Desemprego entre jovens provocará prejuízos a longo prazo, segundo especialistas

Desemprego entre jovens provocará prejuízos a longo prazo , segundo especialistasna ConferênciaEthos 360°
Crédito da foto Thiago Lopes

Matthew Goveir, sócio-diretor da Accenture Strategy, concorda com a afirmação mas destaca: “só precisamos tomar cuidado para não usar isso como desculpa para não agir. Temos que perseguir ações que reduzem o tamanho do problema”. A questão a que se refere é o desemprego entre os jovens: a taxa global encontra-se em 12,6% enquanto, no Brasil, ela é ainda maior, de 14,3%.

Desemprego entre jovens provocará prejuízos a longo prazo , segundo especialistasna ConferênciaEthos 360°
Crédito da foto Thiago Lopes

Ambos debatiam o tema durante a mesa com tema Os jovens e a empregabilidade durante a programação do primeiro dia da Conferência Ethos 360º em 2015. Junto a eles estavam Breno Valentini, diretor de negócios da rede social colaborativa Bliive, e a mediadora Maira Habimorad, CEO da Cia de Talentos.

Govier apresentou alguns pontos detectados pela Accenture Strategy, definidos como “vetores do problema”, considerados causas e agravantes da situação do desemprego entre os jovens. São eles: períodos de recessão econômica; anos de estudo e qualidade da educação; dificuldade para desenvolver competências relevantes para o mercado; falta de conhecimento sobre o mercado; redução de cargos iniciais de carreira; e baixo engajamento político. Sobre os aspectos educativos, ressaltou: “mesmo as escolas de qualidade formam para o vestibular e não para a vida ou para o emprego”.

As consequências do desemprego dos jovens também se revertem a prejuízos a longo prazo, como perda de confiança, renda inferior ao longo da carreira, vulnerabilidade social e maior probabilidade de desemprego na vida adulta.

Segundo os diagnósticos da Box1824, apresentados por Andreas, há uma diferença entre os grandes empresários já estabelecidos e a geração que está chegando agora no mercado de trabalho. As características do primeiro grupo eram bem específicas: colocaram a mão na massa (sem ter problemas em carregar caixas, por exemplo) e tinham uma relação especial com o fazer. Ao longo do tempo, construíram seus impérios e hoje se consideram realizados. “A palavra-chave para eles era persistência”, disse Auerbach.

No entanto, para descrever a juventude atual (fazendo uma leitura da faixa etária entre os 21 e 28 anos), ele usou a expressão “desafio do discurso emergente”. Ele o define como uma mentalidade de que é preciso trabalhar com o que se gosta, com um chefe bacana, com uma rotina flexível e desafiadora, entre outras características positivas. No entanto, é claro que nem todas as empresas são assim e isso gera angústia no jovem. “Hoje há a crise dos 20 anos. É o famoso ‘me formei, e agora? ’”, explica Andreas.

Para ele, apesar de o acesso à informação e as opções de formação serem mais amplas na atualidade, a grande dificuldade é a baixa inteligência emocional para lidar com frustrações: “a lacuna de aprendizado é comportamental”. A persistência das gerações anteriores foi substituída por ansiedade, seguida de frustrações e insatisfações em curto período de tempo, o que aumenta a rotatividade nas empresas. A lógica de que é necessário viver diversas experiências e aprender com elas no começo da carreira tem sido esquecida.

A mediadora Maira Habimorad insere na conversa uma informação interessante: segundo pesquisa que a Cia de Talentos realiza a fim de identificar a empresa dos sonhos dos jovens, de 2010 para cá, caiu de 87% para 67% o número de jovens que desejam cargos de liderança. Apesar de ainda ser o principal objetivo, essa vontade perdeu força. Atualmente, os valores que eles mais procuram em empresas são inovação e compromisso com sustentabilidade.

Breno Valentini, do Bliive, tem apenas 27 anos e se define como “parte de uma geração de pessoas viciadas em TEDs e documentários, que já possuem algumas experiências fora da caixa”. Em seu caso, ele participou como voluntário em um programa de intercâmbio em Bangladesh. Ele acredita que essa forma de pensar tenha influenciado em sua carreira, afinal hoje trabalha com uma rede social que funciona à base de troca tempo. Cada usuário pode disponibilizar uma atividade (aulas de inglês, dicas de viagens, cursos de gastronomia) e trocar horas de seu conhecimento com outras horas de áreas de seu interesse.

Valentini conta que desde a criação da rede, em 2012, a equipe já pode analisar que muitas pessoas sentem que têm seus talentos desperdiçados, a colaboração ainda é baixa e os aspectos econômicos no momento de adquirir novos conhecimentos importa – e muito. “Temos algo para as pessoas buscarem sabedoria em tempos de crise sem gastar dinheiro”, afirma. O Bliive já conta com mais de 100 mil usuários orgânicos, 90 mil horas de experiências trocadas e está em 112 países. Toda a expansão se deu de maneira espontânea e orgânica.

Se o cenário do mercado de trabalho, das interações sociais e o perfil de quem está começando uma carreira são tão particulares da época presente, como encontrar saída para o desemprego? Todos os especialistas são unânimes ao constatar que não há receita de bolo certa, é preciso traçar e testar métodos.

No caso da Accentury Strategy, foram definidas possíveis soluções táticas e estratégicas. O primeiro grupo indica a necessidade de identificar as diferenças entre as competências que os jovens possuem e que as empresas precisam; oferecer capacitação dirigida a tais necessidades; unir a sociedade civil, governo, setor privado e instituições de ensino; e flexibilizar contratações. Já o segundo conjunto de ideias diz respeito à criação de políticas públicas para integrar o jovem ao mercado; realizar alterações estruturais nos sistemas de ensino e fortalecer a legislação trabalhista, a fim de evitar a informalidade.

A equipe do Bliive também percebeu que poderia agir para ajudar instituições: adaptaram a plataforma e criaram uma versão específica para funcionar dentro de empresas, estimulando o câmbio entre os próprios colaboradores como uma maneira de valorizar suas habilidades especiais. Para Breno, os desafios das instituições são o gap geracional, a humanização das relações e a visão organizacional.

“Os jovens têm a função de quebrar paradigmas. Por que não é possível desburocratizar um pouco? ”, diz, dando exemplo de um dos maiores entraves das grandes corporações. “São pequenas travas que podem mudar”. Ele complementa que essa cooperação é possível ainda mantendo o jovem em seu papel natural de aprendiz. E sugere mais colaboração entre as empresas: “se existe pesquisa salarial, por que não pesquisar os conhecimentos das pessoas e depois divulgar resultados e aprendizados? ”.

O evento

Nos dias 22 e 23 de setembro, a Conferência Ethos 360° reuniu diferentes especialistas da área de responsabilidade social, de empreendedorismo e de negócios inovadores e sustentáveis. Com um formato diferenciado, todos os debates dividiram um amplo espaço sem paredes. Os participantes tinham que usar fone de ouvido e sintonizar na palestra de seu interesse. Os temas abordados nos debates foram: integridade, combate à corrupção, progresso social, desenvolvimento, diversidade, liderança, conservação do meio ambiente, juventudade, gênero, ações colaborativas, big data, inovação, captação de recursos, resíduos sólidos, entre outros. Confira aqui: http://www.ce2015.org/


Texto: Natália Freitas
Data original de publicação: 28/09/2015