda equidade e transborda para a população negra. Também chamou atenção para a quantidade de mortes de assassinatos de jovens negros.

Ele ainda disse que o edital trabalha no campo de público com setor privado, empresas a serviço de uma agenda que não tolera retrocessos, consistentes mais múltiplas estratégias e precisa ter coesão de propostas e estratégias comuns. “É possível construir caminhos que sinalizem mais rica que valorizem o serviço para um Brasil melhor a todos”, afirmou.

Direitos humanos

“Universalização é foco”, iniciou Flávia Oliveira, economista e apresentadora da GloboNews/O Globo na mesa Direitos humanos e os desafios da diversidade no Ensino Médio. Ela apresentou uma série de fotos para comprovar como a sociedade repete os estereótipos para a população negra, em suas ambições, das relações comunitárias com figuras de Debret e de fotos recentes em que mostram famílias de negros com trabalho braçal, que ganharam guindaste na representação do açoite e linchamento –  atravessando vínculos e a Constituição das ideias que o não condiz com a realidade., acesso e formação do ensino superior. Ainda há pouca presença de afrodescendentes no ambiente universitário e nos altos cargos dentro das empresas.

“A Constituição é desigual. Não possibilita sonhar qual espaço de sonho e ambição. Possuem referências quase únicas e pouca perspectiva em São Paulo”, refletiu. Para comprovar essa realidade, a apresentadora trouxe alguns dados da inclusão dos negros no ensino básico. “Há desigualdade de origem de brancos e negros – percentual de crescimento pequeno à relevância – para um potencial futuro do estudante. Dos seis até 14 anos, foi aprovado a universalização da escola, mas não foi tratado a qualidade da escola. “Esquecemos de considerar que esses jovens são de família de baixa renda, desestruturada, vivem muitas vezes em área de risco… todos esses fatores justificam a evasão escolar. A escola discrimina fundamentalmente o contato humano para uma escola. Lá escutei que meu cabelo era feio, parecia macaca. Isso ocorre na escola e ainda é mal administrado. Ainda não chamam as famílias para saber como elas falam sobre esses temas com seus filhos”.

Já a alta taxa de assassinatos entre jovens negros, ocorre uma banalização dos homicídios mais graves. “Cada vez mais as mortes estão rejuvenescendo, antes da maioridade pena”, atentou. Ela ainda ressaltou três questões: 1) nova estrutura de representação na mídia cultural, 2) empatia ativa para ajudar enxergar o outro – como igual munidos de diretos e passa despercebido; 3) programas combinados. “Queremos jovens vivos e irem para a escola”.

A secretária de Educação do Estado de Minas Gerais comentou sobre as possibilidades de estudos aos negros. Para isso, é importante em pensar em políticas públicas para a educação, em uma lógica racista e em especial direitos da educação. E como avançamos nesse tema? Trabalhar para incidir nas questões de direitos do nosso país.

A educadora lembrou de dois decretos antigos no final do século XIX relacionados com a proibição da escolarização dos escravos. E após a aprovação da lei ventre livre, houve o decreto da escolarização de crianças livres e maiores de 14 anos, só podiam no período noturno. “Ainda hoje a educação é pouco valorizada no período noturno. Por que a oferta deve ser precarizada? O que acho mais emblemático? Pode ser desenvolvido um roteiro de uma agenda de políticas públicas, até para combater um processo de militarização da escola pública.

Macaé ainda ressaltou o trabalho e trajetória da Marcha Mundial das Mulheres Marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o movimento das ocupações das escolas, Marcha Mundial das Margaridas e outros coletivos contra o feminicídio.

A gestora educacional traçou o cenário do local aonde atua: 13,8% jovens de 13 a 17 anos estão fora da população que deveria estar já no ensino médio e ainda estão no ensino médio. Fez um trabalho de escuta com estudantes e professores para entenderem o que eles acham que faltam na escola e suas sugestões. A partir daí, foi criado uma disciplina chamada Mercado de Trabalho e Diversidade. Também defendeu a necessidade de projetos de pesquisa e intervenção que poderia trazer um decréscimo significativo para o período noturno.

“A meritocracia justifica a exclusão dos negros do direito de ter direitos”, afirmou a apresentadora da Globo News. Para ela, é essencial definir a meritocracia, não só se basear na nota escolar. “Eu vivia no bairro do Irajá e todos os dias ia para Niterói, cortava 90 km/dia”, comentou sobre sua experiência universitária que esse esforço também deveria ser considerado nesse tipo de debate. “Temos que pensar em reformar para privilegiar quem mais precisa de renda, que em geral não tem condições de gastar com educação e saúde”, ponderou refletindo sobre a aprovação da PEC 241.

Juventude em movimento

Hoje são mais de 1000 escolas ocupadas em diferentes cidades do Brasil. Jovens estão protestando para melhoria da infraestrutura desses espaços, mudança curricular, formação dos docentes e até das atividades oferecidas aos jovens. Para falar sobre essa situação, dois jovens foram apresentar suas opiniões e sugestões: Camila Gomes, uma das idealizadores do Coletivo MariaLab, e Pablo Spinelli, um dos integrantes do Coletivo RUA e estudante do ensino médio.

Camila começou a falar da sua participação como voluntário de informática básica nas escolas da rede pública e na criação de grêmios estudantis. “Nossa voz tinha que ser ouvida”, pontuou e ainda se lembrou que quando participa de grêmio escolar palpitava sobre a gestão, o investimento de recursos e outras questões importantes para sua escola. Também compartilhou dificuldades no ingresso da universidade e na busca de estágio, situações de preconceito por ser negra, da periferia e lésbica. Contou a criação da MariaLab, que é um espaço voltado para mulheres e meninas que querem ensinar e divulgar ciências e tecnologia como coisa de mulher sim. Acesse aqui: http://marialab.org/

Pablo ainda comentou sobre a posição de estudantes do ensino médio e contra a aprovação da PEC 241. Ele defendeu investimento para a área de educação. Também uma maneira de incentivar e fazer saraus, que propõe mais cultura e reduzir o preconceito.

“Como eu me sinto hoje na escola? Eu sento e o professor fala e pronto. Eu gostaria de ter mais espaço, com rodas de conversas mesmo”, sinalizou o estudante. Ele ainda se lembrou quando faxineiras e merendeiras ficaram paralisadas no Rio de Janeiro, porque seus salários estão atrasados e os alunos das escolas foram lá e a gente limpa e viu que aquele era nosso espaço. É uma boa forma de democratizar e isso é fácil, não gasta nada”, defendeu.


Serviço:

Acesse o site do Instituto Unibanco: http://www.institutounibanco.org.br/


Data original da publicação: 28/10/2016