Desafios aos jovens de periferia

Estudo ouviu os jovens para conhecer seus desafios na busca por oportunidades.

 

Fundação Itaú Social oferece a publicação Novos fluxos na busca por oportunidades: trajetórias de jovens nas periferias da cidade, de autoria de Fernanda Zanelli, gestora de projetos socioculturais para juventude da organização. O levantamento mostra que as soluções do dia a dia feita pelos jovens podem servir como inspiração ao poder público e às organizações da sociedade civil.

O levantamento é a escuta de jovens para entender melhor suas dificuldades e alternativas indicadas por eles em suas trajetórias. É destinada preferencialmente a gestores e educadores sociais. Nos anos de 2014 e 2015, foram feitas entrevistas com grupos focais de jovens de 15 a 29 anos moradores de bairros periféricos de todas as regiões da capital paulista e de São Bernardo do Campo na região metropolitana. No total, foram 15 pessoas consultadas.

A pesquisa também incluiu suas observações em espaços ocupados por esse público, como: escolas, bairros e intervenções culturais. Além do material coletado, somou-se aprendizados de pesquisas de maior abrangência estatística e geográfica, registros compartilhados por eles em redes sociais e outros canais.

Fernanda explicou que a pesquisa tem um olhar mais aprofundado e traz trajetórias individuais buscando respostas que precisam ser decifradas. “Nós acompanhamos nos últimos anos uma sequência de manifestações que ganharam pauta nacional, como as de junho que tinham um grande protagonismo juvenil e os rolezinhos que tinham uma pauta muito grande de direito à cidade”.

No início da publicação, foram citados os movimentos de ocupação das escolas estaduais pelos próprios alunos que não concordaram com a proposta de reorganização escolar do governo estadual e cortes da gestão federal para a área da educação; os protestos de junho de 2013 liderados pelo Movimento Passe Livre contra aumento de R$ 0,20 das passagens na época e problemas da mobilidade urbana na capital e o episódio dos rolezinhos nos shoppings centers e parques, que chegaram a concentrar quase seis mil jovens em uma só tarde.

Foi observado que esse público tem necessidade de ter espaços de socialização e lazer, produzir e divulgar produções culturais. Atualmente temos 84% dos jovens residindo nas regiões urbanas e estão majoritariamente nas periferias. Não só as periferias são diferentes entre si, mas também abrigam as disparidades sociais da cidade.

A publicação também mostra a relação do jovem com seus bairros, as respostas deles com os desafios e as oportunidades. Quando esse jovem começa a acessar outros bairros, ele se sente deslocado, porque já não se sente parte do bairro onde nasceu, por passar a maior parte do tempo dele fora, muito menos das outras regiões que começou a frequentar por estudo ou trabalho.

Esse público é ainda bem influenciado pelo grupo de amigos. O tempo em que eles ficam nas redes sociais e como são influenciados pelos youtubers no processo de tomada de decisões. Primeiro, a escola é um espaço de socialização e articulação de oportunidades. Em segundo lugar, as redes como chamados para a juventude, em que eles contam com o apoio de amigos (classificados como laços fortes) para ver novidades com os desconhecidos (laços fracos).

Esse público sente muito medo. Os dados justificam esse estado. Segundo o Mapa da Violência de 2014 a principal vítima é o jovem negro, já que para cada branco que morre assassinado morrem 2,7 jovens negros. Houve ainda aumento de 5% do percentual entre mortes cometidas pela polícia e o total de homicídios em 2000 para 21% em 2014, publicado no estudo Juventude e Violência na Cidade de São Paulo, de dezembro de 2015, realizado pela Prefeitura de São Paulo e a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania, em parceria com a Universidade de São Carlos. Já o Mapa da Juventude, realizado pela Universidade Estadual de Campinas de 2014, traz que Campo Limpo ainda é um dos bairros com maiores índices de morte por causas externas.

Há um capítulo direcionado para a família. Segundo Fernanda, trabalhar com esse grupo é difícil nos projetos. “Quando você afasta a família, ela tende a não entender qual a importância do que o jovem está fazendo nesse espaço e começa a trabalhar contra. Há situações em que a família vai apoiar e outras não. Se a organização não conseguir mostrar qual é sua produção, se torna difícil esse diálogo com essa família e mediar se ela não está junto com esse jovem”.

Em geral, essas organizações possuem poucos recursos e precisam estudar direito essa aproximação com os pais. Por outro lado, têm observado que a organização consegue mostrar aos pais dos jovens que aquelas horas são importantes para a formação deles. “As organizações sociais têm dificuldade grande em traduzir tudo o que fazem para as famílias. E elas criam uma grande expectativa de que esse jovem arrume um emprego, ou passar no vestibular. Se não for isso, ele não serve”, pontua Fernanda.

Outro fenômeno citado é do ‘nem nem’, que são aqueles jovens que nem estudam nem trabalham. De acordo com os dados da Pesquisa Mensal de Emprego reportado ao no relatório do Insper A condição ‘nem nem’ entre os jovens é permanente, divulgada em agosto de 2013, mostra que de 2003 a 2011 no Brasil as taxas anuais de jovens nessa condição se mantiveram expressivas, sendo 14,1% e 15,2%, respectivamente. Chama atenção aos jovens menos escolarizados, que não completaram o ensino fundamental e para as mulheres, cuja a entrada e permanência na condição nem nem é muito superior à dos homens. Há indícios de que essa situação em relação ao gênero feminino seja intensificada pelo trabalho doméstico.

Há um capítulo destinado ao papel dos mediadores, pessoa responsável por fazer o intermédio entre jovens e suas famílias, que possuem papéis decisivos entre relação entre famílias e instituições que atuam com juventude. Essa relação só ocorre, caso o jovem legitima o seu mentor como tal, se identifica com a pessoa. Nesse processo, fica nítido que ele ainda busca referências para tomar decisões, algumas vezes com a família e outras com agente externo.

A publicação também aborda quando esse jovem sai do mundo comum dele para lidar com a violência, passando pelas condições precárias de mobilidade urbana e as barreiras invisíveis que muitas vezes cercam a periferia. Essa fase é narrada no capítulo chamado Travessia, que costuma ser intenso e irreversível já que é conhecida como uma fase determinante na jornada do herói em que se direciona para a grande aventura. Esses próximos passos são a exploração de novos lugares, que pode ser em seu próprio bairro, esses limites não são apenas nos aspectos geográficos. Eles enfrentam outros muros simbólicos, especialmente os jovens negros que em geral são vistos como ameaças por onde circulam.

A transição para o ensino médio também é um momento de tensão para aqueles que buscam oportunidades em escolas públicas e particulares. Alguns deles já demonstram capacidade de interlocução com diversas instituições durante esse período escolar.

Eles citaram as seguintes expressões: ‘por a mão na massa’ e ‘produzir’. Eles ainda defendem e têm interesse em outras formas mais lúdicas de ensino, como jogos ou dinâmicas. Essas constatações coincidiram com os resultados de uma pesquisa da Fundação Vistor Civita com coordenação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), em 2013, em que eles pedem atividades práticas ou com exemplos do cotidiano para facilitar o aprendizado.

Eles observaram que esse público demonstra grande capacidade de interlocução com diversas instituições durante o ensino médio, articulando essa fase do ensino com temas como identidade, cidadania, trabalho e ampliação de repertório sociocultural. É natural a participação em diferentes iniciativas ao mesmo tempo, como projetos, cursos e oportunidades de trabalho. Sugere ainda que essas instituições poderiam acolher essa forma de participação para que eles possam dialogar com os jovens sobre suas escolhas: “É necessário construir uma ponte entre os jovens e as possibilidades de entrada no ensino superior” (afirmação retirada da publicação).

A gestora da Fundação ainda observa que esses programas de capacitação contribuem diretamente nesse público para o aumento da escolaridade e até no processo de construção de rede dentro do movimento de economia criativa. No final, a publicação mostra o fortalecimento de coletivos culturais nas periferias como oportunidades de negócios nas seguintes áreas: cultura, design, moda e fotografia. Aqueles que trabalham nesses grupos investem nessa nova forma de se relacionar com o trabalho e procuram alternativas para obter renda e desenvolver seus talentos. “Os coletivos têm papel fundamental nisso e estão desenhando ações no território deles. Os jovens estão numa situação de que tem o mundo para desbravar e precisa acionar uma rede para costurar. Não se trata apenas de conhecimento e sim de que ele não sabe articular ainda”.

Acesse aqui a publicação na íntegra: http://bit.ly/2y0lmHn

Site da Fundação Itaú Social: https://itausocial.org.br/pt